Entre Lula e Bolsonaro, o Brasil segue sem sair do lugar

A política brasileira à mercê de Lula e Bolsonaro gira em círculos, presa a uma polarização que impede avanços.

Paulo Meyer Filho, com quem converso sempre sobre política, é um observador do quadro sucessório no Paraná e no Brasil. Tem propriedade para falar porque participa de campanhas e sempre está na linha de frente, o que chamamos de mobilização.

Esta semana ele nos brindou com um texto analítico sobre o que está acontecendo na área política nacional e o que precisa para que o Brasil saia da armadilha da polarização.

 “Não se trata de escolher entre Lula ou Bolsonaro. Trata-se de reconhecer que os dois são parte do mesmo problema e que, enquanto continuarmos presos a esse duelo, o país seguirá travado”, diz em seu texto.

Para Paulo Meyer, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi condenado em mais de uma instância por corrupção e chegou a cumprir pena. Isso é fato histórico. Ele não foi declarado inocente. Suas condenações foram anuladas por decisões processuais do Supremo Tribunal Federal, envolvendo incompetência de foro e a parcialidade do juiz, não por inexistência de provas. O próprio Judiciário nunca disse que os fatos não ocorreram. Disse que o processo foi conduzido de forma incorreta. Ou seja, Lula voltou à política não por absolvição, mas porque o sistema falhou na forma, e isso permitiu que tudo fosse refeito até a prescrição. Isso também é fato.

Do outro lado, Jair Bolsonaro construiu sua força política não com propostas estruturais, mas explorando o antipetismo, o medo e a divisão. Seu governo foi marcado por ataques às instituições, desprezo pela ciência, gestão desastrosa da pandemia, conflitos constantes e um ambiente de radicalização permanente. Bolsonaro não governou para unir. Governou para manter sua base mobilizada contra um inimigo, real ou imaginário.

O ponto central é este: Lula e Bolsonaro não são opostos que se anulam. Eles se alimentam um do outro. Um só existe politicamente porque o outro existe. Quanto mais Lula é atacado como símbolo da corrupção, mais Bolsonaro se fortalece como “antissistema”. Quanto mais Bolsonaro radicaliza, mais Lula se apresenta como o “mal menor” e defensor da democracia. É um ciclo vicioso.

Essa dinâmica sufoca qualquer alternativa racional. Quem tenta discutir gestão pública, equilíbrio fiscal, saúde, educação ou reformas estruturais é engolido pelo grito, pela torcida e pelo ódio. A política vira Fla-Flu. E quando a política vira torcida, o país perde.

Enquanto isso, os mesmos problemas seguem sem solução. A desigualdade permanece. O Estado continua ineficiente. A classe política segue protegida. E o cidadão comum é empurrado a escolher lados, como se não houvesse outra opção. Mas há. Sempre houve.

Racionalidade não é ser “isentão”. Racionalidade é reconhecer fatos, cobrar responsabilidades e recusar o jogo da manipulação emocional. É entender que corrupção não deixa de ser corrupção porque “é do meu lado”. É perceber que autoritarismo não vira virtude porque “combate o outro extremo”.

O Brasil não precisa de salvadores da pátria nem de líderes messiânicos. Precisa de instituições fortes, justiça que funcione sem seletividade, políticos que prestem contas e uma sociedade que pare de aceitar a lógica do medo como critério de voto.

Romper com a polarização não é ficar em cima do muro. É sair do ringue. É escolher maturidade num ambiente infantilizado. É exigir mais do que narrativas, slogans e inimigos convenientes.

Enquanto Lula e Bolsonaro forem o centro do debate, o país continuará andando em círculos. O avanço real só virá quando a sociedade decidir que não quer mais ser refém de extremos que se retroalimentam, e passar a exigir política com responsabilidade, razão e compromisso com o futuro, não com o passado.

Essa escolha não é ideológica. É civilizatória

Pedro Ribeiro

Jornalista há mais de 48 anos, com passagem pelos principais meios de comunicação do Paraná e autor de vários livros publicados.

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