Protagonismo feminino na enfermagem brasileira e os desafios estruturais da profissão

Por Sara Xavier – Dia Internacional dos Enfermeiros e Enfermeiras é comemorado em 12 de maio.

Falar de enfermagem no Brasil é, essencialmente, falar de mulheres. Elas representam cerca de 85% da categoria, segundo o Conselho Federal de Enfermagem. Para muitas profissionais, a atuação é uma escolha movida pela vontade de impactar vidas nos momentos mais vulneráveis. Ao longo da trajetória profissional, muitas enfermeiras ampliam o olhar para além do cuidado assistencial e passam a atuar também na transformação de estruturas. 

Essa história de protagonismo tem raízes profundas. No cenário internacional, Florence Nightingale lançou as bases da enfermagem moderna ao organizar o cuidado e defender condições mais dignas nos hospitais, com destaque para a participação da Guerra da Crimeia (1854) e fundação da primeira Escola de Enfermagem da Inglaterra. No Brasil, Anna Nery tornou-se símbolo de coragem e dedicação ao atuar como voluntária na Guerra do Paraguai (1864-1870), sendo reconhecida como fundadora e patrona da enfermagem brasileira. Ambas pavimentaram o caminho para gerações de mulheres que, até hoje, sustentam e reinventam a profissão.

Mesmo em maioria, muito do trabalho das enfermeiras permanece invisível. Pouco se fala sobre o raciocínio clínico constante por trás de cada decisão, sobre a vigilância contínua que identifica alterações antes que se tornem emergências ou sobre a gestão de riscos que acontece nos bastidores. A enfermagem organiza fluxos, lidera equipes e sustenta tecnicamente a segurança do paciente. Essa responsabilidade silenciosa é um dos pilares do sistema de saúde.

Também não se veem as ausências e os impactos pessoais. A mãe que troca uma data importante por um plantão; a profissional que, mesmo emocionalmente abalada por situações difíceis, mantém uma postura firme para transmitir confiança; a mulher que encerra uma jornada intensa e inicia outra em casa. Existe uma entrega emocional profunda na enfermagem, ao lidar diariamente com dor, medo, urgência e expectativa.

Quando se fala em valorização, os desafios estruturais ainda são evidentes. A assistência funciona 24 horas por dia, o que demanda escalas extensas e alta disponibilidade deste profissional. Esse modelo exige planejamento, organização e políticas que equilibrem qualidade assistencial e bem-estar da equipe. 

A enfermagem atua diretamente na segurança do paciente e na gestão do cuidado e de pessoas, e esse impacto precisa estar refletido em políticas de desenvolvimento e valorização. O ambiente assistencial envolve pressão, decisões rápidas e contato frequente com situações sensíveis, por isso, estratégias institucionais voltadas ao cuidado do cuidador tornam-se cada vez mais necessárias. 

A educação continuada é outro eixo fundamental, já que a enfermagem evoluiu cientificamente e tecnicamente, e a qualificação permanente fortalece tanto o profissional quanto o sistema de saúde. 

Sob a perspectiva de gênero, é importante reconhecer que a enfermagem, por ser majoritariamente feminina, carrega reflexos históricos da forma como o trabalho de cuidado foi percebido socialmente. Ao mesmo tempo, há um movimento crescente de mulheres ocupando espaços de liderança, ampliando voz, influência e participação estratégica na saúde. 

Cuidar também é liderar, além de ser um compromisso ético com a vida. E, por trás de cada profissional de enfermagem, existe uma mulher forte, preparada e resiliente, que não apenas cuida, mas transforma vidas todos os dias.

Na Clicknurse, buscamos dar mais previsibilidade, transparência e organização no dia a dia das enfermeiras. Estruturamos critérios técnicos claros, valorizamos a qualificação profissional e utilizamos tecnologia para tornar a jornada mais segura e estruturada. Porque dar visibilidade e organização ao trabalho da enfermagem também é uma forma concreta de valorização.

(*) Sara Xavier é diretora de Enfermagem da Clicknurse. É Mestra em Ciências pela USP e especialista em Cardiopneumologia de Alta Complexidade pela Escola de Enfermagem da USP.

Pedro Ribeiro

Jornalista há mais de 48 anos, com passagem pelos principais meios de comunicação do Paraná e autor de vários livros publicados.

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