Além da despedida: como acolher e apoiar quem está vivendo o luto no contexto do câncer

Compreender o processo e oferecer suporte pode fazer a diferença para quem enfrenta a perda; Especialistas falam sobre empatia, escuta ativa e o tempo necessário para a cura emocional.

Perder uma pessoa querida é uma experiência que transforma a vida de quem fica. Quando essa perda está relacionada a uma doença como o câncer, o impacto emocional pode ser ainda mais profundo, já que o caminho até esse momento costuma ser repleto de sentimentos complexos e, muitas vezes, difíceis de nomear.

O luto não é uma etapa a ser “vencida” ou superada rapidamente. Trata-se de um processo único e pessoal, no qual cada pessoa sente, expressa e vivencia a dor de forma singular. “Não existe um jeito certo ou errado de sentir. A tristeza, o silêncio, a raiva, o medo ou até a culpa podem aparecer – e tudo isso é válido. O mais importante é que essas emoções sejam acolhidas, sem pressa e sem julgamentos”, explica Cristiane Bergerot, psico-oncologista e líder nacional de especialidade equipe multidisciplinar da Oncoclínicas.

Um caminho de acolhimento

O luto não começa apenas após a despedida física do familiar que estava doente. Ele pode surgir muito antes, ainda durante a trajetória de adoecimento, quando o paciente e sua família enfrentam perdas significativas: a perda de papéis familiares, da autonomia, da capacidade funcional, do trabalho ou da rotina. Esse luto, já instituído, acompanha a experiência da doença e merece reconhecimento e acolhimento.

“Diante de um diagnóstico de gravidade, o sofrimento não se limita à perspectiva de morte. Ele se manifesta em diversas formas de perda que afetam profundamente o paciente e os que o cercam. Acolher essas emoções ao longo da jornada pode evitar que esse sofrimento se intensifique”, explica Sarah Ananda, líder nacional da especialidade cuidados paliativos da Oncoclínicas.

Mais do que complementar o tratamento do câncer, os cuidados paliativos buscam minimizar o sofrimento e promover o respeito à pessoa em sua totalidade. “Nosso trabalho é cuidar com sensibilidade e humanidade, reconhecendo que o sofrimento não é apenas físico, mas também emocional, social e espiritual. Essa atenção integral prepara tanto o paciente quanto seus familiares para lidarem com as perdas de forma mais serena”, complementa Ananda.

O cuidado que transforma

Sentir-se acolhido é um alicerce essencial para quem atravessa o luto. “Muitas vezes, quem enfrenta uma perda se vê isolado – não por falta de carinho, mas porque as pessoas ao redor nem sempre sabem o que dizer ou como agir. Nesses momentos, a escuta atenta, o silêncio respeitoso e a presença genuína são gestos simples, mas profundamente reconfortantes”, explica Bergerot.

Sarah Ananda complementa ainda que o acolhimento vai além do apoio emocional imediato. “Ele ajuda a construir um espaço seguro onde a pessoa pode vivenciar suas emoções de forma autêntica e gradual”.

Família, amigos e profissionais da saúde desempenham um papel crucial na construção desse ambiente de empatia – um espaço onde sentimentos podem ser expressos livremente, sem medo de julgamento, e onde o suporte oferecido acolhe o corpo, a mente e o coração.

Como apoiar quem está vivendo o luto?

  • Esteja presente: às vezes, o simples ato de estar ao lado, sem precisar falar nada, já traz conforto.
  • Escute com atenção: permita que a pessoa fale sobre seus sentimentos e memórias, sem interromper ou julgar.
  • Respeite o tempo: cada pessoa tem seu ritmo para vivenciar o luto; não pressione para “superar” rapidamente.
  • Evite clichês: frases feitas podem minimizar a dor. Prefira expressões sinceras, como “Estou aqui para você.”
  • Ofereça ajuda concreta: pergunte se precisa de algo prático, como preparar refeições, acompanhar em consultas ou cuidar da casa.
  • Incentive o autocuidado: lembrar de cuidar da saúde física e emocional é importante, mesmo em momentos difíceis.
  • Busque apoio profissional: se o sofrimento for muito intenso ou prolongado, ajude a pessoa a encontrar psicólogos ou grupos de apoio especializados.

Pedro Ribeiro

Jornalista há mais de 48 anos, com passagem pelos principais meios de comunicação do Paraná e autor de vários livros publicados.

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