Por Gaudêncio Penaforte –
Daniel Vorcaro construiu, ao longo de anos, uma das mais extraordinárias redes de influência já mapeadas na história recente do rentismo financeiro brasileiro. Não era um esquema de corrupção no sentido estrito — pelo menos não na forma bruta e mal disfarçada que costuma aparecer nas páginas dos autos. Era algo mais sofisticado, mais parecido com uma colmeia: estrutura hierárquica, funcionamento ordenado, produto final fluindo. O produto, no caso, era mel. Um mel dourado, abundante e pegajoso, que Vorcaro distribuía com generosa regularidade para uma plêiade de figuras da vida pública brasileira, cobrindo um espectro ideológico que vai da direita bolsonarista à esquerda petista, passando por todos os matizes possíveis do centrão, do emedebismo e da togacracia.
O mel tem nome e sobrenome na folha de pagamentos declarada pelo Banco Master à Receita Federal: são cerca de R$ 60 milhões em contratos de consultoria, assessoria e serviços jurídicos pagos entre 2022 e 2025 a uma galeria impressionante de nomes. Os documentos foram encaminhados à CPI do Crime Organizado e vazaram para a imprensa com o timing preciso de um escorpião acordando no meio do carnaval.
O cardápio
Quem mais recebeu foi Henrique Meirelles: R$ 18,5 milhões entre 2024 e 2025. O ex-presidente do Banco Central nos primeiros mandatos de Lula e ex-ministro da Fazenda de Temer disse que prestou consultoria macroeconômica em caráter opinativo e rescindiu o contrato em julho de 2025 por baixa demanda. Consultoria opinativa de dezoito milhões e meio de reais. Opinião cara, a de Meirelles.
Logo atrás, a MV Projetos e Consultoria, de Marconi Perillo, ex-governador de Goiás e ex-presidente do PSDB, recebeu R$ 14,5 milhões entre 2022 e 2025. Um nome que a grande mídia nacional ainda não colocou em letras garrafais, mas que representa bem a promiscuidade entre o capital financeiro e a classe política tradicional de centro-direita.
A Pollaris Consultoria, empresa de Guido Mantega, ex-ministro da Fazenda em gestões petistas, recebeu R$ 14 milhões entre 2024 e 2025. Mantega, segundo os registros, levou o próprio Vorcaro a uma reunião com Lula no Palácio do Planalto, fora da agenda oficial, no dia 4 de dezembro de 2024. O mel chegou ao andar de cima.
Michel Temer, ex-presidente da República, teve seu escritório de advocacia contemplado com R$ 10 milhões em 2025, por serviços ligados à tentativa de venda do Master ao BRB. Temer, fiel a seu estilo, compareceu ao Roda Viva para explicar que foi um mediador honesto, contratado a pedido do governador Ibaneis. O ex-presidente tem a rara virtude de ter sobrevivido politicamente a tudo — golpe de Estado, dois pedidos de autorização para abertura de processo no Congresso, delações premiadas e agora uma consultoria de dez milhões num banco prestes a ruir. É quase um fenômeno da natureza.
O ex-ministro do STF e ex-ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, via escritório de família, recebeu R$ 6,1 milhões a partir de novembro de 2023. Ele deixou a sociedade do escritório em janeiro de 2024, dias antes de assumir o Ministério da Justiça no governo Lula.
ACM Neto, ex-prefeito de Salvador e presidente de honra do União Brasil, recebeu R$ 5,4 milhões via sua empresa de consultoria entre 2023 e 2025. Antonio Rueda, presidente nacional do mesmo partido, aparece com R$ 6,4 milhões distribuídos em dois escritórios desde 2023. Ele questionou a legalidade do vazamento dos dados fiscais e defendeu o caráter técnico dos serviços prestados. A especialidade dos seus conhecimentos técnicos não foi revelada. Depois da última janela partidária, o União Brasil ficou com uma bancada de 58 deputados federais. A federação União-PP reúne 101 deputados. Um capital político de peso. Coincidências acontecem.
A BN Financeira, empresa de Bonnie Bonilha, nora do senador Jaques Wagner, líder do governo Lula no Senado, recebeu R$ 12 milhões entre 2022 e 2025. O próprio Wagner aparece nos registros com R$ 289 mil como pessoa física — valor que ele atribui a rendimentos de aplicação financeira em conta pessoal.
E, para não deixar o outro lado desconfortavelmente sozinho, a empresa do ex-secretário de Comunicação de Bolsonaro, Fábio Wajngarten, recebeu R$ 3,8 milhões em 2025, e a firma do ex-ministro da Cidadania Ronaldo Bento obteve R$ 6,2 milhões. Wajngarten diz que integra a equipe de defesa de Vorcaro — uma forma elegante de justificar o montante recebido.
Para facilitar o inventário, um resumo dos valores revelados até agora:
Henrique Meirelles — R$ 18,5 mi (2024–2025) – consultoria macroeconômica
Marconi Perillo (PSDB) — R$ 14,5 mi (2022–2025) – MV Projetos e Consultoria
Guido Mantega — R$ 14 mi (2024–2025) – Pollaris Consultoria
Família Massa (Ratinho + Ratinho Jr.) — R$ 24 mi (2022–2025) – Massa Intermediação + Gralha Azul
Michel Temer — R$ 10 mi (2025) – advocacia e mediação BRB/Master
BN Financeira (nora de Jaques Wagner) — R$ 12 mi (2022–2025)
Ronaldo Bento (ex-min. Cidadania) — R$ 6,2 mi (governo Bolsonaro)
Antonio Rueda (União Brasil) — R$ 6,4 mi (desde 2023) – dois escritórios
Lewandowski Advocacia — R$ 6,1 mi (2023–2024) – família do ex-ministro
ACM Neto — R$ 5,4 mi (2023–2025) – A&M Consultoria
Fábio Wajngarten — R$ 3,8 mi (2025) – ex-secretário de Comunicação de Bolsonaro
O investimento paranaense do Master
Aqui a história fica mais saborosa — ou mais salgada, dependendo do ângulo.
A Massa Intermediação, empresa do apresentador Carlos Roberto Massa, o Ratinho, recebeu R$ 21 milhões entre 2022 e 2025. A Gralha Azul Empreendimentos e Participações, ligada ao Grupo Massa, recebeu outros R$ 3 milhões em 2022. Vinte e quatro milhões ao todo para o clã Massa, pai apresentador e filho governador do Paraná.
A explicação do Grupo Massa para os R$ 21 milhões é que Ratinho era garoto-propaganda do CredCesta, o cartão de crédito consignado do Banco Master oferecido a servidores públicos — produto que foi bloqueado em novembro de 2025. Vinte e um milhões por um contrato de publicidade é um valor que faria corar qualquer diretor de marketing de multinacional. Mas tudo regularmente declarado, pagou-se imposto, nada ilegal.
O problema não é legal. É político.
Ratinho Junior era, até poucas semanas, o nome do PSD para a presidência da República em 2026. O preferido de Gilberto Kassab. O governador-modelo. O jovem gestor competente que havia transformado o Paraná numa vitrine de boas práticas. E agora seu nome — ainda que indiretamente, via empresas do grupo familiar — aparece vinculado a um banco investigado pela Polícia Federal, cujo controlador está preso e negocia delação premiada. O Grupo Massa sustenta que o governador não faz parte do quadro societário das empresas. É verdade. Juridicamente, o filho não é sócio das empresas do pai. Mas a política não é um processo judicial. Na política, o sobrenome é uma biografia inteira.
O andar de cima
E então há o item mais delicado do cardápio. Os registros da Receita mostram pagamentos de cerca de R$ 80 milhões em 2024 e 2025 — ou R$ 129 milhões em valores totais de contratos, conforme apurou a Folha — para o escritório Barci de Moraes Sociedade de Advogados, do qual é titular Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal.
Oitenta milhões. Para contextualizar: é mais do que todos os outros valores somados na lista da Receita. O escritório presta serviços jurídicos. O ministro não é sócio. A Constituição não proíbe que cônjuges de magistrados exerçam advocacia. Tudo isso é rigorosamente verdadeiro. E tudo isso é absolutamente insuficiente como resposta pública para um valor dessa magnitude, vindo de uma instituição que estava sendo investigada sob sigilo por decisão do relator, o ministro Dias Toffoli.
A colmeia, afinal, tem seus próprios mecanismos de autorregulação.
Os eventos-ostentação em capitais internacionais
O mel não era só dinheiro. Era também experiência, hospitalidade e aquele senso de pertencimento que só os eventos verdadeiramente exclusivos conseguem proporcionar. Em 2024, Daniel Vorcaro desembolsou US$ 11,5 milhões — equivalentes a R$ 60 milhões na cotação atual — para financiar três eventos internacionais de alto padrão, recheados de autoridades dos três poderes da República. Os documentos, coletados pela Polícia Federal, descrevem jatinhos fretados para Brasília, shows com dançarinas, troféus de cristal, degustações de uísque escocês e muito mais.
O primeiro evento foi o 1º Fórum Jurídico Brasil de Ideias, em Londres, de 24 a 26 de abril de 2024. Custou aproximadamente US$ 6 milhões — R$ 31 milhões. A abertura contou com show do cantor britânico Seal. Um dos almoços ocorreu no Brooklands, restaurante com duas estrelas Michelin no oitavo andar do Peninsula Hotel — o mesmo cinco estrelas onde os convidados se hospedaram. Houve ainda uma noite no clube privado Annabel’s, cujo cenário, entre o rococó francês e o art déco, foi descrito por uma testemunha como “cenário de Bridgerton”. O episódio mais comentado foi uma degustação de Macallan no George Club, em Mayfair. Quarenta convidados. Custo do happy-hour: US$ 640 mil — R$ 3,2 milhões. Um verdadeiro escárnio. Entre os presentes estavam os ministros do STF Alexandre de Moraes e Dias Toffoli e o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues. Moraes chegou a mencionar publicamente a ocasião: “Depois fomos todos juntos a um pub, tomamos Macallan”, disse em sessão plenária.
Menos de um mês depois, a Semana do Brasil em Nova York, de 12 a 18 de maio. O Master desembolsou US$ 2,5 milhões. Vorcaro circulou nos eventos oficiais como patrocinador e ofereceu encontros paralelos. Nova rodada de Macallan, desta vez no Carnegie Club — especializado em uísque e charutos. Foram adquiridas 25 garrafas de Macallan 30 anos para presentear convidados, ao custo de US$ 121 mil. Vorcaro mobilizou dois jatinhos particulares para a ocasião. O “after” da Semana do Brasil tornou-se lendário nos corredores de Brasília: bebida cara, modelos estrangeiras, assunto por semanas.
Em junho, o Fórum Jurídico de Lisboa — o “Gilmarpalooza”, como é carinhosamente apelidado pelos frequentadores assíduos, numa referência ao idealizador, ministro Gilmar Mendes do STF. Custo da participação do Master: US$ 1,6 milhão. O roteiro de luxo se repetiu: DJs, dançarinas, restaurantes de alta gastronomia e compras em shopping. O after do banqueiro tornou-se o assunto dominante entre os participantes do seminário. “No dia seguinte, os participantes do Gilmarpalooza que circulavam na avenida da Liberdade só falavam do evento do Master”, relataram fontes à imprensa.
A presença de Viviane Barci de Moraes em Londres, prestigiando o evento do Banco Master, com o qual o seu escritório mantinha contrato de R$ 129 milhões, foi confirmada por participantes do evento. Também veio a público que a família do ministro Toffoli foi sócia do resort Tayayá por meio da empresa Maridt — fatia posteriormente vendida a fundos de investimento ligados ao entorno de Vorcaro. A Folha de S.Paulo revelou ainda que Moraes, Viviane e Toffoli utilizavam jatos da empresa Prime, igualmente vinculada a Vorcaro.
O braço digital: a brigada de “influencers” “pro money”
A colmeia de Vorcaro não distribuía mel apenas para ex-ministros e ex-presidentes. Havia também um braço midiático sofisticado, com investimentos pesados em plataformas de comunicação e, quando o banco entrou em colapso, uma operação para fabricar fake news em escala industrial e inundar as redes sociais com ataques ao Banco Central.
O site Metrópoles, propriedade do ex-senador Luiz Estevão, recebeu R$ 27 milhões do Master entre 2024 e 2025, segundo registros do Coaf encaminhados ao Estadão. Esses valores corresponderam, em 2025, à principal fonte de receitas da plataforma. A empresa diz que os pagamentos se referem a contratos de publicidade do Will Bank, o banco digital do grupo Master, também liquidado pelo Banco Central.
Mais revelador é o caso de Léo Dias, o jornalista de fofocas com maior audiência digital do país. A empresa dele recebeu R$ 9,9 milhões diretamente do Banco Master em seis pagamentos realizados entre fevereiro de 2024 e maio de 2025. Recebeu ainda R$ 2 milhões da LD Produções, empresa de um empresário mineiro próximo de Vorcaro e parceiro do cunhado do banqueiro. No período analisado pelo Coaf — 15 meses — os recursos do Master representaram 28% de todo o faturamento da Leo Dias Comunicação. Os pagamentos eram atribuídos a contratos publicitários do Will Bank.
O enredo ficou mais complicado quando veio à tona o “Projeto DV”. Após a liquidação do Master pelo Banco Central, emergiu um esquema sistemático para contratar influenciadores digitais e atacar a autoridade monetária nas redes sociais. A operação era coordenada por Thiago Miranda, então CEO e sócio minoritário do Grupo Leo Dias — que cedeu 10% das ações da empresa de jornalismo ao empresário em outubro de 2024, o mesmo período em que os pagamentos do Master se intensificavam. Os contratos oferecidos incluíam cláusula de confidencialidade com multa de R$ 800 mil em caso de quebra — o que dá a dimensão do que estava em jogo. Um influenciador com mais de 1 milhão de seguidores chegou a receber proposta de R$ 2 milhões por oito postagens mensais atacando o BC. O nome do projeto era explícito: “DV” — as iniciais de Daniel Vorcaro.
O esquema veio à tona quando o vereador Rony Gabriel (PL-RS) recusou a proposta e a tornou pública. “Deixaram claro que era uma proposta milionária”, disse ele. “E que era de interesse de Daniel Vorcaro.” A Febraban identificou, no fim de 2025, um volume fora do padrão de postagens nas redes sociais atacando o Banco Central e seus dirigentes — o que indicava coordenação, não espontaneidade. Léo Dias negou qualquer envolvimento. Dias depois, Thiago Miranda deixou formalmente a sociedade.
Uma nota sobre os ausentes
Há uma característica notável nesta lista que merece ser sublinhada: até o momento, nenhum dos nomes revelados é detentor de mandato eletivo em exercício. Não há senadores, não há deputados federais, não há governadores — enquanto governadores. Todos os políticos identificados aparecem na condição de ex-algo: ex-presidente, ex-ministro, ex-governador, ex-secretário. Ou então como presidentes de partido, figura que não possui foro especial.
Isso pode ser pura coincidência. Pode ser que a lista seja mesmo assim. Mas pode também ser que os dados revelados até aqui sejam apenas a primeira camada de mel — a mais superficial, a que já escorreu para fora da colmeia. Daniel Vorcaro está preso e, segundo a imprensa, negocia uma delação premiada. Uma delação, quando efetivamente firmada, não escolhe apenas os ex-ocupantes de cargos públicos. Escolhe quem fez parte do circuito VIP e será útil sacrificado no panteão da alcaguetagem.
A colmeia continua desfiando os investigadores da PF pela sua extensão e complexidade. E Vorcaro conhece cada corredor e cada célula dela.
Lei também: O que dizem os astrólogos e cartomantes do Banco Mundial sobre a economia brasileira
(*) Gaudêncio Penaforte é analista político e colaborador eventual desta coluna. Brasília, abril de 2026.





