Por Dalton Bertolim Precoma –
O envelhecimento é uma fase da vida caracterizada por alterações biológicas, fisiológicas, psicológicas e sociais. Nesse contexto, é fundamental o papel da família, da sociedade e do Estado no atendimento ao idoso, assegurando direitos à cidadania, dignidade, qualidade de vida, bem-estar e cuidado integral.
Atualmente, a população mundial de indivíduos com 60 anos ou mais é de aproximadamente 1,2 bilhão de pessoas, correspondendo a cerca de 12% da população global. Esse contingente cresce a uma taxa estimada de 30 a 35 milhões de indivíduos ao ano, o que representa um incremento anual de aproximadamente 2,5% a 3%. Trata-se de um dos fenômenos demográficos mais relevantes do século XXI. No Brasil, segundo dados do IBGE, existem cerca de 30 milhões de idosos, correspondendo a aproximadamente 14% da população total.
A medicina moderna, fortemente orientada por protocolos clínicos, tecnologias diagnósticas avançadas e crescente padronização assistencial, corre o risco de se afastar de seus fundamentos mais essenciais. Nesse cenário, torna-se imperativo resgatar os princípios do cuidado centrado na pessoa, e não apenas na doença.
A humanização do atendimento ao idoso pressupõe a valorização da individualidade e da autonomia do paciente geriátrico. O médico deve estabelecer uma comunicação clara, empática e respeitosa, o que implica dedicar tempo adequado à consulta, escutar ativamente o paciente, compreender suas preocupações e explicar, de forma acessível, os diagnósticos e as opções terapêuticas.
Esses princípios, embora clássicos, permanecem fundamentais para o fortalecimento da relação médico-paciente, contribuindo para maior adesão ao tratamento e redução dos sentimentos de insegurança e abandono, frequentemente relatados na população idosa.
No Brasil, a Lei nº 8.842/1994, regulamentada pelo Decreto nº 1.948/1996, estabelece a Política Nacional do Idoso, visando garantir seus direitos sociais e promover autonomia, integração e participação ativa na sociedade. Posteriormente, em 2000, o Ministério da Saúde instituiu o Programa Nacional de Humanização da Assistência Hospitalar (PNHAH), representando um marco na incorporação da humanização como diretriz institucional, posteriormente reforçada pelo Estatuto do Idoso.
A atuação da classe médica e das equipes multiprofissionais deve ultrapassar o âmbito estritamente técnico da consulta. Alinhado às recomendações da World Health Organization e da American Geriatrics Society, o cuidado ao idoso deve ser baseado em uma avaliação multidimensional, considerada o núcleo da prática humanizada.
Essa abordagem compreende:
» Dimensão clínica: multimorbidade, polifarmácia, fragilidade e síndromes geriátricas
» Dimensão psicológica: humor, cognição e enfrentamento da doença e da finitude
» Dimensão social: rede de apoio, condições socioeconômicas e grau de dependência
» Dimensão espiritual: crenças, valores, sentido de vida e expectativas em relação ao tratamento
A incorporação da dimensão espiritual representa um avanço importante no cuidado integral, permitindo alinhar as decisões terapêuticas aos valores do paciente e qualificar a abordagem do sofrimento, especialmente em condições crônicas
e avançadas.
Atualmente, existem centros especializados no atendimento ao idoso que incorporam esses princípios. No entanto, tais práticas devem ser igualmente valorizadas em consultórios, clínicas e hospitais. O ambiente assistencial deve ser acolhedor, com tempo de consulta adequado, equipe capacitada e atenção às limitações sensoriais frequentemente presentes nessa população.
O acolhimento inicial é determinante para o estabelecimento do vínculo terapêutico. A escuta ativa e a valorização da narrativa do paciente permitem uma compreensão mais precisa da queixa principal e podem evitar investigações excessivas, muitas vezes desnecessárias e potencialmente deletérias.
Outro aspecto central do atendimento humanizado é a valorização da funcionalidade, incluindo:
» atividades básicas da vida diária (higiene, vestir-se)
» mobilidade
» risco de quedas
» manejo de medicações
» independência nas atividades instrumentais
Após essa avaliação estruturada, o planejamento terapêutico deve ser conduzido por meio de decisão compartilhada, envolvendo o paciente e seus familiares. É fundamental apresentar as opções de forma clara, discutir riscos e benefícios e respeitar valores e preferências individuais. Sempre que possível, deve-se priorizar a qualidade de vida, sem desconsiderar o prolongamento da sobrevida quando apropriado.
Nas fases avançadas de doença, quando os cuidados paliativos se tornam pertinentes, o foco deve ser direcionado ao controle de sintomas, ao conforto e à preservação da dignidade.
A humanização do cuidado ao idoso não se limita ao prolongamento da vida por meio de avanços tecnológicos, mas resulta da integração entre ciência, organização dos sistemas de saúde e valores humanos.
Esse processo envolve não apenas os profissionais de saúde, mas também a família e o Estado, exigindo uma abordagem ampla, ética e centrada na pessoa.
Cuidar do idoso é, sobretudo, preservar sua dignidade, autonomia e sentido de vida.
(*) Dalton Bertolim Precoma é médico, professor e acadêmico titular da Academia Paranaense de Medicina (Cadeira 32). Foi presidente da Sociedade Paranaense de Cardiologia. É Chefe do Serviço de Cardiologia e Diretor de Ensino e Pesquisa Clínica do Hospital e Maternidade Angelina Caron.





