Sem dividendos, Sanepar se afoga no mercado de ações

Reação negativa foi imediata após anúncio de que precatório de quase R$ 4 bilhões será todo direcionado aos consumidores.

A Sanepar experimenta momento de misto de expectativa e decepção de dividendos depois que a Agepar, agência reguladora do Paraná, decidiu direcionar 100% do montante de quase R$ 4 bilhões em precatórios aos usuários e não à companhia, como o mercado esperava. A reação negativa no mercado foi imediata. As ações SAPR11 chegaram a despencar quase 7% quando foi divulgada a notícia. Em 2026, acumulam ganhos de 13,33%, abaixo do Ibovespa, que avança 19,72%.

Embora a decisão não esteja sacramentada, pois depende de consulta pública, “o que a maioria dos analistas projetava como um dividendo extraordinário robusto, que poderia destravar valor para a empresa no curto e médio prazos, acabou indo por água abaixo”, resumiu a jornalista Katherine Rivas, especializada na cobertura de dividendos, em artigo publicado esta semana na Money Times.

Na última semana de março, na mesma publicação, o editor-assistente Renan Dantas já mencionava em outra reportagem que a Sanepar “desabava em água fria em dividendos”. Conforme a fonte, desde 2025 os analistas projetavam que ao menos parte do valor do precatório – fruto da ação judicial movida contra o governo federal sobre imunidade tributária recíproca de IRPJ – poderia ser distribuída em forma de dividendos.

Ruy Hungria, analista da Empiricus, avalia que já se sinalizava que pelo menos 75% dos ganhos com a recuperação de créditos deveria ser repassados para a modicidade tarifária, ou seja, aos consumidores. Em sua observação, o mercado retira do preço das ações essa possibilidade, que representava cerca de 5% do valor do papel.

Os analistas de mercado de dividem entre otimistas e pessimistas sobre as perspectivas dos papéis da Sanepar no Mercado. Fato é que sem precatório nem privatização no horizonte, a tese da empresa ficaria dependente do sucesso de sua execução em capex (investimentos) e universalização de esgoto e saneamento.

“Acho que a empresa perde o appeal exatamente por não estar realizando nada de transformacional”, diz Vitor Souza, da Genial investimentos. Na visão de Régis Chinchila, da Terra Investimentos, sem esses gatilhos e com juros ainda em patamares elevados, o papel SAPR11 exige paciência do investidor. “Esse novo equilíbrio torna a tese mais longa e menos baseada em eventos pontuais, o que aumenta o risco de execução e reduz o apelo de curto prazo.”

Para a Genial Investimentos, a proposta da Agepar é claramente negativa para a tese de investimento, na medida em que elimina — ao menos em uma análise preliminar — a possibilidade de captura de valor relevante pelos acionistas associada ao precatório. ‘Trata-se de uma reinterpretação regulatória relevante, ao direcionar integralmente o ganho extraordinário para a modicidade tarifária, o que reduz (ou elimina) o potencial de dividendos extraordinários’. Na visão da corretora, os preços de tela precificavam entre 25% e 50% do valor total do precatório como potencial dividendo extraordinário — equivalente a algo entre 14% e 28% do valor de mercado da companhia.

Pedro Ribeiro

Jornalista há mais de 48 anos, com passagem pelos principais meios de comunicação do Paraná e autor de vários livros publicados.

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