Em meio a tanta polêmica, a Acadêmicos de Niterói ficou em 12° e último lugar. Como expressão cultural, opinião dos jurados; como efeitos políticos e judiciais, a aguardar.
Muito antes de inaugurar o desfile do grupo especial do Carnaval do Rio de Janeiro de 2026, a escola Acadêmicos de Niterói já levava ao Sambódromo uma série de polêmicas decorrentes da escolha de seu enredo. “Do Alto do Mulungu Surge a Esperança: Lula, o Operário do Brasil” prestou homenagem ao Presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Mais que dividir correntes políticas, a questão foi parar nas barbas do Tribunal Superior Eleitoral frente a denúncias de campanha antecipada e indícios de crime eleitoral.
O TSE foi prudente, interpretando que não poderia fazer juízo de valores sobre manifestação artístico-cultural que ainda não tinha sido realizada. Enfim, o Tribunal respeitou a própria jurisprudência, incluindo a vedação à censura prévia, negando assim os pedidos de liminares para proibir a homenagem pela escola de Niterói ao presidente, mesmo que tenha se manifestado publicamente como candidato à reeleição nas eleições de outubro. Porém, o TSE deixou no “ar” que a questão poderia ser revista sob o olhar de fatos.
O desfile na Marquês do Sapucaí ocorreu no domingo (15) e com algumas prudências adotadas pelo estafe do presidente, como podar o engajamento à festa dentro do Sambódromo. Lula até desceu do camarote e foi cumprimentar integrantes da escola de samba, mas manteve discrição. Janta, a primeira-dama, descartou juntar-se ao último carro alegórico. Ministros ficaram fora. Na passarela do samba, um misto de aplausos e vaias, características prementes de um país dividido entre esquerda e direita.
Nos bastidores e na imprensa, muita discussão sobre eventuais excessos ou provocações, sempre presentes nas expressões culturais, como as envolvendo os ex-presidentes Michel Temer e Jair Bolsonaro. O primeiro, levado ao palco como quem “roubou” a faixa presidencial de Dilma. O segundo, fantasiado do palhaço Bozo e até “enjaulado” numa das alegorias. Ataques ao agro, à família conservadora e à fé religiosa foram componentes interpretados por rivais políticos, ou não.
Cientistas e observadores políticos se dividiam na compreensão sobre se a homenagem levada a milhões de espectadores, seja ao vivo no Sambódromo ou nas transmissões televisivas, conduziriam a dividendos futuros no processo eleitoral ou produziriam efeitos nocivos. É bem possível que pesquisas de institutos especializados possam sinalizar algum cenário, agora sob os elementos oferecidos – entusiasmo, repulsa, resultado do desfile, repercussão geral… Nada de julgamento apressado.
O fato de momento é de que, na apuração desta quarta-feira (18), a Acadêmicos de Niterói ficou em 12° e último lugar, sendo rebaixada para o Carnaval do próximo ano. Mesmo que aficionados da escola e seus coordenadores tenham declarado previamente que se viam discriminados e já vislumbrando a repulsa dos jurados nesse contexto, os experts das modalidades do desfile carnavalesco reprovaram a Acadêmicos. O samba-enredo até mereceu média 29,9. Porém, pecou em fantasia e em alegorias e adereços, dentre outros quesitos.
A nota final da jovem escola, nascida Grêmio Recreativo Escola de Samba Acadêmicos de Niterói, foi 264,6, uma das mais baixas registradas nos últimos anos. Ainda assim, longe da Mocidade Independente, que ficou em 11° lugar com seus 267,4 pontos. A grande campeã foi a Viradouro, também de Niterói, com 270 pontos, que em seu enredo homenageou Moacyr Silva Pinto, o carnavalesco Mestre Ciça. A Viradouro também foi a vencedora do Estandarte de Ouro. A rebaixada volta para a Série Ouro, de onde saiu em 2025 vencendo com o enredo “Vixe Maria”.





