Um pequeno livro pode ser uma grande obra?

Por Pedro Santafé –

A pergunta não é retórica. É a primeira que se coloca diante de O Livreiro de Gaza, do escritor marroquino Rachid Benzine — um opúsculo de pouco mais de cem páginas lançado no Brasil pela Intrínseca em março de 2026, traduzido por Sofia Soter a partir do original francês L’homme qui lisait des livres, publicado em 2025 pela Éditions Julliard. Um homem que lia livros: título mais preciso, mais despretensioso, mais fiel ao que o livro realmente é. A versão brasileira optou pelo dramático. O original escolheu o essencial.

Benzine não é estreante nem desconhecido. Nascido em Kenitra, Marrocos, em 1971, é cientista político e estudioso do islã, condecorado com a Ordem Nacional do Mérito na França e no Marrocos, e vencedor do Grand Prix du Roman Métis em 2024. Sabe o que faz. E o que faz aqui é deliberado: diante de uma tragédia de proporções inimagináveis, escolhe a contenção. Recusa o grito. Aposta numa única voz, numa única livraria improvavelmente aberta em meio aos escombros de Gaza. A brevidade não é limitação — é escolha estética e ética. O excesso de páginas seria uma espécie de obscenidade diante do tema. A contenção é a forma.

O dispositivo narrativo é elegante. Um repórter fotográfico a serviço de mídias ocidentais chamado Julien percorre o teatro da guerra unilateral que reduziu a maior parte de Gaza a ruínas, sob as quais jazem corpos destroçados, em busca de imagens que capturem recortes da devastação perpetrada pelos bombardeios israelenses. Deparar-se com a livraria empoeirada de Nabil tem o mesmo impacto de encontrar um oásis em pleno deserto. A foto que Julien pretendia fazer do livreiro ancião sentado à porta da sua tenda de livros enquadrava-se perfeitamente ao olhar seletivo ocidental que prefere enxergar uma fresta de normalidade em meio a uma cidade completamente devastada. O clique da câmera, no entanto, foi interrompido em tempo pelo estranho personagem, que impôs uma única condição ao repórter fotográfico: ouvir antes sua história. Conhecer primeiro o que levou àquele instantâneo aparentemente banal. É quase uma alegoria da própria literatura — o retrato só faz sentido se soubermos o que há por trás dele.

A leitura de O Livreiro de Gaza suscita, neste ponto, uma reflexão incontornável. Entre Nabil e Julien não se estabelece uma relação dialógica. Muito pelo contrário. Julien é o ouvinte passivo de um relato que soa como monólogo — e creio que tenha sido esta uma escolha não apenas consciente, mas provocativa do autor. Pois torna ainda mais incômoda a crítica subjacente: não há ninguém disposto a ouvir o testemunho do flagelo do povo palestino — desde o colonialismo britânico, passando pela Nakba na constituição do Estado de Israel, até o confinamento sistemático que se seguiu. O clamor de um povo oprimido que tem sido sistematicamente ignorado. Julien não tem rosto nem identidade. É a personificação do Ocidente: presente, passivo e mudo.

O que Julien ouve — e o que o leitor recebe — não é o que esperamos.

Esperamos a acusação, a amargura, o ódio justificado. Mas o relato de Nabil começa muito antes do presente. Começa na primeira infância, na expulsão durante a Nakba, no desterro forçado da família e de seu povo, no confinamento em assentamentos, no paradoxo cruel de tornar-se refugiado na própria terra. Passa pela luta cotidiana pela sobrevivência, pela esperança do pai de um dia retornar à terra dos antepassados — esperança que ele levará ao túmulo sem ver realizada. Pela juventude que vai estudar no Cairo carregando o peso de um povo sem Estado. Pelo trauma do irmão mais velho morto por soldados israelenses. Pelo lento apagamento da esperança de libertação, Oslo que promete e não cumpre, cada aceno de paz que se fecha como uma porta. É na prisão — quase duas décadas de cárcere israelense — que a literatura se torna para Nabil uma tábua de salvação. Os livros que ele lê e relê na cela são o único território que nenhuma ocupação consegue confiscar, a única pátria que permanece intacta enquanto tudo o mais é sistematicamente destruído.

Mas a vida de sua geração, e das que se sucederam, provaria que para os palestinos sob o jugo da dominação imposta pelo Estado de Israel — com a cumplicidade ativa do Ocidente — não há salvação nem no estudo que seu pai tanto incentivou nem nos livros que o mantêm vivo. Sobre tudo isso, a morte do filho de onze anos, atravessado por uma bala, cai como mais um golpe brutal numa vida que já conhecia o insuportável. E ainda virá a perda de Hiram, a esposa soterrada sob os escombros de um bombardeio.

Cada uma dessas perdas seria suficiente para desumanizar um homem — para transformá-lo naquilo que seus algozes talvez desejassem: um símbolo do ódio, uma justificativa para mais violência. Nabil não lhes deu essa satisfação. E este é o seu triunfo — e o de Benzine.

O que o velho livreiro encarna não é resignação nem santidade. É algo mais difícil e mais raro: a teimosia do senso de humanidade em meio à barbárie. A insistência em permanecer inteiro quando tudo conspira para fragmentar. Os livros que ele vende e que lê não são fuga — são o instrumento preciso dessa resistência, e uma resposta implícita a certo cinismo que pergunta ‘para que servem os livros?’ diante do horror concreto. Ler em meio às ruínas não é escapismo: é habitação plena da realidade.

Mas o que torna O Livreiro de Gaza literariamente mais ambicioso do que um simples romance de denúncia é outra coisa: a memória de Nabil. Ela não começa em outubro de 2023. Não começa sequer na última guerra, nem na penúltima. A memória de Nabil é intergeracional, estratigráfica, arqueológica. Desce camada por camada até a Nakba de 1948 — a Grande Catástrofe que expulsou cerca de 750 mil palestinos de suas terras na mesma data em que o Estado de Israel era proclamado. Passa pelos campos de refugiados, pelas guerras e massacres subsequentes, pelo breve lampejo de esperança e subsequente fracasso dos Acordos de Oslo, pelas intifadas, pelas sucessivas punições coletivas impostas por Israel a uma população civil sitiada, até o armagedom dos últimos três anos. Para Nabil, outubro de 2023 não é ruptura: é confirmação. Mais uma camada de um solo que nunca parou de soterrar os seus.

Benzine recusa assim a armadilha do presentismo — esse vício do tempo midiático que trata cada nova catástrofe palestina como se fosse a primeira, como se não houvesse um fio que costura décadas de desterro e apagamento. O livro cabe nas mãos, mas o tempo que ele abarca não cabe em lugar nenhum.

A tradução de Sofia Soter preserva essa cadência grave e contida. A passagem da quarta capa dá a medida: ‘Um velho livreiro ainda agarrado aos livros, que lê a apenas alguns passos das ruínas.’ Há qualquer coisa de salmo nessa frase — a obstinação de quem sabe que as palavras são a única morada que não se pode bombardear.

Então: um pequeno livro pode ser uma grande obra?

Pode — quando a contenção é escolha, não limitação. Quando cada página carrega o peso do que não foi dito. Quando um único personagem, construído com precisão e profunda humanidade, diz mais sobre um povo e sua história do que mil páginas de denúncia. O Livreiro de Gaza incomoda exatamente por isso: não nos oferece a catarse fácil do horror explícito. Nos deixa com Nabil — vivo, inteiro, lendo — e com a pergunta incômoda sobre o que nós, do lado de fora, fizemos com nossa própria humanidade enquanto ele perdia tudo e não perdia a sua.

Vale a pena lê-lo? Mais do que isso: é necessário.

(*) Pedro Santafé é cronista e ensaísta.

Pedro Ribeiro

Jornalista há mais de 48 anos, com passagem pelos principais meios de comunicação do Paraná e autor de vários livros publicados.

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