Por Alexandre Henrique Martori –
A relação entre celulares e câncer é uma dúvida que acompanha a popularização dos aparelhos desde os anos 1990. O receio surgiu porque, durante as chamadas, o dispositivo permanece próximo à cabeça e emite radiação eletromagnética. Em 2011, a Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC), ligada à OMS, chegou a classificar essa radiação como “possivelmente cancerígena”. A decisão, tomada por precaução, gerou ampla repercussão, mas não se apoiava em evidências conclusivas.
Desde então, profissionais vêm acompanhando milhões de pessoas em diferentes países por longos períodos sobre esse caso. A conclusão predominante é que não há aumento significativo no risco de câncer entre usuários de celulares, mesmo entre aqueles que utilizam o aparelho por muitas horas semanais. Se algum risco existir, apontam os cientistas, ele seria extremamente baixo.
Para compreender esse resultado, é importante diferenciar os tipos de radiação. Os celulares emitem radiação não ionizante, que não tem energia suficiente para danificar o DNA das células. É um fenômeno distinto da radiação ionizante, como raios-X e radiação nuclear, que sim pode causar mutações genéticas e câncer. O efeito máximo da radiação de um celular é um leve aquecimento localizado, insuficiente para provocar danos celulares permanentes.
Aparelhos comercializados no Brasil e no mundo precisam obedecer a padrões internacionais de segurança que limitam a emissão de radiação. Mesmo em situações de sinal fraco, quando o celular aumenta a potência para se conectar, os níveis permanecem dentro do considerado seguro pelas autoridades regulatórias.
Se o risco de câncer não encontra respaldo científico, os efeitos mais preocupantes do uso inadequado dos celulares estão em outras áreas da saúde. Dormir com o aparelho próximo à cabeça pode prejudicar o sono, devido à luz da tela e às notificações constantes. Além disso, o uso excessivo está relacionado a ansiedade, sedentarismo, dores musculoesqueléticas e até acidentes de trânsito.
Uma pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), por exemplo, concluiu que o uso excessivo de telas está ligado à piora da saúde mental de idosos, adultos, adolescentes e crianças. Segundo o estudo, sintomas de estresse, depressão e ansiedade foram observados nas pessoas que utilizam aparelhos como celular e computador com muita frequência.
Por isso, algumas medidas podem reduzir os impactos negativos do uso, como evitar dormir com o celular embaixo do travesseiro, preferir o viva-voz ou fones em ligações longas, fazer pausas durante o uso prolongado da tela, reduzir o tempo de exposição antes de dormir e evitar chamadas muito extensas quando o sinal estiver fraco. Essas práticas não estão ligadas ao medo de câncer, mas sim ao bem-estar e à preservação da saúde física e mental.
Portanto, os celulares não representam risco comprovado de câncer dentro das condições normais de uso. O que a ciência já mostra com clareza é que os efeitos do mau uso são imediatos e tangíveis, afetando sono, postura e atenção. O desafio atual não é temer a radiação, mas aprender a equilibrar os benefícios da conectividade com cuidados essenciais de saúde.
(*) Alexandre Henrique Martori é médico cooperado da Unimed Franca, especialista em Neurologia, Neurofisiologia Clínica e Medicina do Sono. Mestre em Ciências (Neurologia) pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP-USP).





