Por Marcos Pelozato – Com juros altos e bancos mais seletivos, o pedido de socorro à Justiça virou a principal alternativa para evitar a falência no campo.
O produtor rural brasileiro está trocando a negociação bancária pela proteção judicial. O agronegócio encerrou 2025 com recorde de 1.990 pedidos de recuperação judicial, segundo a Serasa Experian, um salto de 56,4% em relação a 2024. O avanço mostra que a deterioração financeira no campo já alcança um setor historicamente associado à força operacional e ao acesso ao crédito.
O aumento da recuperação judicial no agro reflete uma deterioração financeira construída ao longo de mais de uma safra. O produtor rural passou a conviver com crédito mais restrito, margens pressionadas, oscilações no preço das mercadorias e menor espaço para absorver erros financeiros.
A recuperação judicial deixou de ser vista apenas como medida extrema. Em muitos casos, ela passou a ser o instrumento necessário para preservar a operação, renegociar dívidas e impedir que uma crise financeira pontual destrua um negócio produtivo que continua viável.
A pressão sobre o campo também ganhou força com a deterioração das condições de financiamento rural e o aumento da inadimplência entre produtores. Entidades do setor vêm alertando para o avanço do endividamento, especialmente nas operações de crédito livre, justamente em um momento em que parte dos produtores ainda tenta recompor perdas acumuladas por fatores climáticos e alta dos custos de produção.
O movimento também chama atenção pelo perfil de quem passou a recorrer à recuperação judicial. Segundo a Serasa Experian, produtores rurais pessoas físicas lideraram os registros em 2025, com 853 pedidos. O dado mostra que a dificuldade financeira já não está restrita a grandes grupos agrícolas ou cooperativas, alcançando também produtores independentes que perderam capacidade de reorganização pelas vias tradicionais de negociação.
Muita gente ainda acredita que consegue atravessar a crise apenas alongando dívida ou esperando a próxima safra corrigir o caixa. Nem sempre isso acontece. Quando a deterioração financeira se acumula, a recuperação judicial deixa de ser uma escolha extrema e passa a ser uma medida de proteção do negócio.
O agro aprendeu que reagir tarde custa mais caro
Parte do agravamento acontece porque muitos produtores rurais adiam decisões estratégicas até o esgotamento da operação financeira. Quando a busca por uma reestruturação financeira acontece tarde, a margem para renegociação de dívidas diminui, a capacidade produtiva perde força e o custo da recuperação judicial no agronegócio cresce.
Existe uma resistência cultural no agro, como se a recuperação judicial representasse fracasso. Na prática, trata-se de um instrumento legal de reorganização financeira para produtores rurais e empresas do agronegócio. O problema é quando essa decisão só chega depois que o passivo já compromete toda a atividade.
Com a aproximação das discussões sobre crédito rural e financiamento para o setor, a tendência é que temas como recuperação judicial, gestão de crise, renegociação de passivos e reestruturação empresarial ganhem espaço definitivo dentro do agronegócio brasileiro. O produtor rural precisará incorporar a gestão financeira estratégica como parte da própria sustentabilidade do negócio.
O produtor rural precisa entender que preservar a operação também exige estratégia financeira. Esperar que a crise se aprofunde reduz alternativas, enfraquece a negociação com credores e aumenta o risco de destruição de valor em negócios que muitas vezes continuam economicamente viáveis.
(*) Marcos Pelozato é advogado, contador e empresário com atuação no setor de reestruturação empresarial e recuperação judicial.





