Por Gaudêncio Penaforte –
O Banco Mundial divulgou, em 8 de abril de 2026, seu relatório Panorama Econômico da América Latina e o Caribe — quase cem páginas de projeções, gráficos e advertências que, como todo bom horóscopo, contêm verdades incontestáveis, previsões temerosas e a ressalva implícita de que o futuro, afinal, é incerto. Os astros, desta vez, sorriram para a Argentina e franziram o cenho para o Brasil.
A cartomância institucional é a seguinte: o Brasil crescerá 1,6% em 2026 — recuo expressivo ante os 2,3% de 2025 e os 3,4% de 2024. A Argentina, por sua vez, avançará 3,6%, consolidando a recuperação após a queda de 1,3% em 2024. Lidos assim, os números sugerem uma inversão histórica que encanta ideólogos de todos os matizes. Convém, porém, não largar as cartas antes de ler o baralho completo.
O diagnóstico sobre o Brasil
O economista-chefe do Banco Mundial para a região, William Maloney, identificou dois vetores de pressão sobre a economia brasileira: fatores externos, como o choque nos preços do petróleo decorrente do conflito no Oriente Médio, e fatores domésticos — notadamente as taxas de juros elevadas e seu impacto sobre famílias crescentemente endividadas.
A projeção de 1,6% converge com a do Banco Central, embora fique abaixo da expectativa do mercado financeiro — 1,85%, segundo o boletim Focus — e bem abaixo da estimativa do Ministério da Fazenda, que aposta em 2,3%. A divergência entre as próprias instituições domésticas é, por si só, um indicador honesto de quanto as previsões valem quando o vento muda de direção.
Não se trata, sublinhe-se, de uma economia em colapso. O Brasil continua sendo a maior economia da América Latina, com setor industrial diversificado, agronegócio de alta produtividade e competitividade global em segmentos sofisticados. O próprio Maloney, ao distribuir elogios junto com as más notícias — como convém a um bom cartomante —, citou nominalmente a Embraer como exemplo de excelência industrial e destacou o padrão tecnológico da agricultura brasileira. O vidente, afinal, não é ingrato.
A Argentina e a sedução dos números que sobem
A recuperação argentina merece leitura cuidadosa — o tipo de leitura que os entusiastas do milagre de Milei costumam dispensar. O Banco Mundial projeta 3,6% de crescimento para 2026 e 3,7% para 2027, números que vêm depois de dois anos consecutivos de retração e de uma expansão de 4,4% em 2025, ela própria edificada sobre um piso excepcionalmente deprimido.
Crescer a partir da penúria é matematicamente mais simples. A base de comparação destruída amplifica percentuais de recuperação sem que isso signifique, necessariamente, a construção de uma economia mais robusta, diversificada ou socialmente sustentável. O ajuste fiscal de Milei — draconiano na compressão de gastos e na desregulamentação acelerada — produziu estabilização macroeconômica, mas à custa de custos sociais ainda não inteiramente contabilizados. O horóscopo de hoje não garante o de amanhã.
O próprio Banco Mundial qualifica a Argentina como “principal exceção positiva” na região, ao lado de economias menores como Paraguai, Costa Rica, El Salvador, Guatemala e Honduras — companhia que recomenda alguma moderação antes de transformar Buenos Aires na nova Suíça das pampas.
O milagre paraguaio e o comércio de fronteira
Menção especial merecem os astros do Paraguai, que o relatório do Banco Mundial aponta como economia que “continua a superar a média regional” — e não é de hoje. O país vem registrando taxas de crescimento anuais superiores a 5%, dignas de comparação com o vigor outrora associado às economias asiáticas. Os analistas institucionais atribuem o fenômeno à estabilidade macroeconômica, à agroindústria competitiva e ao ambiente de negócios favorável. Há, porém, um motor adicional que as tabelas do Banco Mundial capturam com menos entusiasmo: o próspero comércio de fronteira em Ciudad del Este, onde toneladas de mercadorias chinesas — eletrônicos, têxteis, perfumes e itens de difícil classificação alfandegária — atravessam o rio Paraná com uma regularidade que envergonharia qualquer cadeia logística formal. É possível que parte do milagre paraguaio deva mais à criatividade dos sacoleiros de Foz do Iguaçu do que aos modelos econométricos que o justificam. Os cartomantes do Banco Mundial, convenhamos, têm lá seus pontos cegos.
O contexto que os profetas costumam omitir
Para a América Latina como um todo, o Banco Mundial reduziu a projeção de crescimento de 2,3% para 2,1%, em cenário marcado pela elevação dos preços do petróleo, pelo impacto logístico no Estreito de Ormuz e pela incerteza em torno da política comercial norte-americana. São choques exógenos que afetam toda a região sem distinção de ideologia governante — inclusive a Argentina de Milei, cujos astros podem estar mais nublados do que as projeções de abril sugerem.
Uma nota sobre a arte de prever
Projeções institucionais são instrumentos analíticos respeitáveis — desde que não se os confunda com verdades reveladas. Elas capturam tendências observáveis no momento de sua elaboração, mas são estruturalmente cegas para choques imprevistos, inflexões políticas abruptas e a dinâmica própria de economias tão complexas quanto Brasil e Argentina. A história econômica de ambos os países é um cemitério bem cuidado de previsões sepultadas pelos fatos — para o bem e para o mal.
O que os números de abril de 2026 efetivamente sinalizam é que o Brasil enfrenta restrições reais de curto prazo — fiscais, financeiras e externas — que limitam seu potencial de crescimento imediato. O que eles não autorizam é a conclusão de que a solidez estrutural brasileira se equipara à trajetória de instabilidade crônica que marcou a Argentina nas últimas décadas. São situações de natureza distinta, separadas por décadas de história econômica, por instituições de calibres diferentes e por uma resiliência que não cabe em coluna de planilha.
O Banco Mundial fez seu trabalho. Cabe ao leitor fazer o seu: ler as previsões com o mesmo ceticismo gentil que se reserva para o horóscopo de domingo — útil para pensar, insuficiente para decidir.
(*) Gaudêncio Penaforte é analista político e observador pouco paciente de certezas alheias.





