A Reforma Tributária que não é tributária

Por Junior Rozante – Essa transição sistêmica deve ser encarada como um projeto corporativo transversal, e não apenas uma pauta do departamento fiscal ou jurídico.

Durante anos, a discussão tributária no Brasil esteve concentrada em um único objetivo: sobreviver à complexidade do sistema. Empresas estruturaram departamentos inteiros para lidar com regras fragmentadas, obrigações acessórias e interpretações distintas entre estados e municípios. Agora, com a reforma tributária em curso, o desafio muda de patamar.

A criação do IVA dual, por meio da CBS e do IBS, inaugura uma nova lógica de tributação sobre o consumo no país. Embora o debate público ainda esteja muito concentrado em alíquotas, compensações e impactos setoriais, existe um ponto que merece atenção imediata das empresas: a reforma tributária não será apenas uma mudança fiscal. Ela provocará uma transformação operacional profunda.

Na prática, isso significa revisar processos, sistemas, contratos, fluxo de caixa, formação de preços, governança e integração entre áreas. E muitas organizações ainda não perceberam a dimensão dessa mudança.

Historicamente, empresas brasileiras aprenderam a operar em um ambiente tributário altamente cumulativo e burocrático. Com a nova lógica de crédito financeiro, recolhimento no destino e maior rastreabilidade das operações, o impacto deixará de estar restrito ao departamento fiscal. Ele passará a atingir diretamente a operação e a estratégia dos negócios.

Isso ficará ainda mais evidente durante a fase de transição até 2032, quando empresas precisarão conviver simultaneamente com modelos antigos e novos de tributação. Sistemas de ERP precisarão ser reconfigurados, e processos fiscais terão de ser revisados de ponta a ponta.

A tecnologia deixará de ser apenas suporte para se tornar o braço direito da governança, pois a parametrização de CBS/IBS, a automação fiscal e a conciliação de créditos serão decisivas para evitar perdas financeiras e riscos operacionais.

O problema é que muitas organizações ainda operam com estruturas fragmentadas, baixa integração entre áreas e alto grau de dependência de controles manuais. Em um cenário de CBS e IBS, esse modelo tende a gerar aumento de riscos, perda de créditos tributários, inconsistências operacionais e pressão sobre margens.

Os impactos serão sentidos em praticamente todos os setores da economia.

Na indústria, por exemplo, a substituição do modelo atual por um sistema de crédito mais amplo pode reduzir cumulatividade e aumentar eficiência tributária. Ao mesmo tempo, exigirá revisão completa das cadeias de suprimentos, da precificação e da gestão de investimentos.

No varejo e no e-commerce, a tributação no destino deve alterar dinâmicas competitivas entre regiões, além de demandar maior controle sobre operações omnichannel, marketplaces e repasses tributários. Empresas que não tiverem integração fiscal e tecnológica adequada poderão enfrentar dificuldades relevantes de compliance e gestão de caixa.

Já em logística e transporte, a reforma exigirá precisão ainda maior na gestão de origem e destino das operações, além de atenção rigorosa à documentação fiscal e à partilha do IBS. Em um setor que opera com margens historicamente apertadas, qualquer falha operacional pode gerar impactos financeiros relevantes.

Na construção civil e incorporação, o aproveitamento ampliado de créditos pode gerar ganhos importantes, mas a pressão sobre fluxo de caixa tende a aumentar. Neste cenário, o planejamento societário e estruturas como holdings e FIIs ganham relevância para preservar competitividade e rentabilidade.

Existe ainda um fator que muitas empresas subestimam: o impacto financeiro da transição.

A nova lógica de apuração exigirá revisão de capital de giro, calendário de recolhimento, políticas de precificação e repasse tributário. Em outras palavras, não basta entender quanto imposto será pago. Será necessário compreender quando ele será pago, como ele afetará o caixa e de que maneira isso influenciará a sustentabilidade financeira da operação.

Por isso, as empresas que saírem na frente não serão necessariamente aquelas com maior estrutura tributária, mas sim as que conseguirem integrar estratégia, operação, tecnologia e governança de forma coordenada.

A reforma tributária deve ser encarada como um projeto corporativo transversal, e não apenas uma pauta do departamento fiscal ou jurídico.

Os próximos anos exigirão das lideranças empresariais capacidade de adaptação, visão sistêmica e rapidez na execução. Organizações que iniciarem desde já o mapeamento de impactos, a revisão de processos e a atualização tecnológica terão mais condições de transformar complexidade em vantagem competitiva.

As que tratarem a reforma apenas como obrigação regulatória provavelmente enfrentarão custos maiores, perda de eficiência e dificuldade de adaptação ao novo ambiente econômico.

O sistema tributário brasileiro está mudando. E, junto com ele, mudará também a forma como as empresas operam, se organizam e competem.

(*) Junior Rozante é CEO da RZ3, ecossistema de empresas que atua de forma integrada para apoiar organizações na conexão entre estratégia e execução.

Pedro Ribeiro

Jornalista há mais de 48 anos, com passagem pelos principais meios de comunicação do Paraná e autor de vários livros publicados.

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