Gilberto Kassab, o dono do centro (e de quase tudo)

Ratinho Junior terá que ter muito equilíbrio para conviver com o monstro da política

O governador Ratinho Junior (PSD), embora com boa experiência na política, como deputado federal e governador do Estado, está experimentando uma provação que poderá deixá-lo no centro das grandes discussões políticas nacionais, sentando à mesa com os chamados “líderes”. Mas, hoje, para viabilizar sua candidatura à Presidência da República, terá que enfrentar um desafio que foge às suas características e até ideologia política. Esse monstro que conturba a polícia chama-se Gilberto Kassab.

Kassab conseguiu um feito notável na política brasileira: inventou o centro ideológico com escritura registrada em cartório. O PSD não é exatamente um partido. É uma franquia de poder, com Kassab como sócio majoritário, administrador e síndico. Quem entra sabe: ali não se discute linha política, discute-se conveniência.

O discurso é sempre o mesmo — moderação, responsabilidade, equilíbrio institucional. Na prática, o PSD funciona como aquele convidado profissional de festa: nunca leva presente, mas sempre sai com a melhor fatia do bolo. Kassab já foi governista de Dilma, virou aliado de Temer sem trocar o tom de voz, flertou com Bolsonaro sem ruborizar as bochechas e hoje ocupa gabinetes estratégicos no governo Lula como se nada tivesse acontecido. Coerência? Só se for logística.

O tal “centro” de Kassab é elástico. Estica à esquerda quando há ministério disponível, puxa à direita quando o vento eleitoral muda e encolhe quando o custo político sobe. Ideologia, nesse modelo, é um acessório dispensável — entra e sai conforme a estação. O importante é estar sempre no prédio certo, no andar certo, com a chave do elevador.

Dentro do PSD, a democracia interna é um item de decoração. Não há prévias, debate ou divergência real. Há orientação. Governadores, prefeitos e parlamentares orbitam Kassab como satélites disciplinados, sabendo que a gravidade partidária não perdoa rebeldes. Quem questiona, descobre rapidamente que o centro também expulsa.

O monopólio fica mais explícito quando o assunto é 2026. O PSD abriga presidenciáveis, mas não tem pressa em lançá-los. Kassab prefere o suspense. Testa, acena, recua, negocia. Mantém Lula na agenda, a direita no radar e o partido em posição fetal, pronto para cair no colo de quem oferecer mais espaço e menos risco. Projeto nacional? Fica para a próxima reunião — que talvez nunca aconteça.

No fim das contas, Kassab não construiu um partido de centro. Construiu um negócio político altamente eficiente, onde a mercadoria é apoio, o ativo é tempo de televisão e o lucro é poder. O eleitor assiste, confuso, enquanto o “centro” se move — não para o meio, mas sempre para o topo.

E assim segue Kassab: moderado no discurso, radical na ocupação de espaços e imbatível na arte de estar sempre do lado certo… depois que o jogo já começou.

Pedro Ribeiro

Jornalista há mais de 48 anos, com passagem pelos principais meios de comunicação do Paraná e autor de vários livros publicados.

Outras publicações