Tecnologia, governança e cultura: o novo cenário da advocacia tradicional

Por Fernanda Martorelli

O setor jurídico brasileiro está passando por uma transformação profunda que vai muito além da simples adoção de ferramentas tecnológicas. Trata-se de repensar como os escritórios de advocacia operam, lideram e entregam valor aos clientes.  

A tradição, embora continue sendo um ativo valioso, precisa se integrar a práticas capazes de responder à complexidade e à velocidade do mercado contemporâneo. Em 2025, o Brasil conta com mais de 1,5 milhão de advogados registrados na OAB, consolidando-se como o país com a maior proporção de advogados per capita do mundo.   

Nesse cenário, os recursos tecnológicos deixaram de ser meros auxiliares e se tornaram parte central da estratégia dos escritórios. A automação de tarefas, a inteligência artificial aplicada a análises jurídicas e o uso estruturado de dados ampliam a eficiência e permitem que os especialistas concentrem o seu tempo no que exige julgamento humano e visão crítica. Ferramentas como jurimetria já são utilizadas para prever resultados de processos e otimizar decisões estratégicas, trazendo maior assertividade ao trabalho jurídico. 

A governança também se tornou um pilar essencial para escritórios que desejam crescer de forma sustentável. Estruturas claras de tomada de decisão, alinhamento entre sócios e transparência com clientes e colaboradores garantem consistência a longo prazo e reduzem riscos reputacionais. O que antes era um diferencial restrito ao universo corporativo agora se tornou competitivo no setor jurídico, sendo decisivo para a consolidação e longevidade das bancas. 

Além de tecnologia e governança, a cultura organizacional define se um escritório está preparado para se reinventar. Liderar não significa apenas moldar pessoas e padrões, mas criar espaço para que talentos floresçam. Diferentes competências, perspectivas e vozes se somam para gerar soluções mais completas e inovadoras para os clientes. Uma cultura que valoriza autonomia, colaboração e aprendizado contínuo transforma equipes em verdadeiras orquestras de talentos, capazes de enfrentar os desafios de um mercado em constante evolução. 

O setor também observa tendências emergentes que reforçam essa transformação. A área de Legal Operations, por exemplo, organiza processos internos, gestão financeira, tecnologia e inteligência de dados, promovendo maior eficiência e controle estratégico. A inovação aberta, por meio da colaboração entre escritórios e empresas de tecnologia, permite o desenvolvimento de soluções customizadas para as demandas do setor. Além disso, a internacionalização e parcerias estratégicas têm ampliado o alcance dos escritórios, como demonstra a aliança entre escritórios brasileiros e europeus, oferecendo serviços coordenados para clientes com interesses globais. 

A tradição e a transformação não são forças opostas. Uma trajetória sólida se fortalece quando se incorporam tecnologia com propósito, práticas de governança estruturadas e uma cultura que valoriza autonomia e colaboração. É nesse ponto de convergência entre legado e futuro que os escritórios encontram sua capacidade de gerar valor consistente para clientes, equipes e sociedade. A advocacia que se reinventa não abandona sua essência; ela amplia sua atuação para responder à complexidade de um mundo em transformação, mantendo relevância, competitividade e compromisso com resultados de longo prazo. 

(*) Fernanda Martorelli é CEO de Martorelli Advogados, fundado em 1983, onde lidera a transformação de desafios em oportunidades por meio de uma gestão estratégica, inovadora e voltada à eficiência.

Pedro Ribeiro

Jornalista há mais de 48 anos, com passagem pelos principais meios de comunicação do Paraná e autor de vários livros publicados.

Outras publicações