Especialistas da ABN alertam para o desafio do diagnóstico de autismo em adultos.
No dia 18 de fevereiro, celebra-se o Dia Internacional da Síndrome de Asperger. A data, que homenageia o nascimento do pediatra Hans Asperger, ganha um novo contorno em 2026: a conscientização sobre a transição diagnóstica e a urgência de identificar adultos que, por décadas, viveram à margem de um suporte adequado.
Atualmente, os manuais diagnósticos internacionais (DSM-5 e CID-11) descontinuaram o uso do termo “Síndrome de Asperger”, unificando-o sob a classificação de Transtorno do Espectro Autista (TEA) nível 1 de suporte. Segundo especialistas da Academia Brasileira de Neurologia (ABN), essa mudança não é apenas técnica, mas reflete uma compreensão mais profunda e ética da neurodiversidade.
O “invisível” adulto de alta funcionalidade
Muitos adultos buscam consultórios neurológicos após anos de tratamentos para ansiedade ou depressão, sem saber que a causa base é o TEA. O Dr. Renato Arruda, neurologista e membro da International Society for Autism Research (INSAR), explica que esses pacientes frequentemente sofrem com um esgotamento social crônico.
“São indivíduos que passaram décadas recebendo diagnósticos fragmentados. A transição para o termo ‘TEA Nível 1’ ajuda a entender que o espectro é heterogêneo. Precisamos olhar para o ‘custo’ que esse paciente paga para socializar”, afirma o Dr. Arruda.
O fenômeno do masking e o viés de gênero
Um dos maiores obstáculos ao diagnóstico tardio é o masking (mascaramento). Adultos de alta funcionalidade desenvolvem estratégias sofisticadas para “parecerem neurotípicos”, o que gera um desgaste mental severo, podendo levar ao burnout.
Este cenário é ainda mais crítico em mulheres. Por apresentarem sintomas mais “internalizantes” e possuírem habilidades adaptativas superiores às dos homens, elas são frequentemente subdiagnosticadas, retardando o acesso a terapias que garantam qualidade de vida.
Como identificar e tratar
A identificação no adulto não se baseia apenas no comportamento em consulta, mas em uma anamnese longitudinal (histórico de vida). Os sinais de alerta incluem:
- Dificuldade persistente na interação social;
- Rigidez cognitiva e necessidade de rotinas estritas;
- Hipersensibilidade sensorial (sons, luzes ou texturas);
- Histórico de sensação de “inadequação” desde a infância.
Tem tratamento?
Diferentemente das crianças, o foco no adulto não é “curar” o autismo, mas gerenciar as comorbidades, que são a regra e não a exceção. Condições como TDAH, distúrbios do sono, ansiedade e depressão devem ser tratadas de forma integrada.
A medicina moderna também abandonou o epônimo “Asperger” por questões éticas, devido a evidências históricas do envolvimento do pediatra com instituições eugenistas do regime nazista. A ABN reforça que a nomenclatura atual é mais neutra e descritiva.
O Dr. Renato Arruda conclui que o futuro da neurologia brasileira deve focar no equilíbrio: “Devemos celebrar a neurodiversidade como instrumento de inclusão, mas sem romantizar o transtorno. O papel do neurologista é oferecer suporte baseado em evidências para reduzir o sofrimento e garantir funcionalidade em qualquer idade.”
A ABN
Fundada em 1962, a Academia Brasileira de Neurologia é uma das principais entidades médicas do país, reunindo mais de 5 mil neurologistas. Entre suas missões estão a promoção da educação médica contínua, o desenvolvimento científico e o cuidado com a saúde neurológica da população brasileira.





