A Pirâmide de Kassab

Por Gaudêncio Penaforte

O PSD opera como o Banco Master da política brasileira: promete retornos impossíveis, recruta depositantes ávidos e, quando o esquema travar, quem paga a conta não será seu fundador.

Antes que alguém considere a analogia ofensiva, convém explicá-la com a precisão que o tema exige. A pirâmide Financeira montada por Vorcaro e seus sócios no Banco Master atraía depositantes com a promessa de rendimentos incompatíveis com qualquer parâmetro racional do mercado.

O esquema só funcionava enquanto novos aportes cobriam os rendimentos prometidos aos cotistas anteriores — e enquanto os desvios colossais com ostentação e corrupção de agentes públicos permaneciam fora do noticiário. O partido-ônibus de Gilberto Kassab opera com lógica análoga: promete um pacote de vantagens igualmente difícil — para não dizer impossível — de honrar no mercado político-eleitoral brasileiro. Ambos os esquemas dependem de recrutamento contínuo de novos entrantes para remunerar quem já está dentro. Ambos prosperam enquanto a música toca. E ambos, quando a música parar, deixarão alguém segurando o mico — quase nunca o fundador.

Dito isso, é preciso reconhecer o que é inegável: Kassab é, de longe, um dos políticos mais experientes do país em atividade. Prefeito de São Paulo de 2006 a 2013, ministro das Cidades no governo Dilma Rousseff, ministro da Ciência, Tecnologia e Comunicações no governo Temer, secretário da Casa Civil de São Paulo na gestão Dória e, nos últimos três anos, supersecretário de Governo e Relações Institucionais do governador Tarcísio de Freitas. Nesse último posto, apostou fichas pesadas que Tarcísio sairia candidato à presidência, abrindo-lhe caminho para o Palácio Bandeirantes. Frustração que ainda digere, porque Bolsonaro — o pai — só conta em quem carrega seu próprio sobrenome. Não falta a Kassab, portanto, trânsito nos três níveis do Executivo, memória institucional e habilidade de sobrevivência política. O que ele construiu ao longo de uma década é o mais bem-acabado modelo de partido-franquia da história republicana brasileira.

O PSD não tem ideologia identificável, não tem militância orgânica, não tem projeto de país. Tem, em compensação, prefeitos — muitos prefeitos. O partido saiu das eleições municipais de 2024 como a legenda com maior número de prefeituras conquistadas no país. Tem governadores, senadores e uma bancada federal que seria a inveja de qualquer máquina partidária europeia.

A estrutura é de causar admiração técnica — e desconforto cívico. Trata-se de uma organização calibrada para colonizar o poder local e estadual, acumular capital político em escala industrial e, na hora do leilão presidencial, apresentar a fatura.

Mas seria um erro ler o PSD como partido municipalista — esse não é o destino, é apenas a alavanca. O alvo real são as bancadas no Senado Federal e na Câmara dos Deputados, onde se concentram os dividendos verdadeiros do sistema: presidências de comissões, relatoria de projetos estratégicos, verbas de emendas individuais e de bancada e, sobretudo, a capacidade debloquear ou viabilizar governos. Em 2026, dois terços das cadeiras do Sena[1]do — cinquenta e quatro no total — estarão em disputa. Para o PSD, essa é a eleição que mais importa. Prefeitos são sementes. Senadores são a colheita.

“O PSD não tem ideologia. Tem prefeitos — e

com prefeitos se planta senadores. Com

senadores, se colhe orçamento.”

Kassab aprimorou e elevou à quinta potência a dimensão transacional da política. É verdade que a política é, em sua essência, a arte de alcançar acordos — em geral programáticos, embora a moeda de troca costumem ser cargos e repartição de poder. O pragmatismo de Kassab vai além: reduz a política à mera transação comercial, em que o que circula não são ideias nem projetos, mas rubricas orçamentárias e cifrões. Nesse mercado, o PSD opera como uma \intech do siologismo — enquanto seus concorrentes do Centrão ainda jogam no balcão tradicional, Kassab gerencia caciques regionais como franqueados, mapeia municípios-chave com precisão e mantém uma bancada “utuante que estica e encolhe ao sabor das conveniências sazonais.

Neste exato momento, com a janela partidária encerrando no dia 3 de abril, os contadores do partido ainda estão computando o saldo líquido de ilações e destiliações — porque até o inventário do estoque é permanentemente aberto.

O Catálogo de Candidatos e o Leilão de Caiado

O lançamento do governador de Goiás, Ronaldo Caiado, como pré-candidato à presidência da República elevou consideravelmente a aposta de Kassab — e merece ser lido com a devida dose de ceticismo. Antes de Caiado, o mesmo papel de produto à venda no balcão do PSD foi cogitado para Ratinho Júnior, do Paraná, e para Eduardo Leite, do Rio Grande do Sul. Três governadores. Três pretendentes. Um único dono do negócio. Não é coincidência: é catálogo. Ratinho desistiu. Leite perdeu a disputa interna — e reclamou, com o mau costume de quem participa de processos seletivos e depois critica o resultado. O escolhido foi Caiado.

Kassab anunciou a decisão como encerramento de uma “etapa relevante de articulação interna, após a avaliação de diferentes nomes com desempenho consolidado em seus estados”. A frase é um eufemismo administrativo de precisão cirúrgica: o que se encerrou foi um leilão de três lotes, com regras definidas pelo leiloeiro. Caiado, herdeiro de uma tradicional oligarquia pecuarista do Centro-Oeste, médico de formação e em seu segundo mandato no governo de Goiás, tratou de apresentar as diretrizes da campanha com a velocidade de quem já tinha o script pronto: anistia ampla, geral e irrestrita a Bolsonaro e aos golpistas de 8 de janeiro, exploração de minerais estratégicos e combate ao crime organizado. O primeiro ato prometido caso eleito seria a anistia. A agenda não deixa dúvida sobre o endereço político da candidatura.

Caiado, é necessário dizer, não é candidato de terceira via — essa ficção reconfortante que a grande imprensa reaquece a cada ciclo eleitoral. Ex-líder da UDR, a entidade criada para combater a reforma agrária durante o governo Sarney e a Constituinte de 1988, o governador de Goiás tem sua via muito bem definida à direita do espectro político. Nenhuma filiação partidária apaga essa biografia. O que muda com sua entrada no PSD é o tarifário da negociação.

A candidatura Caiado pode ser genuína. Pode ser um balão de ensaio. Pode ser — e esta hipótese não deve ser descartada com leveza — o instrumento de barganha mais sofisticado da temporada eleitoral. Kassab sabe, melhor do que qualquer operador político em atividade, que uma candidatura presidencial com musculatura real vale ouro na mesa de negociação de uma vice-presidência. Não importa se a vice é de Lula ou de Flávio Bolsonaro — que a grande imprensa prefere chamar de “Bolsonaro Filho”, como se o sobrenome fosse explícito demais para os olhos do leitor. O que importa é que o PSD tenha, como sempre teve, uma cadeira garantida no governo que vier, acompanhada de uma fatia generosa do Orçamento e da máquina pública.

Ninguém no PSD tem ilusão de que Caiado vencerá em outubro. O que Kassab busca é aumentar seu cacife para escolher, na hora certa, o lado vencedor numa disputa que se anuncia polarizada — e, como prêmio, ampliar a parcela da administração federal que o partido espera controlar na próxima gestão, seja ela de Lula ou de Flávio Bolsonaro. É aí que a analogia com o Banco Master se torna mais precisa: a pirâmide não colapsa porque é desonesta — colapsa porque o modelo de crescimento encontra seu limite físico.

Não há depositantes suficientes no mundo para sustentar rendimentos impossíveis indefinidamente. E não há governo suficientemente generoso para remunerar, ao mesmo tempo, todos os que o PSD prometeu remunerar.

O Centrão se Reorganiza — e se Concentra

Seria injusto apontar o PSD como anomalia num sistema que o produziu e que o necessita. O MDB de Baleia Rossi opera lógica semelhante, com menos eficiência organizacional e mais melancolia histórica — carrega no nome o fantasma de um partido que um dia teve projeto. A novidade mais relevante do cenário em formação, porém, veio na última quinta-feira, 26 de março, quando o TSE aprovou o registro da federação União Progressista, unindo PP e União Brasil numa só frente eleitoral. Os dois partidos, que anunciaram o acordo em abril de 2025 após meses de disputa interna sobre o comando estadual das alianças, funcionarão como uma única legenda na campanha deste ano — somando bancadas, dividindo o fundo eleitoral e facilitando a eleição de deputados. É a quinta federação reconhecida pelo TSE, ao lado de Brasil da Esperança, Renovação Solidária, PSDB-Cidadania e PSOL-Rede.

A União Progressista não é uma fusão ideológica — é uma fusão de conveniência orçamentária. PP e União Brasil concordam em uma coisa: querem estar do lado certo do dinheiro público. Juntos, passam a disputar com o PSD a posição de maior bloco do Centrão. A concentração de forças é, ela mesma, uma resposta ao modelo Kassab: se a Intech do Fisiologismo cresceu demais, os bancos de varejo resolveram se fusionar para não serem engolidos.

“Kassab não inventou o Centrão. Ele o industrializou — e agora seus concorrentes fundem-se para não serem devorados pela fintech do fisiologismo.”

O Botim dos Fundos e o Teste de Estresse de 2026 Para compreender o que está em jogo, é preciso olhar para os números que a política prefere não publicar em manchetes. O PSD é um dos maiores quotistas do Fundo Partidário e do Fundo Eleitoral — os dois mecanismos pelos quais o Estado brasileiro financia, com dinheiro do contribuinte, a manutenção de partidos que, em sua maioria, existem para redistribuir esse mesmo dinheiro entre seus membros. Quanto maior a bancada, maior a fatia.

Quanto maior a fatia, mais recursos para recrutar novos filiados. Quanto mais filiados, maior a bancada. A pirâmide se autoalimenta com dinheiro público — e o contribuinte, involuntário cotista de última instância, rara[1]mente percebe que está depositando.

O problema estrutural do modelo se tornará visível em 2026 — e pode se tornar agudo. O PSD opera internamente como uma federação: seus diretórios estaduais têm autonomia real. Parte deles já sinalizou apoio a Lula; outros tendem a caminhar na direção de Flávio Bolsonaro. Difícil estimar quantos, de fato, apoiariam o candidato do próprio partido — Caiado chegou como recém-!liado, sem enraizamento nas estruturas estaduais que

são a espinha dorsal da máquina. Em eleição polarizada, a neutralidade estratégica que foi a senha de Kassab por anos encontra seu limite geométrico.

Quem apoiar Lula aliena a base bolsonarista; quem apoiar Flávio perde o acesso ao governo federal caso Lula vença. A neutralidade custava pouco quando havia espaço no meio. Em 2026, esse espaço está encolhendo.

Se a candidatura Caiado não decolar — e as probabilidades aritméticas de uma terceira via numa disputa duplamente polarizada são, para usar um eufemismo educado, constrangedoras —, a negociação da retirada será o momento decisivo. Quem entrou no PSD esperando presidência de comissão, ministério ou emenda parlamentar não aceitará de bom grado a fatura renegociada. Bancadas que hoje obedecem ao sinal de Kassab podem come[1]çar a migrar para onde o sinal for mais forte.

O anúncio desta terça-feira confirmou, aliás, o que a análise da pirâmide já antecipava: Kassab liberou os diretórios estaduais do PSD — especialmente no Nordeste — para aderirem à reeleição de Lula. O partido lança candidato à presidência e, simultaneamente, autoriza suas bases a apoiar o adversário.

Não é incoerência: é a pirâmide funcionando em plena forma, captando rendimentos nos dois balcões ao mesmo tempo. O petismo que critica Caiado pela manhã pode receber o apoio do PSD nordestino à tarde. E Kassab, ao centro de tudo, registra o lucro de ambas as operações.

A grande imprensa recebeu o anúncio como notícia. Este artigo o recebe como confirmação. O que os jornais chamam de escolha, a análise chama de precicação. O que os analistas chamam de candidatura, a lógica da pirâmide chama de ativo negociável. Kassab provavelmente encontrará a saída de sempre — uma vice numa chapa vitoriosa, uma secretaria estratégica, o controle silencioso de um partido grande o suficiente para que ninguém ouse desafiá-lo abertamente. O modelo, esse sim, tem data de vencimento.

Pirâmides não colapsam porque seus fundadores são ingênuos. Colapsam porque a geometria do crescimento infinito é incompatível com recursos finitos. No Brasil político, como no financeiro, o território tem limite. O que não tem limite, ao que tudo indica, é a disposição do sistema de recrutar novos depositantes — e a resignação do contribuinte em cobrir o rombo quando a conta chegar, sem sequer ter percebido que estava aplicando.

Gaudêncio Penaforte

Analista político. Escreve sobre poder, institucional

Pedro Ribeiro

Jornalista há mais de 48 anos, com passagem pelos principais meios de comunicação do Paraná e autor de vários livros publicados.

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