Por Paulino Motter –
Nesta sexta-feira, 5 de junho de 2026, meu pai completaria 90 anos. Morreu no início da manhã de domingo, 12 de setembro de 2021, durante a pandemia da covid-19. Teve uma vida longa e dura. Não vou pedir licença para escrever novamente sobre ele, mesmo que seja como expiação. Quando ele morreu, eu estava morando em Madrid e dois dias antes estive a ponto de embarcar para o Brasil, quando soube que ele havia sido internado, com insuficiência respiratória. Meu pai não merecia ter partido sem nenhum filho ao seu lado. Nunca me perdoarei por isso.
Otávio Motter ergueu uma casa de madeira na zona rural do então distrito de Cafelândia, no oeste do Paraná, numa época em que a mata atlântica caía aos golpes de machado e motosserra e o cedro, a peroba e o angico eram vendidos a preço de urgência. Meu pai não construiu a casa com as próprias mãos — trabalhos que exigiam perícia manual nunca foram o seu forte. Mas mandou erguê-la com paredes duplas e cinco quartos, o que revelava, mais do que qualquer declaração, a sua visão de mundo: ele já sabia que viriam muito mais filhos, além dos quatro que já tinham chegado. Faltou dinheiro para dar uma demão de tinta nas paredes externas, que permaneceram por muitos anos na cor cinzenta natural da madeira. A pintura amarela só viria muito mais tarde — depois que os filhos mais velhos já tinham decorado a textura da madeira crua como parte da paisagem da infância. A incompletude não era desleixo. Era a ordem correta das prioridades: primeiro a estrutura sólida do lar, depois a aparência e boniteza. Sempre.
Sete filhos. Quinze netos. Uma casa sem pintura externa por anos. Um rádio de pilha no canto da sala.
O rádio merece um parágrafo próprio. Meu pai era gaúcho transplantado no Paraná, onde chegou em 1961, casado, com um filho e a esposa grávida. No início, morou de favor no paiol de um cunhado, o tio Arlindo Reichert, casado com a tia Joana. As suas antenas afetivas, no entanto, nunca se deslocaram completamente para o norte. Enquanto o oeste paranaense se construía ao redor dele — com a promessa da terra roxa, da soja, da labuta diária pela subsistência —, ele sintonizava a Rádio Gaúcha e a Farroupilha. Era uma forma silenciosa de não se perder de suas raízes. O rádio ficava no canto da sala como um fio esticado até o Rio Grande do Sul, sempre ligado, sempre fiel. Gremista de coração, também gostava de acompanhar os jogos pelo rádio.
Não fumava. Não bebia. Tinha hábitos de higiene muito estritos para um camponês — a barbeação quase diária, a roupa cuidada, a ordem no que era seu — que foram se intensificando com os anos até assumir, já em Curitiba, na velhice, os contornos de um Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC). Lavava as mãos dezenas de vezes por dia. Mas mesmo nos anos duros da roça, meu pai se barbeava com todo o esmero. Jamais foi à missa dominical na Igreja Matriz de Cafelândia sem estar meticulosamente barbeado. Considerava uma dupla ofensa apresentar-se à fila da comunhão com a cara do desleixo: ofensa a Deus e ofensa à própria dignidade, que para ele eram inseparáveis. A navalha era um instrumento religioso tanto quanto o terço.

Quando os filhos homens cresceram e arriscaram deixar a barba crescer — hábito que eu adotei com mais persistência —, tiveram que ouvir as reprimendas e comentários desairosos do seu Otávio. A ojeriza à barba era estética, moral e política ao mesmo tempo. Não surpreende que ele nunca tenha simpatizado com Lula — e que essa antipatia tivesse, entre suas raízes menos confessas, a barba do metalúrgico. Meu pai era um homem de cara limpa e alma pura, e desconfiava de quem não compartilhava dessa liturgia.
Meu pai, literalmente, ia como o milho e voltava com a farinha. Sim, ia ao moinho levando na carroça, puxada por uma junta de bois, sacas de milho colhido na roça que cultivava e voltava com farinha suficiente para alimentar a prolífica prole. A polenta era item obrigatório na dieta da família, no jantar e no café da manhã, tostada na chapa do fogão a lenha, com leite abundante e queijo artesanal. Ninguém passou fome naquela família, isso eu posso assegurar.
O que ele mais gostava, no verão quente do interior do Paraná, era tirar uma sesta na varanda. O chimarrão pela manhã, o rádio no canto, a sesta depois do almoço, antes de retornar ao cabo da enxada: esses eram os hábitos frugais e irredutíveis. Um homem que trabalhou a vida inteira de sol a sol sabia exatamente o valor de meia hora de descanso na varanda. Não era preguiça, à qual não podia se dar ao luxo, com nove bocas para alimentar. Era a mesma precisão com que escolhia a madeira de lei para as paredes externas da casa e a hora certa de ir à missa, muitas vezes de charrete, com a filharada apinhada.
Meu pai não dançava. Não tinha gingado. Era espirituoso, mas não festeiro. Era desajeitado nas tarefas que exigem destreza — o que impacientava minha mãe, que via na rusticidade dele uma forma de teimosia. Sua afetividade era contida ao extremo. Beijar os filhos não fazia parte do seu modo de ser. Se eu disser que meu pai era meio bruto, pode parecer insensível — mas o meio em que vivíamos, e a luta diária pela sobrevivência, exigiam uma espécie de virilidade funcional: a atitude de quem suporta a dor e a exaustão sem se queixar, sem se dobrar. Prover o básico já exauria todas as suas energias. O que restava de ternura ele depositava na prática religiosa: nas orações matinais, no terço rezado em família ao entardecer, na missa de domingo com a barba feita e a alma preparada.
E, no entanto, havia um dom que ninguém esperaria num homem rústico assim. Meu pai era um proseador por excelência. Tinha enorme apreço pelo conhecimento alheio. Admirava pessoas “estudadas”, que era como se referia ao dentista, ao médico, e ao advogado e outras profissões de nível superior. Com pouca escolaridade – completou apenas as primeiras séries do primário – meu pai podia entreter horas de conversa sem se cansar nem entediar os interlocutores. Sua habilidade em se comunicar desconcertava quem o conhecia apenas pela aspereza exterior. Apreciava uma boa conversa na mesma medida em que apreciava uma boa comida — muito embora a segunda não fosse tão acessível e frequente na vida austera que levávamos. Nisso de bom papo não poderíamos ser mais diferentes, ele e eu.
Herdei dele, sim, a compleição física e semelhança de aparência. Numa visita que me fez em Brasília, pouco antes de eu partir para o doutorado nos Estados Unidos, emprestei-lhe uma calça jeans que lhe serviu à perfeição — ele então com 63 anos, eu com 35. A mesma medida, o mesmo corpo atravessando o tempo. Só me lamento não ter herdado dele seus olhos azuis: um azul calmo e translúcido, que eu nunca soube bem de onde vinha, quiçá da origem germânica dos Motter do norte da Itália, mas que era inconfundivelmente dele.
Embora avesso a riscos, meu pai tinha confiança absoluta no padre italiano Luís Luise, vigário da recém-criada paróquia de Cafelândia. Essa confiança não se restringia aos assuntos espirituais. Foi assim que ele se somou ao grupo de 19 agricultores liderados pelo padre que fundaram, em 1964, a Cooperativa Agrícola Nossa Senhora da Consolata — a Copacol. Meu pai foi o 14º associado. Conversador, deixou que outros passassem à frente na fila para assinar a ata de fundação. E hipotecou o sítio para viabilizar a cooperativa. Deu certo. Cafelândia tem hoje um dos maiores índices de desenvolvimento humano do Paraná.
Em janeiro de 2015, quando completava 50 anos, visitei pela última vez o sítio onde cresci. Fui a Cafelândia pouco antes de me mudar para Madrid, em julho daquele ano. A casa ainda estava lá, mas tudo parecia ter encolhido — como acontece com todos os lugares da infância quando os revisitamos já adultos. Meu pai havia vendido a propriedade em duas frações: a primeira, no final dos anos 1990, com as benfeitorias; o restante, no início da década seguinte, para a cooperativa que ele mesmo ajudara a fundar nos anos 1960. O comprador morou lá muitos anos, até que a própria cooperativa precisou expandir seu parque agroindustrial e o absorveu também. O sítio onde crescemos foi engolido pelo progresso que meu pai ajudou a criar. O campo que meu pai cultivou por tantos anos deu lugar a lagoas de decantação do abatedouro da Copacol.
Mas a casa de madeira que ele ergueu não foi desmanchada. O antigo proprietário decidiu transportá-la inteira — numa carreta reforçada, por estradas que não imagino — para outra chácara, a cerca de 20 km de distância. Minha irmã Marli, que morreria em 2020, foi a última da família a visitar o sítio e ver a casa ainda no seu lugar, pouco antes da transposição. Eu não tive essa despedida.
A casa resistiu. Isso prova alguma coisa sobre quem a mandou construir: meu pai ergueu uma estrutura sólida o suficiente para ser carregada inteira meio século depois, como um corpo que ainda respira. Acredito que ainda esteja de pé na nova localização. Mas não é mais a mesma casa. Afinal, já não era a nossa casa desde que fora vendida.
Muitos anos depois, já morando em Curitiba, meu pai confessou uma coisa que me marcou. Disse que havia sido um homem duro e que agora se surpreendia com a sua própria emotividade. Que até o canto de um pássaro o emocionava e lhe fazia derramar lágrimas.
Talvez essa admissão tenha sido a demonstração mais profunda de toda a sua caminhada. A casca que a roça e a necessidade forjaram foi, com o tempo, se soltando — e embaixo estava um homem capaz de ser movido pela emoção do canto de um pássaro. Não sei se ele chegou a ser feliz do jeito que a palavra costuma prometer. Mas acho que chegou a ser inteiro. E teve pelos netos e netas o carinho que não se permitia demonstrar com a mesma afetividade aos filhos.
Hoje vou a Curitiba. Amanhã, sexta-feira, irei visitar o seu resting place no Cemitério de Santa Felicidade. Vou com a barba feita, como ele gostava. Isso é tudo o que ainda tenho a dizer sobre meu pai – e não é pouco.
(*) Paulino Motter, jornalista e servidor público federal. É o quarto filho de Otávio & Maria.






