Por Felipe José Fernández Coimbra –
Estimativas do Instituto Nacional de Câncer (INCA) para o triênio 2026-2028 mostram crescimento consistente nos diagnósticos de tumores de estômago, pâncreas, esôfago e fígado. Juntos, esses quatro cânceres abdominais devem registrar cerca de 59,5 mil novos casos por ano no Brasil, impulsionados sobretudo pelo aumento expressivo do câncer de pâncreas e de fígado, além da manutenção de fatores de risco conhecidos como infecções crônicas e hábitos alimentares inadequados.
O Brasil deverá conviver, nos próximos anos, com um peso cada vez maior dos cânceres abdominais em sua carga oncológica. Segundo as estimativas do Instituto Nacional de Câncer para o triênio 2026–2028, os quatro tipos mais comuns de câncer no abdômen (estômago, pâncreas, esôfago e fígado) somarão aproximadamente 59,5 mil novos casos anuais. O número representa um aumento em relação ao triênio anterior (2023–2025) e ajuda a dimensionar a relevância crescente desses tumores no cenário nacional.
Os dados mostram que o câncer de estômago permanece como o mais incidente entre eles, com estimativa de 22.530 novos casos por ano, frente a 21.480 no triênio anterior, um aumento de 4,89%. O câncer de esôfago também segue em elevação, passando de 10.990 para 11.390 casos anuais, crescimento de 3,64%. Já o câncer de fígado apresenta uma das curvas mais preocupantes, com salto de 10.700 para 12.350 casos por ano, alta de 15,42%. O maior crescimento proporcional, no entanto, é observado no câncer de pâncreas, que passa de10.980 para 13.240 novos casos anuais, um aumento expressivo de 20,58%.
Esses números, quando analisados em conjunto, revelam não apenas a magnitude do problema, mas também a complexidade envolvida em seu enfrentamento. São tumores que, em grande parte, cursam com sintomas inespecíficos nas fases iniciais, dificultam o diagnóstico precoce e, frequentemente, estão associados a fatores de risco que se acumulam ao longo da vida.
O desafio silencioso do câncer de pâncreas
Entre os quatro tumores abdominais, o câncer de pâncreas ocupa posição singular pela combinação de baixa incidência relativa e altíssima letalidade. Responsável por cerca de 1% dos diagnósticos oncológicos no país, ele responde por aproximadamente 5% das mortes por câncer. A explicação está, em grande medida, no fato de que cerca de 80% dos pacientes descobrem a doença em estágios avançados, quando as possibilidades de cura são limitadas.
O câncer de pâncreas é um dos maiores desafios da oncologia contemporânea justamente porque ele se desenvolve de forma silenciosa e agressiva. Os sintomas iniciais são vagos, como dor abdominal ou lombar difusa, perda de peso ou fraqueza, diabetes, e acabam sendo atribuídos a problemas comuns do dia a dia, o que atrasa a investigação.
O cenário atual não é reflexo apenas da biologia agressiva do tumor, mas também da ausência de políticas estruturadas de rastreamento para grupos de risco. Tabagismo, obesidade, e sedentarismo seguem como fatores modificáveis importantes, enquanto histórico familiar, pancreatite hereditária, certos tipos de cistos pancreáticos e síndromes genéticas hereditárias exigem vigilância especializada. Prevenção e diagnóstico precoce não são utopias. Temos exames e estratégias capazes de identificar a doença mais cedo, mas precisamos integrar melhor gastroenterologistas, endocrinologistas, cirurgiões e outros especialistas para não perder oportunidades raras de intervenção.
Avanços tecnológicos, como protocolos de imagem mais refinados, ecoendoscopia, inteligência artificial aplicada à radiologia e testes baseados em marcadores tumorais, ampliam as possibilidades de diagnóstico antecipado. Ainda assim, o acesso desigual a esses recursos mantém o câncer de pâncreas como um retrato das desigualdades regionais e estruturais do sistema de saúde brasileiro.
Estômago: alta incidência e prevenção possível
O câncer de estômago segue como o tumor abdominal mais frequente no país. Embora o aumento percentual seja menor do que o observado em outros tipos, o volume absoluto de casos mantém a doença como um importante problema de saúde pública. Um dos principais fatores de risco é a infecção pela bactéria Helicobacter pylori, capaz de se alojar no estômago, prejudicar sua barreira protetora e induzir inflamação crônica.
Estima-se que entre 70% e 80% da população mundial tenha infecção crônica pela H. pylori, sendo que cerca de 90% dos infectados são assintomáticos. Esse dado ajuda a explicar por que o câncer gástrico frequentemente evolui de forma silenciosa. “A erradicação da H. pylori em populações de alto risco é uma estratégia fundamental de prevenção”, explica Coimbra. “Pacientes que apresentam, na endoscopia, alterações como gastrite crônica, atrofia, metaplasia ou displasia devem ser acompanhados de perto, porque o risco de progressão para câncer é maior.”
Além da infecção bacteriana, hábitos alimentares desempenham papel relevante. O consumo excessivo de sal e de alimentos ricos em nitrosaminas, como embutidos e enlatados, está associado ao aumento do risco de câncer de estômago. Já os sintomas iniciais, como desconforto abdominal, azia, inchaço ou saciedade precoce, costumam ser confundidos com indigestão ou refluxo, retardando o diagnóstico. Em estágios avançados, surgem sinais mais evidentes, como perda de peso, anemia, fezes escuras, vômitos e dor abdominal persistente.
Esôfago: diagnóstico tardio e fatores de risco bem definidos
O câncer de esôfago apresenta um padrão semelhante ao do pâncreas no que diz respeito ao diagnóstico tardio. Nos estágios iniciais, a doença geralmente não provoca sinais de alerta claros, permitindo que o alimento continue a passar pelo órgão mesmo diante de obstruções significativas. Quando os sintomas aparecem (dificuldade para engolir, dor no peito, perda de peso ou rouquidão persistente), o tumor muitas vezes já se encontra em estágio avançado.
Fatores de risco como tabagismo e consumo excessivo de álcool continuam entre os mais relevantes, especialmente para o carcinoma de células escamosas. Já o adenocarcinoma do esôfago está fortemente associado à doença do refluxo gastroesofágico, que acomete cerca de 20% dos brasileiros, e ao esôfago de Barrett, condição em que o refluxo crônico altera o revestimento do órgão. Tabagismo, obesidade, idade acima de 50 anos e sexo masculino também aumentam o risco.
A boa notícia é que boa parte desses fatores é modificável. Reduzir o tabagismo e o consumo de álcool, controlar o peso e tratar adequadamente o refluxo são medidas que têm impacto real na prevenção do câncer de esôfago. A vigilância regular de pacientes com condições predisponentes pode permitir a identificação de lesões precursoras e evitar a progressão para tumores invasivos.
Fígado: crescimento impulsionado por doenças crônicas
O câncer primário de fígado, em especial o carcinoma hepatocelular, apresenta crescimento consistente nas estimativas mais recentes. Em grande parte do mundo, até 80% desses tumores estão relacionados à infecção crônica pelos vírus das hepatites B e C, que ao longo de décadas podem levar à cirrose e, posteriormente, ao câncer. No Brasil, a ampliação do diagnóstico e do tratamento das hepatites tem impacto direto na prevenção, mas novos desafios surgem.
A doença hepática gordurosa não alcoólica, associada à obesidade, diabetes tipo 2 e síndrome metabólica, desponta como um fator de risco crescente. O consumo excessivo de álcool também agrava a progressão das doenças hepáticas e eleva o risco de câncer. Em muitos casos, o tumor é identificado durante o acompanhamento de pacientes com cirrose, já que os estágios iniciais costumam ser assintomáticos.
Icterícia, perda de peso, dor abdominal e ascite (acúmulo de líquido no abdome) geralmente aparecem quando a doença já está avançada. Por isso, o rastreamento regular com exames de imagem em pacientes com hepatite crônica ou cirrose é essencial para detectar o câncer em fases mais tratáveis. A vacinação contra hepatite B, o tratamento antiviral adequado e o acompanhamento sistemático são pilares fundamentais da prevenção.
Números que exigem resposta coordenada
O crescimento conjunto dos cânceres de estômago, pâncreas, esôfago e fígado reflete uma combinação de envelhecimento populacional, persistência de fatores de risco e limitações no acesso ao diagnóstico precoce. Enfrentar esse cenário exige mais do que avanços tecnológicos isolados. Estamos falando de tumores em que a cirurgia, quando possível, continua sendo a principal chance de cura, mas ela só é viável se o diagnóstico for feito a tempo. Isso exige organização em rede, integração entre especialidades e políticas públicas que garantam acesso rápido e equitativo ao cuidado.
Os quase 60 mil novos casos anuais estimados pelo INCA não são apenas estatísticas. Eles representam milhares de histórias marcadas por diagnósticos tardios, tratamentos complexos e impacto profundo na vida de pacientes e famílias. Transformar esse panorama passa por investir em prevenção, educação em saúde, rastreamento de grupos de risco e redução das desigualdades regionais, um desafio de grande escala, mas incontornável para o futuro da Oncologia no Brasil.
(*) Felipe José Fernández Coimbra é médico cirurgião oncológico referência nacional e mundial em câncer abdominal. Graduado em Medicina pela Universidade Federal do Pará, fez Residência Médica em Cirurgia Geral na Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo e em Cirurgia Oncológica no A.C.Camargo Cancer Center, em São Paulo. Atualmente é secretário-geral da Sociedade Mundial de Cirurgia Oncológica (WSSO), diretor do Instituto Integra e líder do Centro de Referência de Tumores do Aparelho Digestivo Alto do A.C.Camargo. Foi presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncologia no biênio 2015-2017 e foi o primeiro brasileiro a presidir a Sociedade Americana de cirurgia de fígado, pâncreas e vias biliares, a Americas Hepato-Pancreato-Biliary Association (AHPBA), em 2019/2020.





