Caso Benício: tragédia em Manaus expõe falhas sistêmicas na segurança pediátrica

Por Caroline Daitx – “Sistemas eletrônicos que oferecem prescrições automáticas podem induzir erros quando não há governança clínica rigorosa”.

A morte do menino Benício Xavier de Freitas, de 6 anos, no Hospital Santa Júlia, em Manaus (AM), após receber adrenalina por via endovenosa em vez de inalatória, trouxe à luz um problema estrutural na assistência hospitalar: a fragilidade das barreiras de segurança que deveriam prevenir erros fatais. O episódio não é apenas um erro individual, mas um exemplo de falhas sistêmicas envolvendo tecnologia, processos e cultura organizacional.

O caso é um alerta contundente. O caso do menino Benício é uma tragédia que reforça erros sistemáticos. Na nossa profissão, a verdade é dura: nós não temos o direito de errar. Vamos falar de algo que as redes não mostram: prontuários eletrônicos com listas prontas de sugestões de prescrições — a tecnologia ao nosso favor, ou não. Instituições de saúde e sistemas de prontuário e prescrição devem tomar muito cuidado com isso.

Sistemas eletrônicos que oferecem prescrições automáticas podem induzir erros quando não há governança clínica rigorosa. Mas a tecnologia não é a única barreira que falhou. A segunda barreira é a enfermagem, que pode estranhar uma prescrição e checar com o médico. A terceira é a farmácia clínica fazendo a tripla checagem. Falhas de atenção que, somadas, custam vidas.

Há de se destacar a barreira mais negligenciada: a voz da família. A mãe sabia que a adrenalina seria inalatória, percebeu que estava sendo aplicada de forma diferente e alertou. E não foi ouvida. Isso é exatamente o que a ciência nos diz: familiares melhoram a segurança hospitalar. Um estudo com 720 familiares de 383 crianças mostrou que eles detectam cinco vezes mais erros do que os sistemas tradicionais e aumentam a detecção geral em 15%. A mãe do Benício fez exatamente isso — e o sistema falhou em não a ouvir.

O caso levanta uma questão urgente: os hospitais estão preparados para ouvir os familiares? Implementar essa prática exige treinamento, protocolos claros e mudança cultural, mas os dados indicam que sistemas que valorizam a participação da família são mais seguros e reduzem significativamente a ocorrência de erros. Ignorar essa voz tem um preço — e, neste caso, foi a vida de uma criança.

(*) Caroline Daitx é médica especialista em medicina legal e perícia médica, pós-graduada em gestão da qualidade e segurança do paciente, Doutoranda do departamento de patologia forense da USP Ribeirão Preto e autora do livro “Alma da Perícia”. Foi diretora científica da Associação dos Médicos Legistas do Paraná.

Pedro Ribeiro

Jornalista há mais de 48 anos, com passagem pelos principais meios de comunicação do Paraná e autor de vários livros publicados.

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