Por José Pedro Fernandes –
No Dia Mundial da Saúde, é importante ampliar o conceito de saúde pública para além dos hospitais e dos centros de saúde. A forma como organizamos o trabalho afeta a integridade física e mental das pessoas e tem impacto direto na sociedade e na economia. A gestão da força de trabalho deixa marcas reais no corpo e na mente e, por isso, merece ser vista como política de saúde pública.
A organização do trabalho influencia a fadiga e o desgaste físico. Jornadas prolongadas ou mal distribuídas e a falta de descanso entre elas, acumulam cansaço e aumentam a probabilidade de lesões musculares. O trabalho noturno desorganizado e rotinas que desrespeitam os ciclos de sono perturbam a recuperação fisiológica. Estes efeitos não são passageiros. Quando se repetem, tornam-se problemas crônicos e aumentam o risco de acidentes de trabalho.
Em outra perspectiva, a saúde mental no trabalho sofre com o stress e a pressão constante por resultados. A imprevisibilidade de horários dificulta o equilíbrio entre a vida pessoal e profissional, e fragiliza a estabilidade emocional. Quando a exigência é contínua e a margem de manobra é inexistente, aumenta a incidência de esgotamento profissional, conhecido como síndrome de burnout. A soma de ansiedade, exaustão emocional e redução da eficácia profissional traduz-se em ausência, queda de desempenho e problemas de saúde prolongados.
É importante destacar que esses problemas são coletivos, e não apenas individuais. As empresas e a sociedade pagam um preço elevado. O absenteísmo cresce, a produtividade diminui, aumentam os acidentes de trabalho e também os custos para os sistemas de saúde. A alta rotatividade enfraquece o conhecimento dentro das equipas e gera custos de recrutamento e treinamento. Do ponto de vista social, as famílias ficam mais vulneráveis quando a saúde de membros ativos é comprometida.
Diante desse cenário, a gestão da força de trabalho assume um papel preventivo e estratégico. O conceito de Workforce Management (WFM) surge como uma ferramenta que permite mitigar riscos antes que a doença ou o acidente aconteça. A gestão moderna de equipes contribui para um planeamento equilibrado de turnos e para a previsão de picos de demanda em diversos setores da economia. Ao antecipar necessidades, é possível distribuir melhor a carga de trabalho e evitar sobrecargas prolongadas.
Uma gestão eficaz facilita o acompanhamento de ausências e garante o cumprimento das normas trabalhistas. Sistemas e processos que combinam dados operacionais com a preocupação com o bem-estar dos colaboradores permitem identificar padrões de risco e criar medidas de prevenção. Quando há visibilidade sobre quem trabalha, quando e com que intensidade, torna-se possível ajustar escalas, reforçar o apoio em momentos críticos e reduzir a exposição a jornadas desgastantes.
Assumir a gestão da força de trabalho como uma questão de saúde pública implica alinhamento entre liderança, tecnologia e prática humana. Significa investir em planejamento, apostar em ferramentas de previsão e dar autonomia às equipas de recursos humanos para agir com segurança. Significa também reconhecer que políticas de organização do trabalho bem estruturadas não apenas ajudam a prevenir acidentes, como também contribuem para preservar a saúde mental de todos, sem exceção.
(*) José Pedro Fernandes é vice-presidente global da SISQUAL® WFM.





