O primeiro foi Guto Silva. A pergunta que fica: quem será o próximo
Conversei, nos últimos anos, várias vezes com Guto Silva, um técnico capaz que contribuiu, nos últimos sete anos, para a construção de um Paraná melhor. Sempre nos atendeu com gentileza e respeito. Até hoje não consegui uma entrevista com o governador Ratinho Junior e entendo, ele tem outras prioridades.
Mas, o que aconteceu na última semana, foi um desastre político. A política deixou de ser articulação e passou a ser apenas cálculo frio, de curtíssimo prazo.
Quando Guto Silva foi alijado do processo e ouviu isso do próprio governador na sala onde, por centenas de vezes esteve apresentando projetos para discutir o Estado, foi um baque. Saiu do gabinete sem terminar a conversa.
Escanteado pelo núcleo duro
Sim, Guto foi escanteado do núcleo duro do grupo de Ratinho Junior após anos de fidelidade quase inquestionável e não se trata de mais uma troca de peças no tabuleiro. É um recado. E recados, na política, raramente vêm sem destinatários múltiplos.
O que aconteceu não foi só uma escolha estratégica mirando 2026. Foi uma demonstração explícita de que, no jogo do poder, currículo de lealdade não garante permanência. No máximo, adia o descarte. Guto não caiu por acaso. Caiu porque, em algum momento, deixou de ser útil na engrenagem que hoje prioriza nomes com maior viabilidade eleitoral imediata, ainda que isso custe a confiança interna.
Quando um grupo político começa a tratar seus quadros como peças substituíveis ao sabor das pesquisas e dos humores de ocasião, instala-se um ambiente de insegurança permanente. Hoje foi Guto. Amanhã, pode ser qualquer outro. Inclusive aqueles que, neste exato momento, batem continência e repetem o discurso oficial como se fosse dogma.
Não se trata aqui de ingenuidade — ninguém entra na política sem saber que ela é feita de movimentos duros. Mas existe uma linha tênue entre estratégia e oportunismo. Quando essa linha é ultrapassada com naturalidade, o efeito colateral é devastador: corrói-se a confiança interna, estimula-se o fisiologismo e transforma aliados em meros figurantes de um projeto personalista.
Abrigo em outras trincheiras
Nos bastidores, o que se ouve não é surpresa, mas inquietação. Deputados, secretários e aspirantes a voos maiores começam a fazer contas. Vale a pena manter fidelidade cega a um grupo que pode, a qualquer momento, virar as costas? Ou é melhor antecipar o movimento e buscar abrigo em outras trincheiras antes de virar estatística política? Isto já está acontecendo.
O caso Guto Silva pode até parecer um episódio isolado. Não é. É sintoma de um modelo que, quando levado ao extremo, implode por dentro. Porque grupos políticos que não cultivam confiança acabam reféns do próprio medo — medo de deserções, de traições, de rachaduras.
A pergunta que fica no ar, ecoando nos corredores do poder, é simples e incômoda: quem será o próximo a descobrir que, no fim das contas, lealdade tem prazo de validade?





