Do diagnóstico ao gramado: jovens atletas ajudam a revelar câncer raro

Maior monitoramento médico no esporte profissional contribui para identificar precocemente o câncer de testículo, tumor raro que afeta principalmente homens entre 19 e 35 anos.

O ambiente de alta performance do futebol, marcado por avaliações médicas frequentes e protocolos rigorosos, tem contribuído para que casos de câncer de testículo sejam identificados com mais rapidez, especialmente entre atletas jovens. Embora raro, esse tipo de tumor ganha visibilidade quando atinge jogadores em atividade ou nas categorias de base, levantando um alerta importante para a saúde masculina. Dados divulgados pelo Instituto Nacional de Câncer em 4 de fevereiro de 2026, que estimam a incidência de câncer no Brasil para o triênio 2026–2028, apontam que o câncer de testículo deve atingir de 1.700 a 2 mil homens por ano no país. Apesar da baixa incidência, trata-se do tumor mais comum entre homens jovens, especialmente na faixa dos 19 aos 35 anos.

Casos recentes envolvendo atletas ajudam a ilustrar esse cenário. O ex-jogador Leandro Domingues, que enfrentou a doença após encerrar a carreira, e o meia Jean Pyerre, diagnosticado aos 24 anos durante sua transferência para o futebol europeu, são exemplos que ganharam repercussão nacional. Entre os mais jovens, situações envolvendo atletas em formação, como Raphael Nunes e jogadores de base como Caio Henrique Rocha e Lucas Silva, incluindo casos registrados em categorias de base na região de Campinas, reforçam a importância do diagnóstico precoce. “O que esses casos mostram não é que o esporte cause câncer, mas sim que esses jovens são muito mais monitorados do que a população geral. Isso aumenta a chance de detectar alterações ainda no início”, explica o oncologista clínico André Sasse, CEO do Grupo SOnHe.

No futebol profissional e mesmo nas categorias de base, exames laboratoriais são realizados de forma periódica, inclusive antes de competições importantes. Um dos marcadores avaliados é o Beta HCG, hormônio conhecido por seu uso em testes de gravidez, mas que também pode indicar alterações relacionadas a tumores testiculares. No contexto esportivo, esse exame é utilizado para excluir o uso de hormônios ou substâncias proibidas, mas pode, incidentalmente, levantar suspeitas de um funcionamento inadequado do organismo. “É um exemplo claro de como um exame feito por outro motivo pode salvar vidas. Quando há qualquer alteração, o atleta é rapidamente encaminhado para investigação, o que faz toda a diferença no prognóstico”, destaca Sasse.

Embora abril seja marcado pelo laço lilás, símbolo de conscientização sobre o câncer de testículo, especialistas reforçam que a atenção deve ser contínua, especialmente entre os homens mais jovens, que costumam procurar menos os serviços de saúde.

Sintomas e tratamento

O câncer de testículo costuma se manifestar de forma silenciosa, mas alguns sinais devem acender o alerta. Entre os principais sintomas estão aumento de volume ou inchaço em um dos testículos, sensação de peso na região escrotal, dor leve ou desconforto persistente e, em alguns casos, presença de nódulos palpáveis.

O diagnóstico envolve exame físico, ultrassonografia e dosagem de marcadores tumorais, como o próprio Beta HCG. Quando identificado precocemente, o tratamento apresenta altas taxas de cura, superiores a 95%. A abordagem pode incluir cirurgia para retirada do testículo afetado, além de quimioterapia ou radioterapia, dependendo do estágio da doença. Para o especialista, o principal aprendizado que vem do esporte deve ser levado para a população geral. “O autoconhecimento do corpo e a busca por avaliação médica diante de qualquer alteração são fundamentais. Se atletas jovens, em plena forma física, podem ter esse diagnóstico, qualquer homem também pode. A diferença está em identificar cedo”, conclui André Sasse.

Pedro Ribeiro

Jornalista há mais de 48 anos, com passagem pelos principais meios de comunicação do Paraná e autor de vários livros publicados.

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