Robô não opera sozinho: especialista explica quando a cirurgia robótica realmente faz diferença

Cirurgião Alessandro Mariani explica que a tecnologia amplia a precisão em casos complexos, mas não substitui indicação correta, equipe experiente e avaliação individualizada.

A cirurgia robótica deixou de ser uma promessa futurista e passou a fazer parte da realidade de diferentes especialidades médicas. No entanto, em meio ao avanço da tecnologia nos centros cirúrgicos, uma pergunta se torna cada vez mais importante: quando o robô realmente faz diferença e quando ele não é necessário?

Na cirurgia torácica, essa discussão ganhou força junto com o avanço das abordagens minimamente invasivas. Em 2025, uma diretriz publicada pelo CHEST (associação profissional dedicada à inovação na medicina torácica) recomendou a cirurgia minimamente invasiva em vez da toracotomia para pacientes com câncer de pulmão de células não pequenas em estágio I, quando há indicação cirúrgica. Isso não significa, porém, que todo caso deva ser robótico.

De acordo com o cirurgião torácico Dr. Alessandro Mariani, Professor Doutor de Cirurgia Torácica da FMUSP e Preceptor de Cirurgia Torácica Robótica, a resposta depende menos da tecnologia em si e mais da indicação médica, da complexidade do caso e da experiência da equipe.

“A pergunta correta não é se a cirurgia robótica é melhor. A pergunta correta é: para este paciente, neste caso, ela oferece uma vantagem real?”, afirma Mariani.

Na cirurgia robótica, o equipamento não atua de forma autônoma. O cirurgião comanda os movimentos a partir de um console, com visão tridimensional, imagem ampliada, instrumentos articulados e alta precisão. Na cirurgia torácica, esses recursos podem ser úteis em procedimentos delicados, em regiões de difícil acesso ou próximos a vasos, brônquios e nervos.“O robô não opera sozinho. Ele é uma ferramenta sofisticada nas mãos do cirurgião”, comenta Mariani.

Segundo o especialista, a robótica pode ajudar a manter uma abordagem minimamente invasiva em casos que, em outros contextos, poderiam exigir incisões maiores. “A cirurgia robótica faz mais sentido quando ajuda a preservar a lógica minimamente invasiva em casos complexos. Em algumas situações, ela amplia a capacidade técnica do cirurgião, porque oferece melhor visão, mais liberdade de movimento e maior precisão”, afirma.

Um exemplo recente veio do Peru. Em junho deste ano, o Instituto Nacional de Enfermedades Neoplásicas (INEN) divulgou a realização da primeira cirurgia torácica robótica complexa do país em uma paciente com tumor carcinoide bronquial que comprometia estruturas centrais do pulmão esquerdo. A abordagem permitiu retirar o tumor, preservar parte do pulmão e evitar uma pneumonectomia, cirurgia que envolve a retirada total do órgão.

O procedimento, conhecido como ressecção em manguito ou sleeve resection, exige reconstrução brônquica delicada e é considerado uma das intervenções mais complexas da cirurgia torácica oncológica.

“Esse é o tipo de situação em que a robótica pode fazer diferença: não porque o robô substitui o cirurgião, mas porque a tecnologia pode oferecer melhor visão, instrumentos articulados e precisão em uma reconstrução extremamente delicada. Em alguns casos, isso pode ajudar a preservar a função pulmonar e evitar uma cirurgia mais mutiladora”, explica Mariani.

Isso não significa, no entanto, que toda cirurgia deva ser robótica. Em muitos casos, técnicas como a videotoracoscopia, também conhecida como VATS, podem oferecer resultados seguros e adequados. Em outros, a cirurgia aberta continua sendo a melhor alternativa.

A literatura científica reforça essa leitura mais equilibrada. Um estudo publicado em 2025, comparando lobectomias robóticas e videotoracoscópicas para câncer de pulmão, apontou desfechos de longo prazo comparáveis entre as duas técnicas. Ao mesmo tempo, observou diferenças perioperatórias, como menor perda sanguínea e menor taxa de conversão para toracotomia no grupo submetido à cirurgia robótica, além de maior tempo operatório.

“Em alguns cenários, uma videotoracoscopia bem indicada pode entregar um resultado equivalente. Em outros, a robótica pode trazer vantagens técnicas importantes. E há casos em que a cirurgia aberta ainda é necessária. O mais importante é entender que a técnica deve ser escolhida em função do paciente, e não do apelo tecnológico”, reforça.

Para Mariani, tecnologia em cirurgia não deve ser usada como argumento comercial, mas como ferramenta quando muda a segurança, a precisão ou a qualidade da operação. A experiência do cirurgião também é decisiva: a cirurgia robótica exige treinamento específico, curva de aprendizado e familiaridade com a plataforma.

Com mais de 700 procedimentos robóticos realizados e experiência na formação de mais de 20 cirurgiões, Mariani defende que a robótica seja tratada como ferramenta de precisão, não como solução automática.

“O paciente não precisa dominar detalhes técnicos, mas tem o direito de fazer perguntas simples e importantes: por que essa técnica está sendo indicada para mim? O que muda no meu caso? Quais são as alternativas? Qual é a experiência da equipe?”, orienta.

Quando a cirurgia robótica pode fazer sentido

A cirurgia robótica pode ser considerada quando existe uma vantagem técnica concreta para aquele paciente e para aquele procedimento. Na cirurgia torácica, isso pode ocorrer especialmente em situações como:

  • procedimentos que exigem dissecção delicada em regiões profundas ou de difícil acesso;
  • cirurgias próximas a estruturas nobres, como vasos, brônquios e nervos;
  • casos em que a visão tridimensional, a ampliação da imagem e os instrumentos articulados podem facilitar movimentos precisos;
  • cirurgias oncológicas em que a retirada de linfonodos faz parte do planejamento;
  • tumores do mediastino e cirurgias do timo, em casos selecionados;
  • ressecções pulmonares anatômicas, como lobectomias e segmentectomias, quando a avaliação favorece uma abordagem minimamente invasiva;
  • procedimentos complexos, como algumas ressecções em manguito, desde que realizados por equipe experiente e em ambiente hospitalar adequado;
  • situações em que a robótica pode ajudar a manter uma abordagem minimamente invasiva, reduzindo a necessidade de uma cirurgia aberta.

Quando a cirurgia robótica pode não ser necessária

A cirurgia robótica pode não ser a melhor escolha quando:

  • outra técnica minimamente invasiva, como a videotoracoscopia, oferece resultado adequado para aquele caso;
  • o caso exige cirurgia aberta por segurança, extensão da doença, invasão de estruturas ou outras características técnicas;
  • o benefício esperado não justifica o custo ou a complexidade adicional;
  • não há equipe treinada ou estrutura hospitalar adequada;
  • a escolha da técnica está sendo guiada mais pelo apelo tecnológico do que pela necessidade clínica.

“Em cirurgia, a melhor técnica não é a mais moderna em termos absolutos. É a mais adequada para o paciente, para a doença e para o objetivo do tratamento”, finaliza Mariani.

(*) Dr. Alessandro Mariani é cirurgião torácico, Professor de Cirurgia Torácica da FMUSP, Doutor em Cirurgia Torácica, Preceptor de Cirurgia Torácica Robótica e coordenador da Cirurgia Torácica no Instituto Central do Hospital das Clínicas da FMUSP. Foi criador e coordenador do grupo de estudo em infecções pulmonares da European Society of Thoracic Surgeons, primeiro chairperson do grupo de estudo de cirurgia torácica da WAIDID, professor convidado no Einstein College of Medicine, em Nova York, além de criar e coordenar por quatro anos a pós-graduação em Cirurgia Torácica Robótica do Hospital Israelita Albert Einstein.

Pedro Ribeiro

Jornalista há mais de 48 anos, com passagem pelos principais meios de comunicação do Paraná e autor de vários livros publicados.

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