Paraná terá mais uma escola médica estadual, agora em Apucarana

Sinônimo de acesso crescente à assistência ou precarização da profissão médica? Estado avança para seu 27° curso de Medicina, quando já soma 44,5 mil profissionais em atividade.

O governador Ratinho Junior anunciou nesta terça-feira (6), ao lado do deputado federal Beto Preto, ex-secretário da Saúde, a criação de mais um curso de Medicina, agora na Universidade Estadual do Paraná (Unespar), Campus de Apucarana, no Vale do Ivaí. Como divulgado, o vestibular será ainda em 2026, para início das aulas no primeiro semestre de 2027. Serão 40 vagas disponíveis, número presente na maioria das escolas de formação médica sob gerência do Estado, como a Universidade Estadual do Norte do Paraná (UENP), de Cornélio Procópio, que já inicia aulas no segundo semestre deste ano.

Com o curso no Vale do Ivaí, o governo estadual contará com oito escolas médicas, que se somam a outras três públicas federais e pelo menos 16 outras privadas, totalizando 27 no Paraná, com mais de 2,3 mil vagas de ingressantes anuais. A oficialização do curso deve ocorrer nessa sexta-feira (8) no auditório Gralha Azul, na Unespar, com presença de autoridades, incluindo o próprio governador e representantes de todas as faculdades estaduais. Sem dúvida, uma grande conquista para a região e para jovens que sonham seguir carreira na Medicina, com óbvios dividendos sociais, econômicos e políticos.

Porém, a questão é muito complexa e exige uma série de reflexões, a começar pelas condições em criar um corpo docente qualificado em meio a tanta concorrência, investir em laboratório e hospital-escola e carrear recursos financeiros vultosos. A incógnita é sobre o que o futuro reserva a esse contingente elevado de médicos que está sendo lançado no mercado anualmente e qual a certeza de que estejam devidamente preparados para a reciprocidade perante a sociedade, de receber a formação subsidiada pelo Estado e de devolver qualidade e dedicação assistencial.

Número de graduandos em ascensão

O Paraná conta hoje com quase 44,5 mil médicos em atividade, sendo em condições praticamente de igualdade entre homens (51%) e mulheres (49%). E, por suas características socioeconômicas, o Estado é um dos que mais atraem formandos, tanto em cursos de outras regiões e também da América Latina, depois de cumpridas as formalidades do Revalida (para diplomados no exterior).

De acordo com dados da Demografia Médica do Conselho Federal de Medicina de 2024, que se defasam muito rapidamente pelo volume de médicos que chegam ao mercado em proporção ao crescimento populacional, o índice já era de 2,81 médicos por mil habitantes, taxa que já supera muitos países desenvolvidos. No Sul, a proporção já alcançava 3,27 e o Paraná alcançava o 5° lugar no número de profissionais. Hoje, já passa de 3,7 mil médicos por mil habitantes. A média na União Europeia é um pouco superior a 4, mas sob cenário completamente diferente.

Quando fez a sua última demografia, o CFM observou que o Paraná tinha menos de 19 mil médicos em 2011. Treze anos depois, o número já tinha saltado para cerca de 37 mil. Aumento de quase 96%. Sob a nova realidade, com tantas escolas e migração para centros maiores, o Paraná ganhou 7 mil profissionais em pouco mais de três anos. Com plantões rareando e vagas cada vez mais restritivas em mercado disputadíssimo, o que se vislumbra é a crescente exploração do trabalho médico. Coisas de um mercado onde a pejotização e terceirização são companhias que se apresentam sedutoras.

Precarização e exploração da atividade?

O CRM do Paraná até editou uma resolução que cria o Cadastro de Inadimplência Médica, de caráter público, destinado a expor organizações contratantes por descumprimento de cláusulas relativas às condições de trabalho, o que inclui o não pagamento de remuneração. A ação propõe valorizar o médico e a profissão, mas vai de encontro à barreira instalada por esta nova realidade, em que o sonho de ser médico, numa jornada intensa de estudos e de investimentos – sobretudo nas escolas privadas com suas mensalidades em média de R$ 10 a 12 mil -, transforma-se, muitas vezes, numa decepção e pesadelo.

Aí que mora o perigo. A precarização leva a desvios éticos, a danos materiais ou morais decorrentes da prestação de serviços de saúde que, em outras palavras, são imperícia, negligência ou imprudência. Tais falhas se acentuam, como demonstram denúncias e procedimentos levados ao órgão fiscalizador da atividade e aos tribunais. Mas o mais triste da história é, sem dúvida, a ânsia de quantidade – e aí muitas vezes aparecem interesses sociais e políticos – engolindo a qualidade. E nesse flutuar estarão vidas. Que não são detalhes.

Cornélio Procópio inicia curso

A Universidade Estadual do Norte do Paraná (UENP), que está inaugurando o seu curso de Medicina, terá a primeira turma de 40 alunos no segundo semestre. Aos interessados foi dada a oportunidade de acesso pelo Aprova Paraná Universidades. O curso em Cornélio Procópio, que chegou a ser aprovado ainda na gestão da governadora Cida Borghetti, em novembro de 2018, e depois retirado de pauta pela pressão das organizações médicas diante da abertura desenfreada de escolas, foi instituído pelo Decreto Estadual 12.320, de 18 de dezembro de 2025.

Atende a pleito antigo da região e se encaixa nas restrições impostas pelo STF, de contar com aval prévio do MEC e de que a criação de vagas deve seguir o modelo de chamamento público do Programa Mais Médicos. A Corte Superior foi obrigada a intervir diante da verdadeira farra de liberações de cursos mediante liminares, uma fila de duas centenas de pretendentes em todo o País. Já com mais 400 centros formadores, alguns sustentados por liminares, o Brasil só não detém o recorde por causa do modelo de polos de ensino médico da Índia, que tem população sete vezes maior.

Para autorizar a abertura do curso em Cornélio Procópio, o governo estadual anunciou investimentos de R$ 85 milhões, apostando no fortalecimento da rede pública de serviços de saúde. Do ponto de vista de disponibilidade de médicos, especialistas sustentam que tal pretensão está há muito desconectada do que é real. O número de médicos e de centros formadores já são mais do que suficientes para atender ao mercado, os recém-formados se distanciam em maioria do serviço público, estão encontrando mercado já saturado e a capacitação técnica se mostra deficiente, colocando-os em condições adversas de competividade com quem já está atuando. Isto, sem contar que as vagas em residência, capazes de propiciar equilíbrio em termos de mercado, atendem somente a uma parcela dos médicos que estão chegando ao mercado de trabalho.

Escolas abertas em sequência

Agora, com o novo curso anunciado para Unespar, em Apucarana, e com o início das atividades em Cornélio Procópio, no Norte PIoneiro, com a UENP (40 vagas), o Estado vai totalizar oito centros formadores em Medicina,. O rol inclui a UEL/Londrina (80 vagas), UEM/Maringá (40), UEPG/Ponta Grossa (50), Unicentro/Universidade Estadual do Centro-Oeste (Guarapuava, 40) e Unioeste de Cascavel e Unioeste de Francisco Beltrão (somam juntas 92 vagas anuais). Totalizam, assim, 382 vagas anuais). Juntam-se a outras três públicas, da esfera federal: a UFPR – a primeira de todas (176 vagas), sua extensão em Toledo (60) e ainda a Unila (Universidade Federal da Integração Latino-Americana), em Foz (60).

Aí aparecem outros 13 cursos da rede privada: PUC Curitiba, PUC Londrina, UP/Curitiba, FAG/Cascavel, Campo Real/Guarapuava, FEMPAR/Curitiba, Pequeno Príncipe/Curitiba, Uningá/Maringá, Unicesumar/Maringá, Integrado/Campo Mourão, Univel/Cascavel, Unidep/Pato Branco e Unipar/Umuarama. Juntos, ofertam pelo menos 1.409 vagas anuais de ingresso.

Aí neste cenário surgiu o curso de Medicina do Centro Universitário FAPI/Faculdade de Pinhais, no segundo semestre de 2023 oferecendo 154 vagas e se garantindo por liminar. No ano seguinte, já com número de ingressantes reduzido à metade, o Centro foi adquirido pelo Cruzeiro do Sul Educacional, numa transação milionária. Ao grupo chegou depois o Centro Universitário de Telêmaco Borba (Unifateb), com 40 vagas. E ainda, veio o curso da Fatec/Ivaiporã, anunciando 120 vagas anuais em uma cidade da Grande Londrina que tem menos de 34 mil habitantes.

Considerando 678 vagas públicas e mais 1.409 privadas que já existiam e mais as recentes, temos no Paraná aproximadamente 2,3 mil ingressantes em 27 cursos de Medicina. Projeta-se uma disputa ferrenha por espaço no exercício da atividade médica. Sem dúvida.

Pedro Ribeiro

Jornalista há mais de 48 anos, com passagem pelos principais meios de comunicação do Paraná e autor de vários livros publicados.

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