A coragem tranquila de Cármen Lúcia: duas décadas de Supremo

Por Pedro SantaféMinistra é a terceira mulher em 135 anos da história da Corte.

Há palavras que resistem obstinadamente à tradução. No português, talvez a mais célebre delas seja saudade. Nenhuma língua consegue reproduzir integralmente a sua carga afetiva. O inglês também possui alguns desses vocábulos intraduzíveis. Um deles é o adjetivo feisty.

Dicionários costumam oferecer equivalentes como aguerrido, combativo, determinado ou cheio de personalidade, mas nenhum deles, isoladamente, dá conta de sua riqueza semântica. Feisty designa alguém que reúne energia e vivacidade, coragem e determinação, disposição para se impor e para retrucar quando necessário, sem levantar a voz; alguém que não se intimida diante da adversidade e, sobretudo, não leva desaforo para casa.

Ao completar vinte anos de atuação no Supremo Tribunal Federal neste domingo, 21 de junho, a ministra Cármen Lúcia é uma das personalidades da vida pública brasileira contemporânea que melhor encarna esse espírito.

Há outro aspecto curioso. Se feisty exprime uma virtude difícil de traduzir, existe um adjetivo da língua portuguesa que representa precisamente o seu oposto e que, este sim, jamais poderia ser associado à ministra: pretensiosa. Ao longo de sua permanência na Corte, Cármen Lúcia jamais cultivou a afetação, a vaidade performática ou a necessidade de transformar a autoridade em espetáculo. Sua autenticidade tornou-se uma de suas marcas mais reconhecíveis.

Sua presença discreta jamais significou timidez. Sua voz serena nunca foi sinônimo de hesitação. Ao contrário: sob a aparência contida, consolidou-se uma magistrada de convicções firmes, capaz de combinar elegança institucional, rigor intelectual e uma independência que frequentemente a levou a contrariar maiorias políticas, interesses circunstanciais e pressões externas.

Três mulheres em 135 anos

A dimensão histórica de sua presença merece ser lembrada. Em 2006, tornou-se apenas a segunda mulher a integrar o Supremo Tribunal Federal, sucedendo Ellen Gracie Northfleet — a pioneira que, em dezembro de 2000, abriu uma porta que, por mais de um século, permanecera fechada às mulheres.

Depois viria Rosa Weber, indicada pela presidente Dilma Rousseff em 2011 e que permaneceria na Corte até 2023. Seu papel institucional, sobretudo na defesa da democracia após os ataques golpistas de 8 de janeiro de 2023, merece igualmente ser lembrado.

Três mulheres em 135 anos. É um número que, pronunciado em voz alta, continua soando como uma acusação.

Há algumas semanas, vivi uma pequena cena intergeracional que diz muito sobre a importância desse legado. Levei minha filha Helena, de treze anos, para visitar o Museu do Supremo Tribunal Federal. Diante do painel que destaca as únicas três mulheres que, em toda a história da Corte, ocuparam uma cadeira naquele plenário — Ellen Gracie, Cármen Lúcia e Rosa Weber — ela ficou literalmente perplexa.

A reação foi espontânea e reveladora. Para uma adolescente nascida no século XXI, parecia inconcebível que, ao longo de 135 anos de história, apenas três mulheres tivessem alcançado aquela esfera de poder. Sua perplexidade expôs, ao mesmo tempo, a lentidão das transformações institucionais e a extraordinária relevância das pioneiras que ajudaram a torná-las possíveis.

A cena também convida a uma reflexão menos confortável. O Brasil permanece em evidente descompasso com países que avançaram mais rapidamente na ampliação da participação feminina nas estruturas de poder. No Congresso Nacional, as mulheres ocupam menos de um quinto das cadeiras parlamentares. Nos tribunais superiores, sua presença é um fenômeno recente e continua sendo minoritária.

O próprio Supremo oferece um retrato eloquente dessa realidade. Desde a aposentadoria de Rosa Weber, Cármen Lúcia tornou-se a única mulher entre os onze assentos do tribunal, um dos quais permanece vago desde outubro de 2025, com a aposentadoria do ministro Luís Roberto Barroso.

A vaga aberta é, ela mesma, uma oportunidade e uma cobrança: o Brasil precisa de uma quarta mulher na Corte. Não como gesto simbólico, mas como consequência natural de uma democracia que pretende representar adequadamente a pluralidade da sociedade brasileira.

A métrica invisível do poder

Há uma camada adicional dessa história que merece ser enfrentada. Mulheres que alcançam as altas esferas do poder raramente são avaliadas pelos mesmos critérios reservados aos homens. Sobre elas incide um escrútinio suplementar, uma métrica invisível e frequentemente injusta, que expõe as estruturas patriarcais ainda impregnadas no Estado brasileiro.

Exige-se delas uma espécie de equilíbrio impossível. Se demonstram firmeza, são consideradas difíceis; se exercem a autoridade com contundência, tornam-se excessivamente duras; se adotam a discrição como método, correm o risco de serem percebidas como apagadas. Aos homens, em geral, reservam-se adjetivos mais benevolentes: firmes, sóbrios, assertivos, experientes.

Mulheres que ocuparam posições de destaque na vida pública brasileira conhecem bem essa lógica. Em campos distintos e por trajetórias ideológicas diversas, figuras como Marta Suplicy, Dilma Rousseff, Marina Silva e Simone Tebet experimentaram, em diferentes momentos, a persistência dessa métrica desigual. A elas se exigiu mais; delas se tolerou menos.

Cármen Lúcia jamais esteve imune a esse fenômeno. Ao contrário. Soube utilizar a posição singular que ocupa na Suprema Corte para dar voz às mulheres e denunciar, com elegança e firmeza, a permanência desses mecanismos de exclusão.

Seu feisty não é uma reação temperamental ou excêntrica. Tampouco é um traço de personalidade isolado. É uma atitude de resistência, desafio e resposta intelectual a uma estrutura patriarcal que continua operando nas instituições brasileiras.

Não por acaso, certa vez formulou uma pergunta tão simples quanto devastadora: “Dá para ser só mulher?”

Em outra ocasião, desmontou uma narrativa histórica profundamente arraigada ao afirmar que as mulheres não foram silenciosas, mas silenciadas.

E talvez sua formulação mais contundente sobre igualdade de gênero no Supremo tenha sido também a mais simples. Perguntada sobre quando haveria igualdade entre homens e mulheres na Corte, respondeu: “No dia que tiver as onze mulheres.”

A frase, evidentemente, não constitui uma proposta literal de composição do tribunal. É um recurso pedagógico para evidenciar o quanto ainda naturalizamos a assimetria. Durante décadas, onze homens jamais causaram estranhamento. A presença de uma única mulher, porém, continua sendo percebida como suficiente para representar a diversidade da sociedade brasileira.

Autoridade sem estridência e sem pavonice

Há uma energia peculiar na atuação de Cármen Lúcia. Não se trata da exuberância performática de quem ocupa o espaço público pela estridência, mas da firmeza de quem compreende que a autoridade, sobretudo numa democracia, não se impõe pelo volume da voz, mas pela consistência dos argumentos. Quando necessário, a ministra retruca; quando provocada, responde; quando confrontada com ataques às instituições, não hesita em defendê-las. Sua coragem tranquila é, paradoxalmente, o seu traço mais ruidoso.

Num ambiente historicamente marcado por disputas de super-egos e protagonismo, sua trajetória demonstra que a firmeza também pode se manifestar por meio da sobriedade. E talvez resida justamente aí a singularidade de sua presença no Supremo: a capacidade de exercer a autoridade sem arrogância e a coragem sem teatralidade.

Essa constatação confere uma dimensão adicional à sua presença na Corte. Não se trata apenas de celebrar a permanência de uma magistrada na mais alta instância do Poder Judiciário. Trata-se de reconhecer que, em duas das quatro décadas transcorridas desde a redemocratização brasileira, uma mulher de voz serena, firmeza inabalável e independência intelectual ajudou a moldar a própria compreensão contemporânea do papel do Supremo Tribunal Federal.

Uma mulher que, segundo me contou Helena após a visita ao museu, a fez dizer que gostaria de ser juíza quando crescer.

E talvez esse seja o legado mais duradouro que uma servidora da República possa deixar. O verdadeiro legado de Cármen Lúcia é contribuir para que uma menina de treze anos considere anacrônico o fato de, em 135 anos de história, apenas três mulheres terem ocupado uma cadeira no Supremo Tribunal Federal.

A singularidade de Cármen Lúcia não reside no fato de ser a única mulher do Supremo, mas na forma como ocupou essa posição: transformando uma condição excepcional numa plataforma de defesa da normalidade democrática que ainda nos falta construir.

Celebrar os 20 anos de Cármen Lúcia no STF é, simultaneamente, celebrar sua notável contribuição para um importante avanço institucional e denunciar o quanto esse avanço ainda permanece incompleto e distante dos ideais republicanos de uma sociedade que se pretende moderna e democrática.

Que a quarta mulher a sentar naquele plenário chegue logo. E que Helena — assim como toda a sua geração — já não precise contar quantas mulheres ocupam uma cadeira no Supremo, porque a igualdade, enfim, terá deixado de ser exceção para se tornar princípio basilar da República.

Porque uma democracia madura não celebra a excepcionalidade da presença feminina na Corte Suprema; celebra o dia em que ela deixa, definitivamente, de ser singular.

(*) Pedro Santafé é jornalista e cientista político, com mais de três décadas de experiência em gestão pública.

Pedro Ribeiro

Jornalista há mais de 48 anos, com passagem pelos principais meios de comunicação do Paraná e autor de vários livros publicados.

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