Por David Lopes, especial de Brasília.
Não foi por acaso que a cerimônia de filiação de Sérgio Moro ao PL ocorreu num auditório próximo ao Posto da Torre, em Brasília — o mesmo local que em 2014 marcou os primeiros mandados cumpridos na investigação que ficaria conhecida como Lava Jato. Esta operação, convém lembrar, foi instrumentalizada como “lawfare” para tirar Lula da disputa presidencial de 2018 e aplainar o caminho para Bolsonaro — que recompensou o juiz Sérgio Moro com o Ministério da Justiça e uma promessa vaga de indicação futura ao STF, que jamais seria cumprida.
O Posto da Torre assistiu nesta terça-feira (24) a uma cena que resume a trajetória do ex-juiz: o mesmo homem que usou a toga como trampolim para o poder voltou ao ponto de partida para selar uma aliança com o primogênito de quem o humilhou, demitiu e nunca honrou o combinado. A história tem senso de humor. A mediocridade moral, também.
LULA “ENTRE ASPAS” — E O BOLSONARO SEM ASPAS
No discurso de filiação, Moro afirmou que Lula “foi eleito entre aspas”, lançando suspeitas infundadas sobre o resultado do pleito de 2022. O UOL registrou, com a prudência jornalística que o caso exige, que não há comprovação de fraude nas eleições, que dispõem de mecanismos robustos de auditoria. Traduzindo: o ex-juiz que deveria ter mais apreço do que ninguém pelo ônus da prova abraçou, sem constrangimento aparente, a narrativa golpista que seu novo padrinho Flávio Bolsonaro vende nas redes sociais. O mesmo Moro que mandou prender réus com base em indícios agora questiona resultados eleitorais sem apresentar nenhum. Toga guardada. Toga moral, idem.
A TRINDADE DO POSTO DA TORRE
O evento formalizou uma trindade notável: Sérgio Moro, Deltan Dallagnol e Rosangela Moro — deputada federal por São Paulo, ainda que seu domicílio real seja Curitiba, detalhe que a Justiça Eleitoral ignorou com a elegância de sempre — ingressaram juntos no PL. O ex-juiz, o ex-procurador e a parlamentar paulista-curitibana assinaram, no mesmo ato, a carteirinha do partido de Valdemar Costa Neto, condenado pelo Mensalão. Se a Lava Jato tinha inimigos, eles não precisavam fazer nada. Bastava esperar.
O INSS E A MEMÓRIA CURTA
No mesmo discurso, Moro citou as irregularidades envolvendo aposentados e pensionistas do INSS e o rumoroso caso do Banco Master, associando os episódios ao governo Lula. No entanto, as investigações em curso indicam que o esquema de descontos fraudulentos que afetaram milhões de pensionistas e aposentados e a pirâmide financeira montada por Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, começaram ainda no governo Bolsonaro, do qual, repita-se, Moro foi ministro da Justiça. Em outras palavras: o ex-ministro denunciou, com furor de cruzado, uma herança do governo do qual fez parte — sem mencionar o ex-chefe. A seletividade da indignação do ex-juiz federal sempre foi sua marca registrada. Pelo menos nesse aspecto, o PL não vai precisar retreiná-lo.
“VOSSA EXCELÊNCIA” — A GENUFLEXÃO COMPLETA
Em dado momento do discurso, Moro se dirigiu ao colega senador Flávio Bolsonaro com a expressão “Vossa Excelência” e prometeu trabalhar para que o filho ungido pelo pai, desde a prisão, onde cumpre pela de mais de 27 anos pela trama golpista do 8 de janeiro, “tenha uma grande vitória no nosso estado”. O mesmo Moro que em 2022 chamava a família Bolsonaro de ameaça às instituições agora oferece o Paraná como palanque ao filho do patriarca inelegível. A palavra “Vossa Excelência”, neste contexto, não é tratamento protocolar entre senadores da República. É a notificação formal de uma capitulação. O Torquemada das Araucárias dobrou os joelhos — e o fez com a desenvoltura de quem nunca teve coluna vertebral para dobrar.
MORO SAIU DO UNIÃO BRASIL POR FALTA DE APOIO — E ENTROU NO PL POR FALTA DE OPÇÃO
Moro deixou o União Brasil diante da ostensiva falta de apoio para sua candidatura ao governo do Paraná, reiteradamente manifestada pelo deputado federal Ricardo Barros. Em bom português: ninguém quis bancá-lo como candidato ao Palácio Iguaçu. O PL, que tem Flávio Bolsonaro como pré-candidato à Presidência e precisa de palanque no Paraná, enxergou utilidade mútua no arranjo. Moro precisava de legenda. O PL precisava de nome. Ninguém precisava de princípios — e por isso o acordo foi fechado a toque de caixa. Caixa para campanha assegurada. Na política brasileira, a geometria das alianças obedece a uma lei simples: o desespero de um é a oportunidade de outro.
DELTAN, O ETERNO COADJUVANTE
Deltan Dallagnol chegou ao evento como sempre chegou aos grandes palcos da Lava Jato: à sombra de Moro. Ex-coordenador da força-tarefa, ex-deputado federal cassado pelo TSE, ex-membro do MDB, ex-membro do Podemos, agora ex-membro do… e assim vai. Deltan tem tantos “ex” na carreira que poderia abrir uma franquia. No Paraná, o PL deve lançá-lo candidato ao Senado. O powerpoint das propinas que apresentou em 2016, com Lula no centro de um esquema bilionário, foi guardado. Em seu lugar, um santinho com o número 22. A narrativa muda. O personagem, não.
O PARANÁ QUE “NÃO VAI FALTAR”
Moro declarou que o Paraná “não vai faltar” ao projeto nacional de Flávio Bolsonaro. A afirmação tem uma generosidade que merece nota: Moro está prometendo o Paraná de um governador — Ratinho Júnior — que não é do PL, não apoia Flávio Bolsonaro para presidente e que acaba de anunciar que vai dedicar suas últimas energias no cargo exatamente para barrar a candidatura de Moro ao governo do estado. Prometer o Paraná alheio com a desenvoltura de quem já o tivesse no bolso é, no mínimo, uma forma criativa de encarar a realidade eleitoral. O ex-juiz sempre foi bom em construir teses. Nem sempre em verificar os fatos, conforme ficou comprovado.
TORQUEMADA E O TRIBUNAL DA PRÓPRIA HISTÓRIA
O Torquemada das Araucárias — apelido que a história já reservou a Moro, com ou sem sua anuência — cometeu, ao longo de sua trajetória, o erro clássico do moralista em política: acreditou que a toga conferia permanência à virtude. Saiu da magistratura crendo que o capital simbólico da Lava Jato o protegeria de qualquer aliança que fizesse depois. Enganou-se. Cada passo da reconversão — ministro de Bolsonaro, candidato presidencial fracassado, senador por exaustão do eleitorado, agora filiado ao PL ao lado de Valdemar e Flávio Bolsonaro — foi corroendo esse capital. No ato de filiação ao PL, ontem, o que restava foi depositado numa conta que pertence a outros. A história cobra caro dos que a instrumentalizam. E ela não tem pressa.





