A política sem memória e sem gratidão

O descarte de uma lealdade com prazo de validade, porém, recorrente e histórica.

A política, por si só, já é uma ciência complicada. Mas o político ou o agente público que aprende a usá-la como ferramenta de conveniência consegue ser ainda mais.

Ele molda discursos e descarta relações como quem troca de gravata. É o tipo que entende o jogo, sim, mas escolhe jogá-lo sem qualquer compromisso além do próprio interesse. Gratidão? Essa palavra não funciona para eles.

Usam enquanto precisam, ignoram quando já não serve. Fracassam no básico da convivência humana.

O personagem da vez é desses que confundem lealdade com conveniência e gratidão com fraqueza. Enquanto precisava, era presença constante.

Hoje, com lugar bem confortável ao sol ou na água saborosa e rica no governo de Ratinho Junior, é mestre em números que agradam o chefe e os sócios da empresa. Não foi evolução. Foi revelação. Tem jurisprudência.

Não é ingratidão apenas .É cálculo e, esse tipo de figura,  não abandona aliados por acaso; descarta quando julga que já não servem mais. Trata relações como utensílios: usa, desgasta e joga fora.

É como se o cargo emprestasse caráter. Como se sentar numa estatal lhe desse estofo moral. Não dá. Cargo não amplia ninguém — só revela o tamanho real.

A ilusão de grandeza costuma durar pouco. A política é um terreno onde a memória não perdoa e a queda, quando vem, não avisa. E quando esse dia chegar — porque chega — não vai faltar quem lembre exatamente quantos degraus humanos foram pisoteados na subida.

No fim, sobra o retrato: não de alguém que venceu, mas de alguém que se revelou pequeno demais para a própria ascensão.

Pedro Ribeiro

Jornalista há mais de 48 anos, com passagem pelos principais meios de comunicação do Paraná e autor de vários livros publicados.

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