Quem é o verdadeiro master do teatro de títeres do Senado?

Senadores que votaram ‘não’ a Messias terão dignidade de reconhecer que foram usados como bucha de canhão?

Por Gaudêncio Penaforte

Na ressaca da semana mais turbulenta do governo Lula 3, uma pergunta persiste nesta manhã ensolarada de sábado na capital federal: será que algum senador ou senadora que aceitou participar do teatro de títeres de Alcolumbre — desempenhando o papel de boneco comandado pelas mãos frenéticas do presidente do Senado, de tanta excitação com o desfecho da farsa montada no plenário na quarta-feira (30), sacramentando a rejeição da indicação de Jorge Messias para o STF — terá a dignidade tardia de vir a público e reconhecer que foi usado como bucha de canhão numa trama conduzida pelo presidente da Casa, com o concurso de Alexandre de Moraes? Difícil acreditar que da confraria de Macunaímas se levante algum Brás Cubas disposto a fazer um mea culpa por tomar parte num espetáculo tão sórdido, que envergonha a história da República.

A imprensa, por sua vez, insiste na narrativa do “concerto” conduzido em dueto por Alcolumbre e Moraes. Folha, Estadão e O Globo convergem na mesma direção, com fontes independentes e detalhes operacionais que tornam a negação cada vez mais difícil. O jantar na mansão do ministro no Lago Sul, na véspera da votação, com Alcolumbre como convidado de honra, virou o símbolo maior de uma articulação que, se confirmada, redefine os limites do que se considera aceitável na relação entre o Judiciário e o Legislativo. O próprio Messias, segundo a Folha de hoje, cogita deixar o governo — e Lula insiste para que fique. Mais um custo silencioso de uma semana que o Planalto preferiria esquecer.

O novo herói do sistema — e a sombra de Eduardo Cunha

A imprensa elegeu Davi Alcolumbre o grande vencedor da semana. O Estadão dedica espaço hoje ao que chama de “fenômeno Alcolumbre” — o articulador que dobrou o governo duas vezes em menos de 24 horas, primeiro com a rejeição histórica de Messias ao STF, depois com a derrubada do veto presidencial à dosimetria. Virou o novo herói do sistema: celebrado pelos bolsonaristas, temido pelo Planalto, cortejado pelo centro.

Mas a história tem memória mais longa do que o noticiário. Alcolumbre está para o governo Lula 3 como Eduardo Cunha esteve para o governo Dilma 2: o aríete dos bárbaros que querem assaltar o botim da República. Cunha também foi, em seu momento, o articulador invencível, o presidente da Câmara que humilhava o Executivo e impunha derrotas com a desenvoltura de quem conhece todos os atalhos do poder. Terminou destituído, julgado e condenado por corrupção — e foi cumprir pena no presídio de Piraquara, na região metropolitana de Curitiba.

Alcolumbre é realmente um fenômeno — mas do tipo que a história costuma julgar com severidade. É o fenômeno do fisiologismo elevado à quinta potência: a captura do aparato do Estado para servir a interesses privados e paroquiais, prática tão recorrente na política brasileira que já quase não causa espanto. O conceito tem nome antigo e nobre na ciência política: patrimonialismo. Foi Max Weber quem o formulou para descrever sistemas em que o poder público é tratado como extensão do patrimônio pessoal do governante ou de suas clientelas — em que a fronteira entre o público e o privado se dissolve a ponto de se tornar irreconhecível.

No Brasil, essa tradição sobreviveu a repúblicas, ditaduras e redemocratizações. Alcolumbre não a inventou. Mas a pratica com uma destreza que merece registro. O Amapá é a sua capitania hereditária — o território donde extrai a legitimidade eleitoral que lhe permite, de Brasília, operar como senhor feudal da política nacional. Do alto dessa posição, distribui favores, cobra lealdades e pune inimigos com a naturalidade de quem nunca precisou explicar a ninguém de onde vem o seu poder.

O escândalo do Banco Master assombra Alcolumbre com a persistência de um fantasma que não aceita exorcismo. A condição sine qua non que impôs para entregar as duas derrotas ao governo — enterrar qualquer CPI que mirasse o Master — não é o gesto de um estadista. É o movimento de um bicho acuado que ataca como diversionismo, na esperança de que o barulho do combate apague o rastro que deixou para trás. O futuro de Alcolumbre, à luz do precedente Cunha, não parece mais promissor do que seu presente ruidoso.

A voz dissonante de Reinaldo Azevedo

Só uma voz se levantou em defesa de Moraes: a do controvertido jornalista Reinaldo Azevedo, cuja pena — de aluguel ou não — já serviu a muitas causas ao longo de uma carreira marcada por reviravoltas. Com retórica afiada e erudição ostensiva — Umberto Eco, Machado de Assis e Humphrey Bogart convocados em auxílio —, Azevedo apela à absoluta falta de lógica na simples cogitação de que Moraes tenha decidido se auto-imolar na Praça dos Três Poderes, em congraçamento com seus verdugos e a turba bolsonarista.

O argumento central de Azevedo tem a virtude da coerência interna: por que Moraes agiria para fortalecer o campo que mais sistematicamente pede o seu impeachment, entregando de bandeja ao bolsonarismo uma vaga adicional no STF — caso Flávio Bolsonaro vença a eleição? A resposta que circula nos bastidores — e que o colunista descarta com escárnio — é a do interesse comum no sepultamento da CPI do Master. Azevedo chama essa explicação de “tese conspiratória alucinada” e invoca o Alienista de Machado: haveria um Simão Bacamarte na imprensa que conseguiu convencer todos os colegas de Itaguaí de que nada existe no Brasil que não passe pelo Banco Master.

É um argumento que merece ser levado a sério — não porque Azevedo o faça com elegância, mas porque a lógica tem sustentação própria. A hipótese do conchavo exige que se acredite que Moraes agiu conscientemente contra seus próprios interesses de longo prazo, em favor de adversários declarados, motivado por um cálculo de curto prazo cuja recompensa sequer está clara. Isso não é impossível na política brasileira — onde o paradoxo e o contra-senso são moeda corrente —, mas tampouco é óbvio.

O que permanece sem resposta

O problema de Azevedo não é o argumento — é a evidência que ele ignora. O jantar de terça-feira existe. Os emissários mencionados por Malu Gaspar existem. As seis fontes ouvidas pela colunista, entre integrantes do STF, do Congresso e do meio político e jurídico, existem. Desmontar tudo isso com ironia e referências cinéfilas é retoricamente elegante, mas epistemicamente insuficiente.

Moraes divulgou nota confirmando o jantar, mas negando qualquer articulação contra Messias. Segundo a assessoria do STF, o evento prestava homenagem a Mário Luiz Sarrubbo — procurador, ex-secretário Nacional de Segurança Pública e amigo de Moraes há 35 anos pelo Ministério Público de São Paulo. Uma explicação plausível, em tese.

O problema é que, segundo relatos de outros convidados, foi justamente naquele jantar que Alcolumbre circulou em pequenos grupos anunciando que a quarta-feira seria “dia histórico” no Senado — e que já contava com cerca de 50 votos para barrar Messias. A presença não exclui a conversa. E a conversa, se confirmada, é o coração do caso.

Os senadores que votaram “não” seguem em silêncio conveniente. Alcolumbre celebra, seguro no seu feudo. E Alexandre de Moraes aguarda, com a nota enviada, que o assunto esfrie — como tantos outros antes dele.

O Brasil merece saber quem foi o master e seus assistentes de palco que conduziram o triste espetáculo de bonecos que se assistiu no plenário do Senado. Ironicamente, tudo isso acontece na semana em que a Casa celebra o seu Bicentenário — o que nos alerta, com melancólica precisão, de que a República ainda está inconclusa.

Gaudêncio Penaforte

Analista político e observador dos bastidores da República

Pedro Ribeiro

Jornalista há mais de 48 anos, com passagem pelos principais meios de comunicação do Paraná e autor de vários livros publicados.

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