Alexandre Curi perdeu a eleição, mas não o endereço do poder. O que passa em sua cabeça?
Na política, a derrota costuma esvaziar gabinetes antes mesmo que os retratos sejam retirados das paredes. Os telefonemas diminuem, os aliados descobrem outros compromissos e os corredores recuperam o silêncio. No gabinete de Alexandre Curi (Republicanos), porém, a cena da última terça-feira (20) sugeria outro roteiro: faltava espaço para tanta gente.
Deputados eleitos e reeleitos, prefeitos, lideranças de várias regiões e amigos aguardavam uma conversa com o presidente da Assembleia Legislativa do Paraná. A secretária se desdobrava para acomodar os visitantes. Para quem imaginava encontrar um político entregue à ressaca eleitoral, o movimento oferecia uma provocação.
Afinal, por que tanta gente procurava alguém que perdeu a eleição e se aproxima do encerramento do mandato?
Em uma publicação nas redes sociais, Curi lançou uma pergunta sobre si mesmo: “O que passa na cabeça dele?”. A resposta, evidentemente, só ele tem. Mas o movimento em seu gabinete ajuda a formular outra: o que passa na cabeça de quem continua procurando por ele?
Certamente, cada visitante tinha sua demanda. Seria precipitado transformar uma sala cheia em compromisso de apoio futuro. Ainda assim, a cena tem significado político. Mostra que Curi permanece como interlocutor de lideranças que continuarão exercendo mandatos quando ele deixar a Assembleia.
A derrota ao Senado interrompeu um projeto, mas não apagou a rede de relações construída ao longo de sua trajetória. Curi iniciou a carreira como vereador de Curitiba e chegou ao sexto mandato consecutivo como deputado estadual. Conhece os municípios, os caminhos do Legislativo e as diferenças entre o discurso de palanque e a conversa necessária para construir um acordo.
Sua derrota também precisa ser examinada no contexto das escolhas do grupo governista. Ratinho Junior apostou em uma estratégia de sucessão que não produziu o resultado esperado. Na minha avaliação, Curi pagou parte dessa conta: disputou uma eleição que exigia força própria enquanto carregava o peso de decisões tomadas pelo comando político ao qual estava associado.
Os estrategistas do poder gostam de desenhar o futuro como se o eleitor fosse apenas preencher os espaços reservados no mapa. Depois das urnas, descobrem que o cidadão também segura o lápis — e, às vezes, passa uma borracha no planejamento inteiro.
Isso não dispensa Curi de avaliar sua campanha. Uma derrota exige autocrítica, inclusive de quem trabalhou e construiu apoios. Mas seria igualmente um erro confundir o resultado eleitoral com uma sentença de irrelevância.
O gabinete cheio tampouco assegura o futuro. Parte do movimento ainda decorre da presidência da Assembleia e das atribuições que ele exerce. O teste mais revelador virá depois, quando já não houver a estrutura do cargo nem a caneta à disposição. Será então possível medir quanto dessa procura pertence à função e quanto pertence ao próprio Alexandre Curi.
Há, contudo, sinais de que ele não pretende assistir aos próximos quatro anos da arquibancada. Quem mantém portas abertas, recebe lideranças e preserva o diálogo continua participando da construção política, mesmo sem saber ainda qual posição ocupará.
O que passa na cabeça de Alexandre Curi? Talvez uma revisão dos erros, uma reorganização de caminhos ou um projeto que ainda não chegou a hora de anunciar. Qualquer resposta além disso seria adivinhação.
A fila, por enquanto, permite uma conclusão mais simples: quem o procura ainda considera que ele tem algo a dizer — e alguma capacidade de fazer acontecer.
Na política, o silêncio dos corredores pode anunciar o fim. No gabinete de Curi, ainda há gente esperando para conversar.





