O professor Paulino Motter, jornalista e gestor público, mestre em Ciência Política pela Universidade de Brasília (UnB) e doutor em Educação pela Universidade de Wisconsin-Madison (EUA), faz uma narrativa cirúrgica sobre o golpismo – aqui e lá -. Veja o artigo:
A Deriva Autocrática Americana e a Encruzilhada Brasileira de 2026
Paulino Motter
Em julho de 2022, às vésperas das eleições brasileiras, a Casa Branca, sob o comando de Joe Biden, exerceu um papel decisivo — e discreto — para dissuadir o alto comando militar brasileiro de aderir ao golpe de Estado que vinha sendo tramado por Jair Bolsonaro diante da iminente derrota nas urnas. Ciente do risco de uma escalada autoritária no Brasil, o governo Biden enviou ao país um emissário de altíssima patente: o Secretário de Defesa Lloyd Austin. Na ocasião, Austin reuniu-se com as cúpulas das Forças Armadas e deixou claro que os Estados Unidos, ainda sob liderança democrata, não aceitariam qualquer ruptura da ordem constitucional brasileira. Como resumiria dias depois: “As Forças Armadas devem estar sob controle civil e respeitar as instituições democráticas”.
Foi um recado duro e direto do general americano — e surtiu o efeito esperado. A adesão decisiva dos militares ao golpe de Bolsonaro — que estava sendo gestado no Palácio do Planalto, como os inquéritos do STF hoje escancaram — foi contida em boa medida pelo posicionamento firme do governo norte-americano. Biden não agiu por apreço pessoal a Lula ou qualquer afinidade ideológica. Agiu porque a ruptura democrática no Brasil seria, naquele momento, inaceitável para Washington e ameaçaria desestabilizar toda a região.
É irônico — e profundamente sintomático da instabilidade democrática global — que três anos depois, neste outro julho, a Casa Branca, agora novamente sob o comando de Donald Trump, tenha se convertido na ponta de lança de uma contraofensiva golpista, envolvendo os mesmos personagens da conspiração de 2022. Na última quarta-feira (9/7), Trump enviou ao Brasil não um comunicado diplomático, mas um torpedo público, no qual não apenas defendeu Bolsonaro, hoje réu no STF por tentativa de golpe, como ameaçou o Brasil com uma chantagem econômica sem precedentes: a imposição de tarifa de 50% sobre todas as exportações brasileiras para os EUA, efetivas a partir de 1º de agosto, a menos que o Governo Lula interfira no Judiciário e suspenda o julgamento de Bolsonaro.
É impossível não identificar nesse gesto o avanço de um projeto autoritário de alcance global, liderado por Trump e seus aliados. Este projeto ameaça pôr abaixo a ordem mundial, mediante interferências acintosas em países com os quais, até poucos meses, os EUA mantinham sólidas alianças. A estratégia colocada em marcha pelo trumpismo, no âmbito doméstico e externo, rompe com princípios democráticos e civilizacionais básicos, intimida tribunais e juízes, ameaça prender adversários — como o jovem líder Zohran Kwame Mamdani, azarão que venceu as primárias democratas e se tornou favorito na disputa pela Prefeitura de Nova Iorque — e premia autocratas e líderes de perfil abertamente antidemocrático.
Nos últimos dias, coincidindo com o protagonismo do Brasil como anfitrião da Cúpula dos BRICS, Trump — o bully-in-chief — transformou o país em alvo preferencial de seus ataques, culminando com a carta infame divulgada no meio da semana. O mais desconcertante é constatar que a ofensiva intimidatória da Casa Branca foi tramada em colaboração com a família Bolsonaro, com apoio da bancada do PL no Congresso e de governadores bolsonaristas-raiz, como o de São Paulo, Tarcísio de Freitas. O trumpismo e o bolsonarismo são irmãos siameses — e conspiram juntos contra as instituições democráticas.
A mudança paradoxal de postura da Casa Branca em relação ao Brasil, no curto intervalo de três anos, revela a velocidade e a profundidade da deriva autocrática que sacode os Estados Unidos, colocando à prova as bases da sua própria democracia. Se em 2022 o Departamento de Estado e o Pentágono atuavam para preservar a estabilidade democrática no Brasil, em 2025, a mesma Washington se tornou patrocinadora do golpismo, associando-se publicamente a Jair Bolsonaro e seus asseclas.
É necessário lembrar — e aqui reside uma ironia cruel — que, se Trump tivesse triunfado nas eleições de 2020 e o desfecho eleitoral brasileiro de 2022 tivesse sido o mesmo, com a vitória de Lula, o golpe tramado por Bolsonaro teria sido levado adiante com o apoio da Casa Branca. Não haveria general com a coragem de Lloyd Austin para dar recados firmes à alta cúpula das Forças Armadas brasileiras. Pelo contrário, haveria incentivo. E estaríamos hoje novamente sob o jugo de uma ditadura.
Essa inversão de posição de Washington em relação ao Brasil não é um fenômeno isolado. É parte da deterioração institucional americana desde a ascensão e o retorno do trumpismo, fenômeno que agora ameaça institucionalizar a autocracia nos Estados Unidos e exportá-la. O gesto de Trump em relação ao Brasil não é um ponto fora da curva: é o novo normal — a prática de sua doutrina de ruptura do multilateralismo, de desprezo pelas instituições internacionais e de tentativa de subordinação dos demais países a uma condição de vassalos. Afinal, Trump quer restabelecer a política intervencionista do período da Guerra Fria, que transformou a América Latina em quintal dos EUA.
Diante desse cenário, é de se esperar maturidade dos líderes brasileiros. Numa inédita inversão de papéis, o Brasil está hoje no front da resistência democrática, juntamente com seus aliados regionais e europeus. Ao lado da Índia e da Indonésia, membros plenos do BRICS, somos as maiores democracias do Sul Global.
Assim como a maioria de nós brasileiros deu seu veredito a Bolsonaro nas urnas em 2022, é de se esperar — e torcer — que os Estados Unidos sobrevivam à era Trump e recuperem a tradição democrática que ajudaram a construir. Que novas lideranças, como Mamdani, restabeleçam a confiança dos americanos em suas instituições republicanas. O vigor da sociedade civil americana é a trincheira que pode deter o avanço da autocracia trumpista. Há esperança.
Mas nunca antes, na história dos Estados Unidos — que no próximo ano irão comemorar 250 anos como nação independente — seus fundamentos estiveram tão ameaçados. Quem não se lembra dos barões das Big Techs perfumados atrás de Trump em sua posse, prestando-lhe vassalagem? Alguém se esquece de que, a despeito de sucessivas prorrogações, o TikTok deverá passar ao controle de investidores americanos para continuar operando no país, por decisão do Congresso dos EUA, ainda no governo Biden?
E quem ainda se recorda do escândalo da Cambridge Analytica, em conluio com o Facebook, na campanha presidencial de 2016, que propiciou o uso indevido de perfis de milhões de usuários para marketing político personalizado — determinante para a apertada vitória de Trump sobre Hillary Clinton? O império nunca abdicou de suas ambições — e segue ameaçando seus vizinhos e aliados históricos.
A deriva autoritária americana é um fenômeno real, e seus reflexos no Brasil são concretos. É dever do Estado brasileiro, do Congresso Nacional, do Supremo Tribunal Federal e da sociedade civil organizada responder com firmeza — mas com maturidade institucional — a qualquer tentativa de ingerência ou chantagem estrangeira. E que fique claro: o Brasil não aceitará golpes e rupturas constitucionais tramadas por quem já recebeu o veredito das urnas e agora aguarda sentença da Justiça brasileira, em conluio com a autocracia do Norte.
O Brasil não se dobrou em 2022. E não se curvará diante das ameaças de Trump. Na encruzilhada que se avizinha em 2026, só há uma escolha: a via democrática. Os golpistas não passarão.
⸻ Paulino Motter é jornalista e gestor público, mestre em Ciência Política pela Universidade de Brasília (UnB) e doutor em Educação pela Universidade de Wisconsin-Madison (EUA).





