Quem perde com essa lambança, degradação moral, é a política e a própria direita
Em editorial publicado neste sábado (16) com o título “A Direita Diante de seu Veneno”, onde analisa o escândalo de Flávio Bolsonaro, o jornal Estadão mostra como é alto o custo de se manter atado a um clã que intoxica o campo conservador com escândalos, degradação moral e desprezo pela democracia
A ruína política de Bolsonaro poderia ter sido o ponto de partida para a reconstrução da direita, abrindo espaço para lideranças comprometidas com reformas e moderação. Em vez disso, muitos preferiram ajoelhar-se diante do espólio bolsonarista, como se o patrimônio eleitoral do ex-presidente fosse transmissível por sangue. O resultado é Flávio Bolsonaro – que não tem estatura nem para ser poste do pai golpista, que dirá presidente da República.

Movimento que sequestrou a direita
Não há futuro respeitável enquanto a direita tratar a família Bolsonaro como destino. O conservadorismo democrático não precisa de herdeiros ungidos por sobrenome. Precisa de partidos sérios, lideranças preparadas, programa consistente e coragem para romper com aquilo que o degrada. A ruptura não será indolor, mas pior é seguir arrastando o peso morto de um movimento que sequestrou a direita e a associou ao que há de mais rebaixado na vida pública. Deve-se perguntar quantos escândalos mais serão necessários para reconhecer essa verdade.
Eis a chance definitiva da direita: assumir seu lugar numa democracia madura, como força reformista, responsável e comprometida com a ordem constitucional, ou continuar servindo de biombo para uma família que transformou o antipetismo em negócio político. Se quiser voltar a merecer a confiança dos brasileiros, precisa romper com o bolsonarismo. Fora disso é tornar-se cúmplice de um desastre.
Polarização divide debate público
Rafaella Munhoz da Rocha, advogada curitibana que acompanha os passos da política brasileira diz, em artigo pulicado neste jornal (15/05) que “a polarização não apenas dividiu o debate público. Ela produziu uma ética seletiva. Cada campo aprendeu a enxergar com nitidez quase didática o desvio do outro — e foi perdendo, na mesma proporção, a disposição de aplicar o mesmo rigor às próprias contradições. Esse talvez seja o traço mais corrosivo do nosso tempo político: os princípios continuam sendo invocados, mas cada vez mais como arma de acusação, e cada vez menos como exigência pessoal. Isso aparece com clareza no noticiário recente.
Na sua avaliação, “os áudios de Flávio Bolsonaro com Daniel Vorcaro revelaram um constrangimento evidente para parte da direita, que vinha tratando as relações entre o banqueiro e o entorno de Alexandre de Moraes como prova suficiente de suspeição — mas agora tenta relativizar a busca de milhões para financiar um filme sobre Jair Bolsonaro. O problema aqui não é apenas jurídico. É moral. O mesmo fato muda de peso conforme muda o personagem”.






