Quando o médico deve se aposentar?

Por Luiz Antônio da Silva Sá –

Completo 50 anos de formado neste ano. Ao longo desse meio século, foram muitas horas de trabalho, estudo, aprendizado e, sobretudo, de ensinamentos compartilhados com pacientes, alunos e colegas.

Para comemorar essa trajetória, haverá, no mês de outubro, algumas solenidades e encontros com colegas de faculdades de medicina do Paraná, todos formados há meio século.

Certamente, encontrarei colegas bem-sucedidos financeiramente e outros nem tanto; alguns vivendo com grande abundância, enquanto outros enfrentam maiores dificuldades. Haverá aqueles que construíram casamentos estáveis e outros que vivenciaram histórias de separações complexas e dolorosas.

Alguns estarão gozando de boa saúde; outros, mais alquebrados pelo tempo, carregarão no corpo e no rosto os sinais de uma vida que deixou suas marcas, expressas nas calvícies, nas rugas e nos inevitáveis sinais do envelhecimento.

Alguns poderão parecer irreconhecíveis; outros conservarão ares surpreendentemente joviais. Em cada um, estarão refletidos, de alguma maneira, os efeitos da genética, da epigenética e dos hábitos de vida sobre o processo de envelhecimento.

Todos terão idade próxima de 75 anos e cada um trará no rosto e no corpo a marca indelével de cinco décadas vividas desde a formatura.

Mas haverá um fator comum entre nós.

Mesmo depois de tantos anos de formados, muitos continuam, em maior ou menor intensidade, exercendo a medicina.

E surge, então, uma pergunta inevitável: por que, enquanto profissionais de outras áreas se aposentam depois de 25, 30 ou 35 anos de atividade, o médico, mesmo quando já dispõe de algum tipo de aposentadoria, frequentemente não estabelece um prazo definido para deixar de trabalhar, permanecendo profissionalmente ativo até uma idade avançada?

Quais seriam, afinal, as razões para essa aposentadoria tão tardia?

Falando por mim — e acredito que também por muitos colegas —, existem diversas razões.

Ser médico não significa apenas exercer uma profissão. Para muitos, a medicina constitui uma parte profunda da própria identidade.

A longevidade profissional do médico está relacionada a fatores que ultrapassam a necessidade financeira. Depois de décadas de estudo, responsabilidade e dedicação, abandonar o consultório, os pacientes e a rotina profissional pode significar muito mais do que deixar um trabalho. Pode representar a perda de vínculos, de reconhecimento, de sentido de utilidade e, acima de tudo, de uma parte importante de si mesmo.

A própria natureza da medicina permite uma transição gradual. O profissional pode reduzir a jornada de trabalho, diminuir os plantões, dedicar-se mais às consultas, as instituições ou transferir sua experiência para o ensino, a pesquisa e a formação de novas gerações de médicos.

Além disso, o conhecimento acumulado ao longo de décadas constitui um patrimônio profissional de grande valor, especialmente diante de situações clínicas complexas, nas quais a experiência pode fazer diferença.

Questões financeiras também podem influenciar essa decisão, sobretudo quando a aposentadoria não garante a manutenção do padrão de vida desejado. Entretanto, talvez o aspecto mais delicado seja o emocional: aposentar-se não significa necessariamente estar preparado para deixar de ser médico.

Há, ainda, um desafio particularmente importante: reconhecer os próprios limites.

Acostumado a cuidar dos outros, o médico pode ter dificuldade em admitir as mudanças naturais relacionadas ao envelhecimento — alterações da visão, da audição, da memória, da velocidade de raciocínio, da destreza manual ou da resistência física.

Por isso, não existe uma idade universal para o médico deixar de trabalhar. A continuidade do exercício profissional deve estar fundamentada, sobretudo, na competência, na autonomia e na segurança para o desempenho de suas atividades.

A idade cronológica, isoladamente, não determina a capacidade profissional. Um médico mais velho pode permanecer plenamente apto para determinadas funções, enquanto outro, mais jovem, pode necessitar reduzir ou até interromper sua atividade.

No meu caso particular, enquanto Deus me conceder força, capacidade cognitiva e condições para exercer a profissão — ainda que em menor intensidade do que no passado —, não penso em parar de trabalhar.

Depois de tantos anos de estudo, dedicação e experiência, sinto-me ainda em condições de continuar exercendo a medicina e, principalmente, de continuar encontrando nela um sentido para minha vida.

Talvez, portanto, mais importante do que perguntar “quando o médico deve se aposentar?” seja perguntar:

“Até quando ele pode exercer a medicina com competência, segurança e dignidade?”

Essa, talvez, seja a verdadeira questão.

(*) Dr. Luiz Antônio da Silva Sá é especialista em Clínica Médica, Geriatria, Gerontologia e professor da Faculdade Evangélica Mackenzie do Paraná (FEMPAR).

Pedro Ribeiro

Jornalista há mais de 48 anos, com passagem pelos principais meios de comunicação do Paraná e autor de vários livros publicados.

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