A seleção invisível: o tabuleiro técnico da enfermagem e a busca pelo reconhecimento

Por Dilton Luis Soares de Farias

De quatro em quatro anos, o Brasil paralisa suas atividades para acompanhar a escalação daquele que considera o time perfeito. Discute-se a tática, técnica, liderança em campo e  importância crucial de cada posição para que o objetivo final seja alcançado. O país projeta nos gramados seus heróis e exige deles um desempenho de elite. No entanto, enquanto os holofotes se voltam para o espetáculo dos estádios, outra seleção de elite atua diariamente nos bastidores da vida, vestindo branco e enfrentando uma jornada exaustiva e contínua: a enfermagem.

Fazer saúde, assim como jogar futebol em alto nível, é uma arte puramente coletiva. No tabuleiro técnico de um hospital ou unidade de saúde, o enfermeiro atua como o verdadeiro organizador do jogo. É dele a responsabilidade de coordenar o cuidado, prever riscos, liderar equipes e garantir que o fluxo de atendimento funcione sem falhas. Se na Copa do Mundo um atacante só brilha se o meio-campo e a defesa sustentarem o rojão, no ecossistema da saúde os diagnósticos complexos e as grandes cirurgias só alcançam o sucesso porque a enfermagem garante a vigilância rigorosa, a administração precisa e o suporte por 24 horas ao paciente. Não existe protagonismo isolado quando o cenário é a preservação da vida.

O paradoxo, contudo, reside na celebração do desempenho. No esporte, o talento de elite é recompensado com aplausos calorosos, prêmios e, fundamentalmente, valorização financeira proporcional à sua importância. Na enfermagem, a lógica histórica tem sido outra. A categoria é amplamente aplaudida em momentos de crise e frequentemente romantizada sob os títulos de “heroínas” e “heróis”. Mas o romantismo esvazia-se rapidamente quando o assunto transita para a consolidação de direitos reais, como a aplicação efetiva e irrestrita do piso salarial e a garantia de jornadas de trabalho dignas.

Aplausos e títulos beneméritos não pagam contas, tampouco garantem a sustentabilidade do sistema de saúde. Uma equipe de ponta exige investimentos de ponta. Ignorar a necessidade de valorização estrutural da enfermagem é comprometer a segurança do próprio paciente e a eficiência da gestão pública. Trata-se de uma estratégia elementar de administração: para manter um sistema robusto e seguro, é preciso cuidar de quem cuida.

O apito final de cada grande competição esportiva consagra os vencedores e encerra a festa. Para a enfermagem, a partida não tem interrupção e o cronômetro nunca para. Diante disso, cabe a reflexão para toda a sociedade e gestores: até quando continuaremos exigindo um desempenho digno de Copa do Mundo de profissionais que ainda precisam lutar pelas condições mínimas para entrar em campo?

(*) Dilton Luis Soares de Farias é Enfermeiro, possui MBA em Processos e qualidade. Especialista em Gestão Hospitalar. Especialista em Qualidade e Segurança do Paciente. Mestre em Gestão e educação. Doutorando em Desenvolvimento Sustentável. Docente e RT de enfermagem da Uninter Polo Belém.

Pedro Ribeiro

Jornalista há mais de 48 anos, com passagem pelos principais meios de comunicação do Paraná e autor de vários livros publicados.

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