Trump, o Comando Vermelho e a conta que pode sobrar para o Brasil

Trump voltou a demonstrar que sua política externa continua baseada na combinação de pressão econômica e discurso de segurança.

Há muitos desencontros de informações em relação à possível ingerência do governo norte-americano na diplomacia brasileira, especialmente agora quando Donal Trump classificou o Comando Vermelho, facção criminosa brasileira, como terrorista.

Foto/Rolingstone.com

Trump voltou a demonstrar que sua política externa continua baseada na combinação de pressão econômica e discurso de segurança. Nos últimos dias, a decisão de classificar o Comando Vermelho (CV) e o PCC como organizações terroristas estrangeiras veio acompanhada de novas tensões comerciais envolvendo o Brasil, incluindo propostas de aumento de tarifas sobre produtos brasileiros.

Forças de segurança do Brasil agem contra crime organizado

Ninguém em sã consciência pode negar a gravidade das facções criminosas brasileiras. O Comando Vermelho e o PCC construíram impérios bilionários alimentados pelo tráfico de drogas, lavagem de dinheiro e corrupção. São organizações que desafiam o Estado, espalham violência e afetam diretamente a vida de milhões de brasileiros. A repressão firme a esses grupos é uma necessidade permanente.

Mas ninguém pode omitir os esforços da Polícia Federal e de outras forças de segurança no combate ao crime organizado no Brasil.

A questão é outra. Quando os Estados Unidos decidem, unilateralmente, enquadrar facções brasileiras como organizações terroristas, criam-se consequências que ultrapassam o campo policial.

A medida abre espaço para sanções financeiras, aumenta a fiscalização sobre empresas e pode elevar os custos de negócios envolvendo o Brasil, mesmo para setores que nada têm a ver com o crime organizado. Especialistas alertam para impactos em bancos, fintechs, logística e investimentos internacionais.

Como bem disse o ex-senador Alvaro Dias, o produtor do campo, aquele que levanta cedo para trabalhar na terra, plantar, colher e comercializar, não tem nada a ver com as ações do crime organizado e ele será penalizados com taxações absurdas. “Precisamos fortalecer nossa diplomacia para não sermos reféns de forças externas. Temos que abrir mais o mercado e não ficarmos dependentes apenas dos Estados Unidos”, disse.

As novas tarifas sobre produtos brasileiros reforçam a impressão de que Trump utiliza diferentes instrumentos de pressão para ampliar a influência americana sobre parceiros comerciais. Oficialmente, as taxações são justificadas por alegadas práticas comerciais consideradas inadequadas pelos Estados Unidos. Na prática, entretanto, acabam aumentando a temperatura diplomática entre Brasília e Washington. �

O Brasil não deve cair nem na armadilha ideológica da vitimização nem na ingenuidade de ignorar o problema. É legítimo questionar eventuais excessos ou interesses políticos da Casa Branca. Mas também é indispensável reconhecer que a expansão das facções criminosas se transformou em um problema internacional, resultado de décadas de fragilidade no controle de fronteiras, do sistema prisional e do combate ao crime organizado.

Soberania nacional se defende com instituições fortes

A soberania nacional não se defende apenas com discursos inflamados. Defende-se com instituições fortes, inteligência policial eficiente e resultados concretos na segurança pública. Quanto mais o Brasil demonstrar capacidade de enfrentar suas organizações criminosas, menor será o espaço para interferências externas, pressões diplomáticas ou medidas econômicas que possam prejudicar empresas e trabalhadores brasileiros.

No fim das contas, Trump faz política pensando nos interesses dos Estados Unidos. Cabe ao Brasil fazer o mesmo. E isso significa combater o crime com firmeza, proteger a economia nacional e evitar que a imagem do país fique refém tanto das facções criminosas quanto das disputas geopolíticas internacionais.(Com Roiters).

Imagem/Metrópoles

Pedro Ribeiro

Jornalista há mais de 48 anos, com passagem pelos principais meios de comunicação do Paraná e autor de vários livros publicados.

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