Quinze minutos para Ciro Nogueira, segundo bloco para Augusto Cury, terceiro bloco para Trump e Lula: a declaração de prioridades do telejornalismo da TV Globo.
Por Gaudêncio Penaforte –
A principal notícia política desta quinta-feira (7), sob qualquer critério jornalístico, era uma só: a aguardada reunião entre Trump e Lula em Washington. O presidente do Brasil passou três horas na Casa Branca, saiu com elogios públicos do homem mais poderoso do planeta e sem novas tarifas no bolso. Em qualquer redação de telejornalismo do mundo, com pretensão de fazer valer a ética do ofício, um acontecimento dessa magnitude abriria o principal telejornal do horário nobre, dominaria o primeiro bloco e ainda estenderia a cobertura sobre suas repercussões no segundo.
Não foi o que aconteceu na edição da noite de quinta do Jornal Nacional (JN). O encontro entre Trump e Lula só foi mencionado na quarta manchete. A cobertura, por sua vez, entrou somente no terceiro bloco, como a segunda matéria, depois de matéria sobre a aprovação, na Câmara dos Deputados, do Projeto de Lei que Institui a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos (CMCE), as chamadas Terras Raras.
O Cardápio Indigesto do JN desta Quinta-feira
Para entender a extensão do anti-jornalismo praticado pela rede de televisão líder de audiência do país, no seu principal telejornal, basta analisar a edição de ontem do JN.
O primeiro bloco — que se estendeu por cerca de quinze minutos — foi inteiramente dedicado ao senador Ciro Nogueira (PP-PI), ex-ministro da Casa Civil do governo Bolsonaro, alvo principal de nova operação da Polícia Federal (PF) no inquérito do escândalo do Banco Master, a cargo do Supremo Tribunal Federal (STF), sob a relatoria do ministro André Mendonça. Junho nem chegou e a Quadrilha do Centrão já dança ao som do Bando do Vorcaro.
O que o noticiário ainda não havia revelado completamente, mas que os documentos da PF já descreviam com precisão: Ciro Nogueira era, na prática, uma espécie de Homem Troféu de Daniel Vorcaro, o pivô do escândalo do Master, com direito a: cartão de crédito sem limite, mesada mensal que começou em R$ 300 mil e chegou a R$ 500 mil, apartamento de luxo e viagens para destinos paradisíacos — restaurantes no Caribe, hotéis com diárias de até R$ 130 mil, jatinho particular. Em troca, o senador atuava no Congresso como despachante do Master.
Ter roubado as principais manchetes no dia da visita de Lula a Trump, convenhamos, certamente não se enquadra entre os crimes e delitos mais graves imputados ao senador Ciro Nogueira.
O segundo bloco foi dedicado ao lançamento de Augusto Cury como pré-candidato à presidência da República pelo Partido Avante — autor de best-sellers de autoajuda, cujos livros habitam bancas de aeroporto e mesas de cabeceira de quem acredita que o problema do Brasil é falta de resiliência emocional.
O terceiro bloco apresentou, como segunda reportagem, a cobertura do encontro entre os presidentes do Brasil e dos Estados Unidos, que durou cerca de três horas, incluiu almoço reservado no gabinete presidencial e foi coberto ao vivo pela BBC, pelo El País e por praticamente toda a imprensa internacional.
Primeiro a corrupção. Depois a autoajuda. Por fim, já na segunda metade do telejornal, o acontecimento político mais importante do dia. O JN construiu involuntariamente uma taxonomia do Brasil que nenhum sociólogo conseguiria: é quase um roteiro de país.

A Gafe que se Autodenuncia
O mais revelador, porém, não foi a decisão editorial. Foi o que o próprio correspondente da Globo em Washington disse ao abrir a reportagem, no terceiro bloco, como segunda matéria:
“— O encontro começou com o tradicional aperto de mão. Era meio-dia e vinte e um, pelo horário de Brasília, quando o Presidente Lula chegou à Casa Branca. O momento mais esperado era esse: o encontro dos dois presidentes no Salão Oval. Geralmente cercado de jornalistas e muitas câmeras. Já é tradição na Casa Branca antes da reunião com autoridades de outros países, começar — os jornalistas são convidados a entrar e muitas vezes conseguem fazer perguntas. Mas desta vez foi diferente: a pedido de Lula, a fala dos presidentes para a imprensa ficaria para depois da reunião.”
O repórter da Globo em Washington classificou o encontro de “o momento mais esperado”. E estava absolutamente coberto de razão na sua assertiva: era, de fato, o momento mais esperado do dia, da semana, talvez do semestre diplomático brasileiro. Trump publicou postagem no Truth Social chamando Lula de “dinâmico”. O encontro, previsto para durar no máximo duas horas, se estendeu por três horas. O anfitrião se referiu, posteriormente, ao líder brasileiro como “um homem bom”.
Só a TV Globo não considerou o encontro o momento mais esperado do dia. Só o JN preferiu dedicar um bloco de 15 minutos à operação da PF, autorizada pelo ministro André Mendonça, que teve como alvo principal o senador Ciro Nogueira, um dos nomes que vem sendo cogitado como possível candidato a vice-presidente na chapa a ser encabeçada pelo colega Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Como se não bastasse, o segundo bloco deu amplo destaque ao lançamento da pré-candidatura de Augusto Cury, pelo partido Avante. Com escassa representação no Congresso, a sigla apresentou o melhor lance no leilão da candidatura avulsa de Augusto Cury, que parece mais interessado em capitalizar a exposição garantida pela disputa presidencial, dada sua escassa viabilidade eleitoral.
Mais uma vez, os editores do JN, telejornal que ainda detém a maior audiência da televisão brasileira, desconsideraram os critérios mais elementares de relevância jornalística na edição desta quinta-feira (7). Essa escolha editorial, evidentemente, não foi feita por subalternos. Obedece a linha editorial ditada pela alta direção. Na cobertura política enviesada da Globo, a história não apenas se repete como farsa: a própria narrativa jornalística concorre com a ficção, sem os mesmos recursos humorísticos.
A Ordem que Denuncia Tudo
Há uma ironia estrutural na sequência do terceiro bloco que merece registro. A votação do PL 2780/2024, que institui a Política Nacional de Materiais Críticos e Estratégicos (PNMCE), que abriu o bloco antes da cobertura sobre o principal acontecimento político do dia, só se deu exatamente por causa do encontro Trump-Lula. A matéria foi pautada às pressas pela Câmara dos Deputados na véspera da reunião, como gesto diplomático de boa vontade para levar à mesa de Washington.
É bom lembrar que o Brasil detém a segunda maior reserva de Terras Raras do mundo, atrás apenas da China, que lidera a exploração desses minerais críticos. É bem conhecido o interesse estratégico dos Estados Unidos em explorar as reservas brasileiras. A causa da aceleração da tramitação do projeto de lei que cria um marco legal para exploração de minerais críticos foi para o terceiro bloco. O efeito foi noticiado antes dela. O JN conseguiu a proeza de cobrir a consequência antes de cobrir o fato.
O Elefante na Sala de Redação
Seria ingenuidade fingir que a decisão editorial do JN aconteceu no vácuo. Ela ocorreu uma semana depois de duas derrotas contundentes sofridas pelo governo no Congresso: a rejeição de Jorge Messias, o indicado para o STF, e a derrubada do veto ao PL da dosimetria, abrindo caminho para a redução das penas de Jair Bolsonaro e demais condenados pela tentativa de golpe de Estado. A Globo deu ampla cobertura às derrotas do governo no Congresso.
Quando Lula, em mais uma demonstração da sua notável resiliência política, sai das cordas e gera uma pauta positiva — após duas derrotas no Congresso, após a rejeição histórica de sua indicação ao STF, após semanas de desgaste político acumulado — a Globo simplesmente rebaixa o encontro histórico com Trump à categoria de calhau do JN. Não, repita-se, com base em qualquer critério jornalístico, mas decisão editorial da alta direção da emissora de negar cobertura favorável sobre uma evidente vitória diplomática do governo brasileiro.
O jornalismo lavajatista da Globo nunca foi sutil. Mas raramente foi tão explícito e escandaloso. Abrir o telejornal mais assistido do Brasil com foco em um senador investigado, sem contextualização das suas vinculações políticas, dedicar o segundo bloco a um autor de autoajuda em modo pré-candidato à Presidência da República, e reservar a segunda metade do terceiro bloco ao encontro bilateral mais importante do ano — isso não é pauta jornalística. É política editorial com CNPJ.
Não se trata de defender Lula. Trata-se de defender o jornalismo. A notícia não tem partido — ou não deveria ter. O encontro entre os presidentes do Brasil e dos Estados Unidos teria merecido o primeiro bloco independentemente de quem fosse o presidente brasileiro. Seria verdade com Lula. Seria verdade com Bolsonaro. Seria verdade com qualquer presidente democraticamente eleito de qualquer partido.
Epitáfio Provisório
O Jornal Nacional já foi o termômetro do Brasil. Perdeu audiência e, algo ainda mais difícil de reconquistar: credibilidade. A edição do JN desta quinta-feira, 7 de maio, não foi apenas uma decisão equivocada de pauta — foi mais uma exibição em horário nobre da má qualidade do telejornalismo praticado pela principal rede de televisão do país, concessionária de um serviço público. Afinal, emissoras de televisão e rádio utilizam, por tempo determinado, o espectro eletromagnético, que é um bem público finito pertencente à União.
O histórico da Globo é bem conhecido: foi instrumental à ditadura, prestou-se à manipulação grotesca da edição do debate decisivo no 2º turno da primeira eleição direta para presidente, em 1989, atuou em conluio com a força-tarefa da Operação Lava Jato para tirar Lula da disputa e pavimentar o caminho para Bolsonaro chegar à presidência, na eleição de 2018.
Novamente, como se viu na edição de ontem do JN, a Globo está tomando partido e interferindo no processo político-eleitoral com uma agenda própria, voltada para a maximização dos seus interesses corporativos e empresariais.
(*) Gaudêncio Penaforte é jornalista, crítico de mídia e analista político (Brasília, 8 de maio de 2026).





