Alta das exportações brasileiras impõe novos desafios jurídicos às operações internacionais

Diversificação de mercados, múltiplas jurisdições, exigências fiscais e aduaneiras pressionam empresas a estruturar governança mais robusta.

O comércio internacional brasileiro alcançou um novo patamar em 2025, ao registrar US$ 348,7 bilhões em exportações, segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços. O resultado foi obtido mesmo em um cenário pressionado por conflitos regionais, restrições logísticas em rotas estratégicas e aumento de barreiras tarifárias, fatores que ampliaram a complexidade das operações. O crescente dinamismo desse ambiente global reforça o papel da advocacia especializada na estruturação jurídica das operações, cumprimento de acordos comerciais e sustentação da competitividade das empresas brasileiras em novos mercados.

“As transformações recentes no comércio internacional, marcadas por tensões geopolíticas, regionalização de cadeias produtivas e novos acordos comerciais, têm levado as empresas a adotar estruturas jurídicas mais flexíveis e sofisticadas”, avalia André Bettega D’Ávila, sócio-coordenador da Andersen Ballão Advocacia. Segundo o advogado, a reorganização do comércio global exige uma abordagem mais estratégica na condução das operações. “Há um movimento de diversificação de riscos, com a utilização de múltiplas jurisdições para produção, distribuição e financiamento”, afirma.

O crescimento das exportações brasileiras, que avançaram 3,5% em valor e 5,7% em volume em 2025, superando a projeção de 2,4% da Organização Mundial do Comércio, indica não apenas maior inserção internacional, mas também aumento da exposição a diferentes regimes regulatórios. À medida que empresas ampliam sua atuação global, passam a lidar com exigências técnicas, fiscais e administrativas que variam conforme o país de destino.

De acordo com Maicon Borba, sócio-coordenador da Andersen Ballão Advocacia, operações de importação e exportação envolvem um conjunto amplo de obrigações legais que vão além do fluxo físico de mercadorias. “Não se trata apenas do transporte, mas de um conjunto de obrigações legais, documentais e fiscais que acompanham cada operação”, reforça.

Riscos operacionais no comércio internacional

A complexidade normativa segue como um dos principais pontos de atenção. Maicon explica que o desconhecimento ou a interpretação inadequada das regras de comércio exterior ainda representa o maior fator de risco. “A legislação é extensa, fragmentada e frequentemente atualizada por diferentes órgãos governamentais”, pontua.

Esses desafios se materializam em falhas operacionais que podem comprometer a regularidade das operações. Ainda conforme Maicon, erros na classificação fiscal, no enquadramento de regimes aduaneiros e na formação do valor estão entre os problemas mais recorrentes. “O risco jurídico não está apenas no erro formal, mas em equívocos que impactam diretamente a operação”, explica.

Na visão do advogado, a adoção de práticas estruturadas de compliance torna-se indispensável. Maicon orienta que a organização interna deve assegurar consistência e rastreabilidade das informações. “É fundamental garantir alinhamento entre contratos, faturas comerciais, conhecimentos de transporte e declarações aduaneiras”, afirma.

Resolução de disputas em diferentes jurisdições

Ao mesmo tempo, a atuação em múltiplas jurisdições exige uma construção contratual precisa. André lembra que a advocacia desempenha papel central na definição de regras que assegurem previsibilidade nas relações comerciais. “O papel da advocacia é estruturar a operação de modo a evitar litígios e garantir segurança jurídica”, destaca.

Além da prevenção, mecanismos de solução de controvérsias ganham relevância nas relações transnacionais. De acordo com André, a arbitragem internacional consolidou-se como instrumento preferencial para resolução de disputas. “Ela oferece neutralidade, especialização e maior facilidade de execução das decisões”, diz.

Com o avanço da digitalização e o fortalecimento de controles posteriores ao desembaraço aduaneiro, a tendência é de maior sofisticação nas exigências regulatórias para o comércio internacional. Por isso, a atuação jurídica assume caráter estratégico ao integrar análise normativa, gestão de riscos e compreensão do cenário global, contribuindo para que empresas brasileiras sustentem sua presença em mercados cada vez mais competitivos no futuro.

Pedro Ribeiro

Jornalista há mais de 48 anos, com passagem pelos principais meios de comunicação do Paraná e autor de vários livros publicados.

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