Um mês de guerra: os efeitos sobre a ordem internacional e a economia global

Por João Alfredo Nyegray

Um mês após o início dos ataques conduzidos por Estados Unidos e Israel contra o Irã, o cenário internacional revela um conflito que evoluiu muito além das expectativas iniciais. O que se observa neste primeiro mês de guerra é a rápida transição de uma operação militar pontual para um confronto com efeitos sistêmicos.

A reação do Irã foi amplamente subestimada por analistas e formuladores de política. Havia uma expectativa de que o Irã teria uma resposta limitada ou enfrentaria instabilidade interna. O que vimos foi o oposto: uma resposta coordenada, com uso intensivo de mísseis, drones e ativação de aliados regionais, ampliando o conflito e elevando o custo estratégico para seus adversários.

Esse comportamento revela uma lógica central do equilíbrio de poder: mesmo atores com menor capacidade militar convencional podem compensar essa assimetria por meio de estratégias indiretas. O Irã demonstrou capacidade de transformar vulnerabilidade em poder de pressão. Isso altera o cálculo estratégico de Estados Unidos e Israel.

No plano geopolítico mais amplo, é preciso chamar a atenção para a atuação de Rússia e China. Embora não participem diretamente do conflito, ambos os países desempenham um papel relevante ao limitar o isolamento do Irã e reforçar a dinâmica de um sistema internacional cada vez mais multipolar.

A guerra evidencia que grandes potências não estão dispostas a permitir que uma única potência defina os resultados de crises regionais. Rússia e China operam como contrapesos indiretos, ainda que de formas distintas — Moscou mais alinhada politicamente e Pequim mais pragmática, sobretudo em função de seus interesses energéticos.

Os efeitos econômicos da guerra já se fazem sentir de maneira significativa. O petróleo voltou a ultrapassar os US$ 100 por barril, impulsionado tanto por riscos à oferta quanto pelo aumento do prêmio geopolítico. A instabilidade no Estreito de Ormuz — responsável por cerca de 20% do fluxo energético global —, intensifica as preocupações com abastecimento e logística.

O impacto vai muito além do preço do combustível. Trata-se de um choque que se espalha por cadeias produtivas inteiras, afetando transporte, alimentos, indústria e inflação global. É a geopolítica entrando de forma direta no custo de vida.

Nesse contexto, o Brasil apresenta uma posição relativamente diferenciada. Nyegray destaca que a estrutura consolidada de biocombustíveis no país atua como um amortecedor parcial. O Brasil construiu, ao longo de décadas, uma matriz energética mais diversificada. O etanol e o biodiesel reduzem a dependência direta do petróleo e suavizam o impacto no consumidor.

Ainda assim, fica o alerta para limites dessa vantagem. Os biocombustíveis não eliminam o problema. O diesel continua sendo um ponto de vulnerabilidade, e o país segue exposto ao aumento de custos logísticos e à inflação global. O que o Brasil tem é uma vantagem relativa, não uma blindagem.

O primeiro mês de guerra já deixa claro que o conflito transcende o campo militar. Estamos diante de um episódio que revela as transformações da ordem internacional. Energia, segurança e poder continuam profundamente interligados, e as empresas e governos que não incorporarem essa dimensão geopolítica em suas decisões estarão cada vez mais expostos a riscos.

(*) Prof. Dr. João Alfredo Nyegray. Professor dos cursos de Negócios Internacionais e Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR).

Pedro Ribeiro

Jornalista há mais de 48 anos, com passagem pelos principais meios de comunicação do Paraná e autor de vários livros publicados.

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