Por Pedro Santafé – Uma crônica afetiva sobre o seu Otávio, os espirros que abalavam o galinheiro e a herança
genética que acabou desligando o alarme de incêndio do STF.
Meu pai era um homem de hábitos austeros. Econômico nos gestos, parcimonioso nas palavras, avesso a qualquer tipo de exibicionismo. Mas havia uma exceção — e que exceção. Se tinha uma coisa que ele fazia com gosto, sem cerimônia nem contenção, era espirrar.
Não um espirro qualquer, desses discretos, em dó menor. Não. Meu pai espirrava em tom maior, com potência de trovão. Um espirro tonitruante, capaz de fazer estremecer a casa de madeira e reverberar pelo campo aberto. Espirrava com gosto, com entrega, como se naquele gesto expulsasse do corpo não apenas o ar, mas o mundo inteiro.
Seus espirros acordavam a casa e, não raro, a vizinhança. Agitavam a criação, causavam rebuliço no galinheiro, ali a poucos metros da cozinha. Bastava o cheiro do café coado para que seu Otávio disparasse uma sequência — uma verdadeira salva de espirros. Quem ainda estivesse dormindo levantava num sobressalto. Os “estornudos”, como ele gostava de dizer, eram o alarme oficial da casa.
Com o tempo, fomos nos acostumando. Os espirros do pai passaram a integrar a paisagem sonora da infância, como o canto do galo ou o ranger do assoalho. Não me lembro de reclamações da vizinhança — até o dia em que um mascate, figura conhecida na região, se aproximava a cavalo numa manhã fria. Meu pai, alheio à cena, disparou uma bateria de espirros tão vigorosa que o alazão se assustou, gineteou, derrubou o cavaleiro e saiu em disparada estrada afora. O homem levantou-se atônito; meu pai, recomposto, ria como quem assiste a uma travessura bem-sucedida.
Não houve outros incidentes dignos de nota, embora minha mãe, vez ou outra, deixasse escapar uma panela ou uma louça sob o impacto das ondas sonoras paternas. Ele, já refeito, ria com aquele riso limpo, quase infantil, como se espirrar fosse também uma forma de brincar com o mundo.
Curiosamente, atribuía seus espirros não à poeira do paiol — onde preparava a ração e que faria qualquer um espirrar —, mas ao cheiro do café recém-coado ou da polenta dourando na chapa do fogão a lenha. Era ali, na aurora da cozinha, que seu corpo parecia despertar de vez.
Já adulto, instalado na cidade e envolto em confortos que ele nunca conheceu, percebi que herdei dele mais do que lembranças. Herdei, entre outras manias, uma aptidão quase vocacional para os espirros matinais. Eles vêm com frequência crescente, como se fossem um chamado genético.
Atribuo, em parte, a alergias contemporâneas — esses agentes invisíveis que se multiplicam no ar e, convenhamos, também no ambiente político. Desenvolvi uma sensibilidade peculiar: basta um vídeo exaltando virtudes improváveis ou um texto inflamado em defesa de certas ideias — às vezes enviado por um primo distante — e lá estou eu, espirrando em sequência, como se o corpo tentasse expulsar algo nocivo.
Mas nada se compara à bateria matinal. Esses são os melhores. Chegam logo após o despertar, por volta das seis da manhã, com pontualidade quase britânica e intensidade rural. Uma pena que meu pai tenha partido em 2021, em meio à pandemia. Teria sido um espetáculo fazermos um dueto — um desafio de decibéis entre gerações.
Na cidade, porém, meus espirros não passam despercebidos. Outro dia, a síndica, dona Mirna, aproximou-se com certo constrangimento para relatar uma queixa inusitada: um vizinho de um prédio a mais de cento e cinquenta metros da minha janela afirmou não suportar mais meus espirros. Cogitou, inclusive, registrar ocorrência por perturbação do sossego — equiparando meus “estornudos” a obras antes das oito da manhã.
Não é um caso isolado. Passeadores de cães relatam episódios de pânico canino ao passarem sob minha janela no quinto andar. Há registros de coleiras rompidas e fugas em debandada pelas quadras vizinhas, como se um estampido invisível tivesse atravessado o ar.
No ambiente institucional, a situação também já saiu do controle. Na semana passada, no terceiro andar do edifício-sede do Supremo Tribunal Federal, um espirro meu acionou o alarme de incêndio. O prédio foi evacuado, brigadas mobilizadas, protocolos seguidos com rigor. Oficialmente, atribuiu-se o episódio a uma suspeita de vazamento de gás. Não tive coragem de reivindicar a autoria.
Confesso que temo o dia em que, em tempos tão tensos, um de meus espirros seja interpretado como algo mais grave do que realmente é, como a detonação de um explosivo caseiro.
Meu pai, Otávio, era um homem regrado, quase contido — exceto quando espirrava. Ali, permitia-se uma expansão rara, um gesto de liberdade corporal que rompia sua disciplina cotidiana. Talvez, sem saber, tenha me deixado um ensinamento simples e definitivo, desses que dispensam explicação: “quem espirra, ainda respira.”
(*) Pedro Santafé é cronista e memorialista. Escreve sobre afetos, memória e o Brasil profundo.





