Por Jomar Silveira Giostri –
– Wie heist? Wie gehts? Bradou energicamente o Dr. Mário de Abreu à beira do leito durante a visita clínica que fazia rotineiramente com os assistentes, residentes e estudantes de Medicina que também acompanhavam o ilustre professor no 8° andar do Hospital de Clínicas da UFPR. Tratava-se de uma paciente de descendência germânica, oriunda do interior de Santa Catarina, já idosa e que não falava uma palavra em português. Havia sido operada no dia anterior, submetida a uma tireoidectomia, por patologia que não recordo. Em razão de se comunicar somente no idioma alemão, os residentes estavam encontrando dificuldades para saber se a paciente estava bem e que nenhuma lesão do nervo laríngeo recorrente havia acontecido. Como sabemos este nervo é sempre motivo de preocupações em tireoidectomias, pois ele cruza o campo operatório e deve sempre ser identificado e reparado durante esta intervenção cirúrgica.
O residente da disciplina na qual o Professor Mário era catedrático (era assim que denominavam na época o professor titular) estava apreensivo pois não conseguia fazer a paciente falar e também, por ter sido ele o responsável pelo ato operatório, estava visivelmente nervoso e incomodado. Se a paciente não conseguisse falar ou apresentasse rouquidão, poderia ter cometido lesão iatrogênica daquele nervo e teria sérios problemas, pois o “velho” Mário, como nós o chamávamos, além de passar uma descompostura na “criatura”, como Dr. Mário costumava se referir aleatoriamente àqueles que porventura não cumpriam a cartilha de disciplina, ética, rigor científico e aplicação nos estudos da Cirurgia.
Todos ficaram aliviados quando o Dr. Mário, falando em alemão com a paciente, descobriu que ela estava perfeitamente bem, a mulher surpresa e feliz ao perceber que finalmente poderia se comunicar com alguém. Assim respondeu à inquisição do professor: “Estou bem, eu me chamo Tussnelda e resido no interior de Santa Catarina”. A sonoridade e a limpidez da voz demonstraram que o nervo laríngeo estava intacto e cumprindo suas funções fisiológicas, para o alívio do residente e do professor assistente que tinha conduzido o ato operatório, e que era também o preceptor do residente, que agora respirava aliviado. A paciente estava curada.

O Dr. Mário, desde jovem, se preocupou em estudar outros idiomas. Como naquela época os avanços científicos ocorriam principalmente na Europa, Mário de Abreu se preocupou em estudar francês e alemão, já que tinha em seu imaginário fazer um aprimoramento no exterior, notadamente na França e na Alemanha. Era uma época em que o cirurgião fazia tudo, inclusive a ortopedia, na época uma especialidade que ganhava força principalmente na Alemanha com Kirchner, com Kuentschner e com Steinmann.
A carreira universitária subitamente caiu no colo do Dr. Mário. Em 1934 falece o Professor Szymon Kossobudzki, que era o chefe da Clínica Cirúrgica da Santa Casa de Misericórdia, sendo então chamado para substituir o grande professor de origem polonesa, de quem era assistente. Em 1935, Mário de Abreu faz concurso para professor livre-docente da Faculdade de Medicina e, já no ano seguinte, embarca para a Europa para realizar seu curso de aprimoramento.
Até 1937, quando já se prenunciava um grande conflito na Europa, Dr. Mário visitou serviços de cirurgia em Paris, na Alemanha e na Áustria. Imagino como deve ter sido difícil para o Dr. Mário atravessar as fronteiras destes países e ter convivido com as manifestações nazistas na Alemanha e na Áustria. Entretanto, o Dr. Mário nunca se interessou por política; estava mesmo imbuído de absorver conhecimentos médicos.
Na Alemanha, frequentou o serviço de Cirurgia Geral do Professor Rütz em Berlim e Urban-Kranhkenhauses, do Professor Gohrbandt. Em Heidelberg, ele frequentou o serviço do grande Professor Kirschner, o médico que revolucionou a ortopedia com a osteossíntese. Em Viena, esteve no serviço do Professor Böhler.
Antes de começar a Segunda Guerra Mundial ainda deu tempo de estudar em Paris, no Hospital Cochin, serviço do Professor Mathieu, e no Salpetriére, com o Professor Gosset, o inventor do afastador, e também com o Professor Mondor, no Hospital Bichat. Ao retornar para Curitiba, trazia uma bagagem de estudos impressionante, pois ainda havia estagiado em serviços de Cirurgia de Montevidéu com os professores Navarro, Acevedo Blanco e Prat, e também em Buenos Aires, com os professores Arce e Finochietto, o maior cirurgião sul-americano, inventor também do afastador que leva seu nome.
Existem muitas histórias do Prof. Dr. Mário Braga de Abreu e poderemos futuramente até expandir este artigo. Muito nos orgulha de ter convivido com o Professor Mário. Algumas vezes me senti honrado de levá-lo para sua casa, no alto da Rua Vicente Machado; e mais lisonjeado ainda por ter me convidado inúmeras vezes para tomar uma sopa em sua sala de jantar. Aliás, que caía muito bem naqueles gélidos dias de inverno curitibano.
Dr. Mário não dirigia mais veículos naqueles idos de 1975, e, na saída da visita aos doentes na Santa Casa, sempre algum residente era designado para levar o “velho” em casa. Um dia, como muitos estavam impossibilitados de levar o Dr. Mário, eu me ofereci e o conduzi cuidadosamente à sua residência. Ele apreciou meus cuidados e diversas outras vezes eu o levei.
Este episódio da senhora alemã, operada da tireoide, retrata bem como era uma visita do Dr. Mário aos pacientes nas enfermarias do HC, e também na Santa Casa. Uma organização e um respeito impressionante para com o professor catedrático da Clínica Cirúrgica. Em todos os leitos ele parava, discutia o caso com os residentes, fazia perguntas a eles e participava das orientações e condutas individualmente. Eventualmente, quando algum residente não respondia corretamente aos quesitos formulados por ele, ou cometia algum deslize, ele logo falava: – Menino, não é assim. Precisa estudar mais. E logo ensinava como deveria ser feito, com a maestria habitual.
Curiosamente, hoje a maioria da nossa turma tem a idade do Dr. Mário. Eu tenho hoje a mesma idade que o Dr. Mário tinha em 1974, quando ele deu aula para nós, lá no HC. Meu Deus, a gente achava o Dr. Mário um velho, que arrastava o sapato quando caminhava. A vida passa senhores. Esta aula, da qual tenho ainda recordações, nosso colega Roberto Boscardin perguntou para o Dr. Mário: – Dr. Mário o que é uma colostomia? O “velho” respondeu: – Menino, tem muita coisa para você aprender antes de saber sobre colostomia! (Rsrsrsr…)
(*) Jomar Silveira Giostri é médico cirurgião geral e gastroenterologista, escritor e acadêmico titular da Academia Paranaense de Medicina, cadeira 60.
(**) Mario Braga de Abreu, chamado de “Bisturi de Ouro” e o terceiro cirurgião do País a receber a Medalha de Mérito Médico São Lucas, é patrono da cadeira 59 da Academia Paranaense de Medicina. Para saber mais sobre o médico, clique AQUI.





