No IRG, quem está sendo pesquisado: o eleitor ou a opinião pública?

Uma pesquisa para mexer com os neurônios, inclusive de cientistas políticos

O Instituto IRG divulgou nesta segunda-feira (15) uma pesquisa para governador do Paraná. Registro TSE nº PR-07149/2026. Campo realizado entre os dias 10 e 13 de junho. Metodologia declarada: iniciativa própria.

Vamos ao que ela mostra. E ao que ela foi desenhada para fazer acreditar.

NO CENÁRIO REAL — SEM TRUQUES — O CAMPO ESTÁ ASSIM:

Sérgio Moro: 38,2%

Requião Filho: 18,6%

Sandro Alex: 14,4%

Rafael Greca: 11,7%

Moro lidera. Requião é segundo. Sandro e Greca disputam o terceiro lugar.

Até aqui, nada de extraordinário. É o que todas as pesquisas mostram há meses.

Aí vem o segundo cenário. E é aqui que o objetivo real da pesquisa aparece.

O CENÁRIO DOS PADRINHOS. OU: A TESE QUE QUEREM VENDER.

O IRG decidiu testar um segundo cenário. Nele, cada candidato aparece vinculado ao seu respectivo apoiador nacional:

Sérgio Moro — com Flávio Bolsonaro

Sandro Alex — com Ratinho Junior

Requião Filho — com Lula

Luiz França — com Renan Santos

Tony Garcia — com Aldo Rebelo

E Rafael Greca?

Não está.

O único candidato sem padrinho é o único candidato que some do cenário.

Isso não é uma escolha metodológica. É uma escolha política.

O QUE O CENÁRIO PRODUZ — E PARA QUE SERVE:

Com o nome de Ratinho Junior na pergunta, Sandro Alex salta de 14,4% para 27,5%. Quase dobra. Em uma única pergunta.

E é exatamente esse o número que o grupo governista vai circular nos próximos dias. Nas reuniaões com prefeitos. Nas conversas com financiadores. Nos bastidores das convenções.

A mensagem que querem transmitir é esta: Ratinho Junior tem poder de transferir voto. Quem ele apoiar vai ao segundo turno.

Mas isso é uma tese — não um fato. E a pesquisa foi desenhada para parecer que prova o que ainda precisa ser provado.

Porque Ratinho Junior tem 79,6% de aprovação no Paraná. Perguntar ao eleitor se ele votaria no candidato de Ratinho é diferente de perguntar se ele votaria em Sandro Alex. São perguntas distintas. Produzem resultados distintos. E quem desenhou o questionário sabia muito bem disso.

A ausencia de padrinho nominado a Rafael Greca foi calculada para produzir a assimetria dos resultados. Não é pesquisa. É engenharia de narrativa.

E O SEGUNDO TURNO?

O IRG testou dois cenários de segundo turno:

Moro × Requião: 55,4% × 31,2%

Moro × Sandro: 43,2% × 38,1%

Sabe qual cenário de segundo turno o IRG decidiu não testar?

Greca × Requião.

Exatamente o confronto mais relevante para quem está no terceiro lugar e disputa a vaga no segundo turno. O confronto que o Instituto Veritá testou em junho — e que mostrou Greca vencendo com 51,7% contra 48,3% de Requião.

O IRG não perguntou. Porque a resposta destruiria a narrativa que a pesquisa foi feita para construir.

O QUE A PESQUISA QUER FAZER ACREDITAR:

Que Ratinho Junior é a porta única do Palácio Iguaçu.

Que qualquer candidato que ele apoiar automaticamente vai ao segundo turno.

Que Sandro Alex é inevitável.

Que Rafael Greca não existe no campo real.

O problema é que nada disso está provado pelos dados reais.

Sem o nome de Ratinho na pergunta, Sandro Alex está em 14,4% no IRG e 10,7% no Paraná Pesquisas. Abaixo de Greca nos dois institutos com metodologia mais neutra. O crescimento de Sandro existe apenas quando a pergunta carrega o nome do governador. Sem esse atalho, ele está onde sempre esteve: atrás.

E a transferência de voto do Ratinho para o Sandro é uma aposta — não uma certeza. Aparentemente o Governador desprezando a inteligência do eleitor paranaense, acreditas que elege até mesmo um poste. Ledo engano. Governador popular ajuda. Mas não entra sozinho na urna no lugar do candidato.

OS DADOS QUE A PESQUISA OMITIU:

→ A menor rejeição do campo é de Greca — 5,5% no Veritá, 13,2% no Paraná Pesquisas.

→ No segundo turno contra Requião, Greca vence: 51,7% × 48,3%. O IRG não perguntou.

→ Greca é o terceiro colocado em todas as pesquisas disponíveis. Mas não aparece em nenhum cenário de segundo turno desta pesquisa.

→ A pesquisa de maio do IRG (PR-06178/2026) usou exatamente a mesma estrutura. Mesmo instituto. Mesmo cenário de padrinhos. Mesmo candidato excluído. Dois meses seguidos.

UMA ÚLTIMA PERGUNTA.

O IRG declarou esta pesquisa como “iniciativa própria”.

Os registros públicos do Tribunal Superior Eleitoral estão disponíveis para qualquer cidadão consultar. Os números estão na pesquisa. As perguntas que não foram feitas também dizem alguma coisa.

Na política, quando algo acontece uma vez, é coincidência.

Duas vezes, é padrão.

Três vezes, é estratégia.

Quem quiser verificar: TSE PR-07149/2026 (junho) e PR-06178/2026 (maio).

Pedro Ribeiro

Jornalista há mais de 48 anos, com passagem pelos principais meios de comunicação do Paraná e autor de vários livros publicados.

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