Morte de freira reacende debate sobre relação entre crimes, drogas e impunidade

Irmã Nadia Gavanski tinha 55 anos de vida religiosa e foi assassinada em Ivaí, nos Campos Gerais. Crime teve grande repercussão.

A notícia da morte da freira Nadia Gavanski, de 82 anos, teve repercussão em todo o País e mais uma vez coloca em debate a impunidade por leis frágeis e o crescimento assustador da drogatização nos pequenos centros urbanos, contrastando com a limitação da estrutura e recursos assistenciais. A freira, que em 12 de fevereiro último tinha completado 55 anos de dedicação à vida religiosa, foi assassinada por um homem de 33 anos com passagens pela polícia por roubos e furtos e que havia deixado a cadeia em dezembro.

Ao ser localizado em sua casa, no pequeno município de Ivaí, nos Campos Gerais, onde ocorreu o crime, ele chegou a resistir à prisão. Depois, já em depoimento na delegacia local, confessou ter cometido o crime em meio a alucinações após ter feito uso de crack e bebidas alcoólicas. Negou, porém, que tivesse a intenção de roubar quando pulou o muro e invadiu o Convento das Irmãs Servas de Maria Imaculada, ao lado da Paróquia Católica Ucraniana Sagrado Coração de Jesus. Disse que a agrediu e a asfixiou quando ela começou a gritar e que não tentou agressão sexual, suspeita levantada pelo fato de parte das roupas da vítima ter sido arrancada.

Nadia Gavanski era natural de Prudentópolis e tinha sete irmãos. O crime ocorreu por volta de 13h30 de sábado (21). A despedida ocorreu em Ivaí, cidade de 13 mil habitantes localizada a 200 km de Curitiba, e depois foi trasladado para Prudentópolis para o velório na Vila Madre Anatólia. O sepultamento ocorreu às 15h de domingo, no Cemitério São Josafat, em Prudentópolis.

O governador Ratinho Junior manifestou-se pelas redes sociais, lamentando e episódio e destacando que o acusado do crime tinha deixado a cadeia em dezembro e contava com extensa ficha criminal. “Voltou às ruas e cometeu uma tragédia. É urgente que os Estados tenham autonomia para legislar em matéria penal. Lei fraca, criminoso forte. As famílias brasileiras não podem continuar reféns desses marginais”.

Rafael Greca, ex-prefeito de Curitiba e atual secretário de Governo, também lamentou: “Com profunda dor no coração recebi a notícia da partida brutal de nossa querida amiga, Irmã Nádia Gavanski, religiosa das Irmãs Servas de Maria Imaculada. Filha de Prudentópolis, terra de fé e tradição, Irmã Nádia dedicou mais de cinco décadas de sua vida consagrada ao serviço de Deus e ao amparo dos que mais precisavam. Aos 82 anos, vivia no convento em Ivaí, onde foi covardemente vítima de violência dentro da própria casa religiosa, um crime que entristece todo o Paraná. Que Deus, em Sua infinita misericórdia, a receba na morada eterna e console as Irmãs, os familiares e toda a comunidade enlutada. Que Nossa Senhora a envolva com seu manto de luz, e que a paz de Cristo vença toda forma de violência.”

O presidente da Assembleia Legislativa do Paraná, Alexandre Curi, manifestou-se também pelas redes sociais: “Quero registrar meu profundo pesar e repúdio pelo brutal assassinato da irmã Nadia Gavanski, em Ivaí/. Trata-se de uma violência absurda, que fere valores essenciais de respeito, dignidade e humanidade. Este crime demonstra que precisamos revisar a legislação penal e dar autonomia aos Estados para estabelecer punições mais rigorosas sobre atos criminosos. Minha solidariedade à comunidade e a todos que sofrem com essa perda”.

A Coordenação Regional da Conferência dos Religiosos do Brasil do Paraná emitiu uma nota de pesar após o episódio: “Pedimos ao Pai de Misericórdia que a acolha em seu repouso eterno, onde não há mais dor nem choro, mas a luz que não se apaga. Rogamos também que as autoridades competentes conduzam as investigações com celeridade e justiça, e que este ato de violência nos convoque a uma reflexão profunda sobre a cultura de paz e o cuidado com os nossos idosos e comunidades religiosas”.

Irmã Nadia tinha 82 anos de idade e 55 de vida religiosa.

Colega de congregação, a freira Deonisia Diadio, disse que Nadia levava uma vida simples e mais restrita desde que sofreu AVC e perdeu a fala. Fazia as tarefas do cotidiano e gostava de alimentar os animais na parte dos fundos do convento, onde acabaria sendo morta ao surpreender o invasor. “Seu jeito sereno tocava quem se aproximava, por meio de gestos simples e de um sorriso acolhedor. Cuidava com amor das plantinhas, da horta e das pequenas coisas do dia a dia, revelando um coração atento e fiel. No caminho que percorria todos os dias, a violência de um homem covarde interrompeu sua presença entre nós. Hoje choramos seu silêncio, mas cremos que Deus acolhe na eternidade esta religiosa que viveu com bondade e entrega. O céu recebe uma alma que soube amar no silêncio”, declarou Deonisia Diadio.

A irmã Nadia atuou em diversas comunidades do Paraná ao longo de sua vida religiosa, incluindo Prudentópolis e Irati, além de Ivaí.

De acordo com o delegado Lucas Andraus, a identificação do acusado do crime foi possível porque quando deixava o convento, com roupas sujas de sangue, foi surpreendido por algumas pessoas que participavam de uma atividade, incluindo uma fotógrafa que fazia registros no local. Após a descoberta do corpo da freira, a polícia foi acionada e teve acesso às imagens do suspeito, que acabaria preso.

Pedro Ribeiro

Jornalista há mais de 48 anos, com passagem pelos principais meios de comunicação do Paraná e autor de vários livros publicados.

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