A palavra que forma identidade na relação entre afeto, correção e pertencimento

Por Maria Klien

Identidade não é comportamento. Essa perplexidade, que muitos de nós experimentamos, está no cerne de tantos impasses emocionais que se estendem desde a infância e persistem na idade adulta. E quando um gesto se torna uma definição do eu, a psique não permite mudança. O inconsciente não reconhece como uma pessoa age de forma diferente de quem ela é. Trata a linguagem como uma extensão da realidade. Então, quando uma criança ouve “você é bagunceiro”, “você é preguiçoso”, “você é difícil”, ela não recebe isso como uma observação, uma única vez.

Essa afirmação se insinua como um axioma sobre seu ser. Como pessoa, então, ela começa a organizar seu comportamento para manter essa imagem. A mente precisa de coerência para existir. Porque ser alguém, mesmo com um rótulo, é mais seguro do que ser sem saber quem se é. Assim, a criança se torna fiel ao eu que recebeu. O comportamento deixa de ser um acontecimento; é algo que deve ser repetido continuamente para evitar que o eu se desintegre.

É por isso que tantos processos de correção falham. Quando um adulto tenta eliminar um comportamento atacando a identidade, isso produz o efeito oposto. O sintoma é fixado, não por resistência ao ser feito com consentimento consciente, mas agora se tornou algo que o núcleo do eu passou a proteger. Mudar o comportamento é renunciar à única imagem de si que o indivíduo conhece. O campo psíquico se reorganiza quando a linguagem desvincula o ato da identidade.

Este quarto não combina com quem você é” sustenta o eu e responsabiliza a ação. O consciente vê o limite. O inconsciente não precisa se proteger. Com isso vem a verdadeira oportunidade de transformação. Essa estrutura não enfraquece realmente com a idade. Ela ressurge fortemente em relacionamentos afetivos.

A maioria dos adultos tem relacionamentos que abraçam como infantis, não porque não podem, mas porque quem eles são foi formado nesse ambiente. O parceiro que se transforma em bebê. A mãe como parceira. O adulto que passa a existir apenas a partir do olhar do outro que retorna. Quando alguém declara “você nunca faz nada certo”, “você é irresponsável”, “você não consegue lidar com isso”, não estão apenas reagindo a uma situação. Estão desenhando uma identidade. No inconsciente do outro, essa afirmação se registra como fato ontológico e começa a estruturar o comportamento para afirmar tal lugar.

Não se trata de fraqueza, mas de compromisso psíquico com a conexão que os mantém vivos. A infantilização não é complacência. É uma adaptação a uma história. Isso significa que manter esse papel atribuído é mais seguro do que temer não saber mais quem você é.

Essa pessoa aceita ser pequena porque foi quando essa identidade encontrou força. Muitos conflitos conjugais não são conflitos sobre atitudes, mas conflitos sobre identidade. E um busca alterar o comportamento do outro, mas não dá ao outro o nome, através do qual o problema persiste, através da linguagem. A nomeação do problema faz com que ele seja o que você deseja corrigir. Mudar o termo muda o campo psíquico. Assim que alguém diz “o que você fez não é quem você é”, o eu não é mais ameaçado por essas palavras. O inconsciente não precisa se proteger. O relacionamento se torna uma arena de possibilidades em vez de um ato de agressão.

Enquanto a identidade individual estiver assegurada e o comportamento for considerado responsável, a maturidade é estabelecida. E só pessoas que sentem isso podem agir assim. As crianças crescem quando não precisam necessariamente estar lutando para existir. Os adultos crescem quando não são diminuídos em partes menores de si mesmos. Estar desconectado da ação não é um processo educacional. É um princípio clínico que permite a mudança sem a obliteração da identidade.

(*) Maria Klien exerce a psicologia, se orientando pela investigação dos distúrbios ligados ao medo e à ansiedade.

Pedro Ribeiro

Jornalista há mais de 48 anos, com passagem pelos principais meios de comunicação do Paraná e autor de vários livros publicados.

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