Grupo negocia R$ 1 bilhão para recompor estoques e sustentar a operação até 2027, após fechar 298 lojas e registrar prejuízo ajustado de R$ 978 milhões.
O retorno do Grupo Casas Bahia à Justiça ocorre apenas dois anos após a homologação de uma recuperação extrajudicial que reestruturou R$ 4,8 bilhões, agora com um pedido de recuperação judicial, R$ 17,3 bilhões em dívidas e um balanço que reduziu drasticamente sua margem de manobra. Desse total, R$ 16,4 bilhões, ou 94,8%, estão nas mãos de credores sem garantia. A varejista também encerrou o 2º trimestre de 2026 com prejuízo contábil de R$ 10,1 bilhões, dos quais R$ 9,1 bilhões decorreram de efeitos não recorrentes, e patrimônio líquido negativo em R$ 8,1 bilhões. Mesmo desconsiderando esses efeitos extraordinários, a perda ajustada chegou a R$ 978 milhões.
Com valor de mercado próximo de R$ 660 milhões na manhã do pedido, a dívida declarada correspondia a aproximadamente 26 vezes o valor da companhia na Bolsa. A recuperação judicial interrompe a corrida dos credores e abre espaço para renegociar o passivo, mas não recompõe vendas, margens, caixa ou competitividade. Se a reestruturação não devolver rentabilidade e liquidez ao negócio, a Casas Bahia continuará espremida entre dois desfechos: uma venda por meio de M&A ou a falência.
O problema é que a proteção judicial atua sobre a dívida, não sobre as causas que levaram a Casas Bahia novamente à Justiça. Na avaliação de Matheus Matos, sócio da MA7 Capital, a crise reúne 3 fragilidades estruturais. A 1ª está na gestão: a sucessão da família Klein e as posteriores mudanças de controle não produziram continuidade estratégica suficiente para adaptar o negócio. A 2ª vem dos juros. Com a Selic em 14%, a companhia paga mais para financiar estoques e capital de giro, enquanto o consumidor de menor renda perde capacidade de comprar móveis e eletrodomésticos parcelados. A 3ª está no atraso do modelo diante do comércio digital.
Mesmo após investimentos em tecnologia, a varejista não conseguiu acompanhar, na mesma velocidade, a expansão de plataformas como a Amazon e a mudança na forma de comprar do brasileiro. A recuperação judicial pode alongar dívidas e aliviar o caixa, mas não corrige sozinha essas 3 frentes. “Estão ganhando tempo. Na minha opinião, o modelo de negócio deles é só ganho de tempo”, afirma Matos.
Uma das principais tentativas de ganhar esse tempo será a captação de cerca de R$ 1 bilhão por meio de um DIP Finance, negociado com Banco do Brasil, Bradesco e outros credores. O valor corresponde a aproximadamente 5,8% da dívida declarada, embora sua finalidade não seja liquidar o passivo, mas financiar a operação durante a recuperação judicial. A urgência aparece nos estoques: o volume de mercadorias caiu mais de 20% no 2º trimestre, enquanto o prazo médio de disponibilidade recuou de 95 para 75 dias, reduzindo a capacidade de abastecer lojas e canais digitais.
O dinheiro novo pode recompor produtos, preservar fornecedores e impedir que a falta de mercadoria acelere a queda das vendas. Ainda assim, o DIP funciona como uma ponte, não como garantia de sobrevivência. Se os recursos apenas mantiverem a operação aberta, sem devolver geração recorrente de caixa e rentabilidade, a companhia chegará ao fim dessa ponte com o mesmo problema estrutural e com menos alternativas fora de uma venda ou da falência.
Para Matos, o período de proteção será decisivo porque a companhia precisará transformar o alívio financeiro em uma mudança estrutural do negócio. “A recuperação judicial pode dar fôlego, alongar dívidas e impedir uma paralisação imediata, mas não salva, por si só, um modelo que perdeu competitividade. A Casas Bahia precisa usar esse tempo para modernizar a gestão, fortalecer a operação digital, recuperar margens e voltar a gerar caixa.
Se essa transformação não acontecer com rapidez, a empresa continuará perdendo espaço para concorrentes e chegará ao fim do processo valendo menos. Nesse cenário, os caminhos mais prováveis serão a venda para um concorrente ou investidor por meio de um M&A ou, se não houver um comprador e um plano economicamente viável, a falência”, conclui.



