Jovem de São Paulo usa a própria trajetória de superação para impulsionar iniciativas que ampliam o acesso a cirurgias gratuitas de fissuras labiopalatinas e reforçam o impacto social de organizações humanitárias no país.
A vivência de uma condição de saúde que impacta o corpo e a autoestima pode redefinir caminhos. Foi o que aconteceu com Mila Ortega, uma jovem de 17 anos de São Paulo (SP) que, após enfrentar uma escoliose de origem genética e passar por uma cirurgia complexa, encontrou na solidariedade uma forma de ampliar o impacto da própria história.
Diagnosticada ainda jovem, ela viu a condição evoluir rapidamente, afetando sua saúde física e sua forma de enxergar o futuro. “Impactava muito a minha autoestima. Existia uma preocupação constante com a progressão da doença e com o que isso poderia significar para a minha vida”, relembra.
A cirurgia, embora desafiadora, incluindo um período delicado de internação em Unidade de Terapia Intensiva (UTI), durante duas semanas, marcou uma virada significativa. Mais de dois anos depois, ela relata uma recuperação completa, sem dores ou limitações. A rotina ativa, antes ameaçada, foi plenamente retomada, incluindo a prática de esportes como futebol, vôlei, surfe e tênis.
“Um dos meus maiores medos era que a cirurgia afetasse minha vida esportiva, mas não afetou em nada. Hoje, sigo normalmente, sem dor e sem incômodos”, conta. Além da recuperação física, a mudança também foi visível na saúde mental. “A minha autoestima melhorou muito. Antes, visualmente, dava para perceber um desequilíbrio no meu corpo, como diferenças na cintura e na postura. Isso me incomodava bastante. Depois da cirurgia, meu corpo ficou alinhado, minha postura corrigiu, ombros e costas também, e até dores que eu tinha, como no joelho, melhoraram. Foi uma transformação muito importante para mim, tanto fisicamente quanto emocionalmente”, complementa Mila.
Mudança de pensamento no ambiente hospitalar
A experiência dentro do ambiente hospitalar também trouxe uma compreensão mais profunda sobre os desafios enfrentados por pacientes e famílias. O período pós-operatório, considerado um dos mais críticos, evidenciou a importância de uma estrutura médica preparada e de acompanhamento contínuo.
Foi a partir dessa vivência que Mila, junto com a sua família, tiveram o desejo de ajudar outras pessoas. Inicialmente, a ideia era apoiar financeiramente diretamente pacientes com escoliose, mas a complexidade e o alto custo dos tratamentos levaram a família a buscar alternativas com maior alcance social. Nesse processo, conheceram a Operação Sorriso, uma das maiores organizações humanitárias de cirurgia do mundo, que oferece tratamento clínico e cirúrgico para crianças, jovens e adultos nascidos com fissura labiopalatina, condição em que o lábio superior e/ou o céu da boca não se formam corretamente durante a gestação.
“A gente se identificou muito com o trabalho, principalmente porque condições genéticas afetam não só o físico, mas também o dia a dia, a autoestima, a confiança e o futuro dessas pessoas.”, explica.
A organização atua globalmente e já atendeu mais de 13 mil famílias e cerca de 119 mil consultas médicas gratuitas no Brasil. De acordo com dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), a cada 650 nascimentos no país, uma criança nasce com fissura labiopalatina, condição que pode comprometer funções como alimentação, fala e audição, além de gerar impactos socioemocionais.
Para Mila, iniciativas como essa têm um impacto que ultrapassa o campo da saúde. “Muitas dessas crianças enfrentam dificuldades para comer, falar e até respirar, e a cirurgia devolve essas funções básicas, o que já transforma completamente o dia a dia delas. Em alguns casos, elas também enfrentam bullying e isolamento. Quando a criança passa pela cirurgia, ela não ganha só um sorriso novo, ela ganha autoestima, confiança e mais chances de se integrar na escola, na comunidade e na vida social. Isso influencia diretamente o desenvolvimento emocional e as oportunidades futuras”, afirma.
Ainda de acordo com a jovem, o impacto também se estende às famílias. “Muitas não têm acesso a esse tipo de cirurgia por questões financeiras, então esses projetos aliviam um peso enorme. Eles trazem esperança, reduzem a ansiedade e mostram que essas famílias não estão sozinhas. Em muitos casos, os pais também recebem orientação e apoio durante todo o processo.Ver um filho passar por uma condição genética é muito difícil”, completa.
Além das cirurgias, a Operação Sorriso também atua na capacitação de profissionais e no fortalecimento dos sistemas de saúde locais, ampliando o alcance e a sustentabilidade das ações. “No fim, não é só sobre cirurgia. É sobre devolver dignidade, abrir caminhos e mudar o rumo de uma vida inteira”, complementa Mila.
Ação em Santarém
A última ação da Operação Sorriso, com mutirão de cirurgias gratuitas, aconteceu de 19 a 25 de maio, em Santarém (PA), com a realização de avaliações e cirurgias gratuitas para pessoas com fissura labiopalatina. A triagem foi aberta a crianças, jovens e adultos, com atendimento multidisciplinar que incluiu avaliação médica, odontológica, fonoaudiológica, genética e psicossocial.
“O padrão-ouro de tratamento do paciente com fissura é multidisciplinar, envolvendo diversas especialidades cirúrgicas que se complementam ao longo de toda a jornada do paciente. A Operação Sorriso carrega esse princípio da multidisciplinaridade em todas as etapas do cuidado. Por isso, o momento da triagem é um dos mais especiais do Programa Cirúrgico. É quando nossos pacientes passam por sete especialidades da área da saúde, garantindo que recebam o tratamento mais adequado e seguro possível. Na triagem, nosso trabalho também assegura que nenhum paciente saia desassistido. Mesmo quando não se trata de um caso cirúrgico para o programa em questão, buscamos sempre oferecer um direcionamento para a continuidade do tratamento”, comenta Adriana Tschernev, diretora executiva da Operação Sorriso.






