Por David Lopes, de Brasília
Nesta quinta-feira (18), o senador e candidato ao Governo do Estado, Sergio Moro, protagonizou mais uma cena hilária, um seja, uma derrapada vernacular no lançamento do programa de segurança pública “Brasil sem Medo” do pré-candidato a presidente Flávio Bolsonaro, em São Paulo. A participação consolidou a reaproximação política entre o ex-juiz e o clã bolsonarista. A incoerência política, evidentemente, é mais grave do que sua língua peculiar.
Por falar, na temporada eleitoral atual, políticos anódinos e insossos, ai incluímos o Zema, estão se esmerando na arte de produzir um linguajar que flerta com o popularesco, mas que prima pelo mau gosto.
I. A Invenção do “Neliente”
O senador Sérgio Moro, pré-candidato que lidera as pesquisas para o Palácio Iguaçu, acusou o governo Lula de ter sido “neliente” com o crime organizado nos últimos quatro anos. A afirmação é grave. Não a política de segurança pública do governo federal — essa, discute-se. O grave é que ninguém, em quatro séculos de língua portuguesa no Brasil, tinha conseguido ser “neliente” com coisa alguma. O senador quebrou um jejum histórico. Lexicógrafos da Academia Brasileira de Letras foram consultados às pressas. A palavra não existe — ou não existia. Existe agora. O Morismo tem dessas generosidades: enriquece o patrimônio imaterial da nação ao mesmo tempo que promete combater o crime. “Neliente”, para os que ainda não sabem, é o que resulta quando “leniente” é atacado pela mesma força misteriosa que transformou “cônjuge” em “conje” e “tigela” em “tijela”. Os filólogos chamam esse fenômeno de metátese. O senador chama de campanha.
II. O Idioma Muito Parecido com o Português
O ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal e adversário de longa data do ex-juiz de Curitiba, não resistiu. Em sessão solene no STF — uma daquelas cerimônias autocongratulatórias que o tribunal aprecia — Gilmar observou, com a brandura que lhe é característica, que o senador Moro fala e escreve um idioma “muito parecido com o português”. A boutade é precisa na crueldade. “Muito parecido com” é a expressão que se usa para um quadro de escola dominical perante um Velázquez. Para um pastel de forno de padaria perante um mil-folhas de confeitaria parisiense. Para o Morismo vernacular perante Machado de Assis. A defesa do senador reagiu. Disse que era preconceito linguístico. Gilmar não respondeu. Às vezes o silêncio também é muito parecido com um argumento.
III. O Arquivo Reinaldo Azevedo
O jornalista Reinaldo Azevedo, cujo prazer estético encontra consumação plena diante de um erro gramatical alheio, mantém sobre o senador Moro um arquivo que seria, em outros tempos, digno de museu. Consta do acervo: “conje” por cônjuge, “tijela” por tigela, “Edith Piá” por Édith Piaf, “Enen” por Enem, “exaṞcebada” — assim mesmo, com R maiúsculo no meio, como um monograma involuntário — e agora o inédito “neliente”. Azevedo registra cada ocorrência com o mesmo cuidado metodológico que o senador empregou, durante anos, na coleta de provas contra réus da Lava-Jato. A diferença é que as provas de Azevedo sobreviveram ao crivo do STF.
IV. O Novilíngua das Araucarês
Uma questão pedagógica se impõe, e o Paraná merece uma resposta antes de outubro: num eventual governo Moro no Palácio Iguaçu, as escolas públicas estaduais serão obrigadas a incorporar o Morismo ao currículo? A pergunta não é frívola. Se o padrão gramatical do chefe do Executivo estadual passa a ser a referência institucional, os professores de língua portuguesa terão de ensinar que “cônjuge” admite a variante “conje”, que “leniente” possui a forma afetiva “neliente”, que verbos como “vier” conjugam-se, no subjuntivo do Morismo, como “vim”. Orwell antecipou o Novilíngua em 1984 como instrumento de poder. Nunca imaginou que alguém o inventaria por distração.
V. O Curriculum Mortis da Língua
Há um paradoxo que merece contemplação serena: o senador Moro é doutor em direito pela Universidade Federal do Paraná, ex-juiz federal por mais de duas décadas, ex-ministro da Justiça, professor universitário — e nesse percurso luminoso, jalonado de títulos, sentenças e condenações históricas, nunca estabeleceu com a língua portuguesa uma relação que se pudesse chamar, nos termos do próprio candidato, de “não-neliente”. A Inculta e Bela, como Reinaldo Azevedo a chama com ternura machadiana, parece ter sido a única acusada que o ex-juiz nunca conseguiu processar. Ela segue solta, impune e, ao contrário do ex-presidente Lula, jamais foi conduzida coercitivamente a nenhum fórum gramatical.
VI. Nota de Pesar Lexicográfico
A palavra “neliente” nasceu e morreu no mesmo comício. Não deixou descendentes. Não figura no Houaiss, no Aurélio, no Michaelis, nem no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa. Seus únicos documentos de existência são os registros da imprensa paranaense e a memória de quem assistia, incrédulo, ao discurso. Ela faleceu como viveu: depressa, sem cerimônia e sem revisão. Em seu breve e intenso passage pelo léxico, “neliente” nos ensinou que há duas formas de combater o crime organizado: uma é com inteligência policial, legislação eficaz e cooperação institucional. A outra é inventando adjetivos. O senador Moro optou pela segunda. É mais rápido. E rima melhor com a campanha.





