Talvez o Brasil não esteja procurando um novo herói. Talvez esteja apenas cansado dos mesmos personagens, presos num roteiro antigo, repetitivo e barulhento.
Quentin Tarantino construiu no filme “Os Oito Odiados”, um ambiente sufocante, violento e desconfiado, onde ninguém é exatamente herói e todos parecem ter algo a esconder. Guardadas as devidas proporções, a mais recente pesquisa Atlas sobre os políticos mais rejeitados do Brasil lembra bastante aquele cenário: personagens presos no mesmo espaço, armados até os dentes de discursos, e incapazes de confiar uns nos outros — ou no público.
Encabeça a lista dos cinco mais rejeitados, o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Mota, seguido de David Alcolumbre e Ciro Gomes. Completam a lista, Flávio Bolsonaro e Jair Bolsonaro.
Na política brasileira, o roteiro é parecido. Ninguém suporta mais os discursos de certos protagonistas enraizados no Congresso Nacional que repetem falas, trocam tiros retóricos e disputam quem grita mais alto. O problema é que, fora da bolha, o público já decidiu: não torce por ninguém. Apenas espera que o estrago seja menor.
Assim como no filme, não há mocinhos claros. Há figuras que se sustentam pela força do passado, outras pela gritaria do presente, e algumas pelo barulho artificial das redes sociais. Todas carregam rejeição elevada — não por acaso, mas por excesso. Excesso de ego, de bravata, de promessas e de guerras inúteis.
O dado mais cruel da pesquisa é que ela transforma a polarização em algo ainda mais desconfortável: um saloon político onde os personagens insistem em duelar enquanto a plateia já saiu pela porta dos fundos. O eleitor não quer escolher o mais rápido no gatilho, mas simplesmente alguém que baixe a arma.
No faroeste de Tarantino, a violência é o destino quase inevitável de quem não consegue negociar. Na política brasileira, a rejeição cumpre papel semelhante: é a consequência de quem prefere vencer o inimigo a convencer a sociedade.
Talvez o Brasil não esteja procurando um novo herói. Talvez esteja apenas cansado dos mesmos personagens, presos num roteiro antigo, repetitivo e barulhento. E quando metade do público rejeita os protagonistas, o problema não é a crítica — é o filme que já perdeu o sentido.





