Autismo na vida adulta: professor descobre diagnóstico após os 40 e amplia debate sobre o tema

Com diagnóstico tardio, docente compartilha desafios, estratégias e reforça a importância de olhar para o espectro além da infância.

O autismo ainda é frequentemente associado à infância, mas uma realidade pouco discutida começa a ganhar visibilidade: a de adultos que vivem no espectro e só recebem o diagnóstico ao longo da vida. No mês de conscientização sobre o tema, o Abril Azul, a história do professor do UniCuritiba, Sérgio Czajkowski Jr., ajuda a ampliar esse debate.

Professor universitário, consultor estratégico e mentor de startups, Sérgio possui formação interdisciplinar nas áreas de Direito, Comunicação, Psicanálise, Sociologia Política e Marketing. Atua em cursos de graduação e pós-graduação e também é autor de um artigo sobre autismo na vida adulta publicado no livro “Autismo na Prática – Um Guia Multidisciplinar para pais, cuidadores e terapeutas”.

O diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista (TEA) veio apenas após os 40 anos, depois de episódios de esgotamento físico e mental que culminaram em desmaios.

“Eu sempre tive autismo, mas depois do diagnóstico muitas coisas passaram a fazer sentido. Situações do passado que não se explicavam começaram a se encaixar”, relata.

Autismo não é doença e não desaparece

Um dos pontos que o professor destaca é a necessidade de desconstruir a ideia de que o autismo é uma doença.

“O autismo não é uma doença, então não existe cura. O que existem são características que, combinadas, moldam comportamentos e exigem diferentes níveis de suporte ao longo da vida”, explica.

Ele também chama atenção para um aspecto ainda pouco debatido: a continuidade do autismo ao longo da vida. “As pessoas precisam entender que crianças autistas se tornam adultos autistas. O autismo não desaparece”, afirma.

Diagnóstico tardio e desafios invisíveis

A descoberta do autismo na vida adulta ainda é um desafio, em grande parte pela escassez de estudos voltados a essa faixa etária.

“A maior parte das pesquisas é feita com crianças. Isso dificulta o diagnóstico e faz com que muitas pessoas passem anos sem entender o que estão vivendo”, diz.

No caso do professor, o alerta veio após episódios de “shutdown”, um estado de esgotamento extremo.

“Eu comecei a desmaiar. Em um dos episódios, apaguei e só acordei horas depois. Foi o que me fez buscar ajuda.”

Segundo ele, o autismo envolve, entre outros fatores, uma hipersensibilidade sensorial que pode tornar o cotidiano mais desgastante.

“Luz, barulho, cheiros… tudo pode ser mais intenso. Isso gera um cansaço muito grande. Se a pessoa não consegue administrar, pode entrar em colapso emocional ou simplesmente ‘apagar’.”

Masking e adaptação no dia a dia

Sergio também destaca o chamado “masking”, quando a pessoa aprende a adaptar comportamentos para se encaixar socialmente.

“Eu passei décadas treinando respostas e formas de agir para me adaptar. Isso faz com que muitas pessoas não percebam, mas tem um custo muito alto”, afirma.

Com o diagnóstico, ele passou a reorganizar a rotina para preservar a saúde física e mental, com pausas ao longo do dia, redução de estímulos e busca por ambientes mais tranquilos.

“Como eu não consigo mudar o mundo, eu adapto o meu dia a dia para torná-lo menos agressivo”, diz.

Comorbidades e impacto na qualidade de vida

No caso do professor, o autismo também convive com outras condições de saúde, como TDAH, hipomania e doenças autoimunes, entre elas a doença de Crohn e o vitiligo.

“Em muitos momentos, o desgaste não vem só do autismo, mas da combinação de fatores”, explica.

Embora o diagnóstico tenha vindo apenas na vida adulta, os sinais estavam presentes desde a infância, como dificuldades de interação social, hipersensibilidade e comportamentos repetitivos, características que, na época, não foram compreendidas como parte do espectro.

Além dos estereótipos

Para o docente, é fundamental ampliar a compreensão social sobre o autismo e romper com visões limitadas.

“As pessoas ainda associam o autismo a personagens de filmes, mas o espectro é muito amplo. Cada pessoa tem suas características e suas formas de lidar com o mundo”, afirma.

Ele também defende ambientes mais inclusivos, com adaptações simples que podem fazer diferença no dia a dia, como espaços mais silenciosos e maior compreensão sobre as necessidades sensoriais.

Ao compartilhar sua trajetória, ele espera contribuir para que mais pessoas reconheçam sinais e busquem apoio.

“Quando você entende o que está acontecendo, muda tudo. Muda a forma como você se enxerga e como você cuida da sua vida”, conclui.

Pedro Ribeiro

Jornalista há mais de 48 anos, com passagem pelos principais meios de comunicação do Paraná e autor de vários livros publicados.

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