Por Paulino Motter –
Um guri desgonçado diagnosticado precocemente com cataratas congênitas que comprometiam quase 70% da visão de um dos olhos — se era o direito ou o esquerdo, já se passaram tantos anos que nem me recordo. Sétimo filho de um casal de agricultores familiares do Oeste paranaense, Adilson teve que usar óculos desde os três anos, com lentes tão grossas que pareciam fundo de garrafa. Que aquele guri de cabelos encaracolados e aloirados chegaria tão longe, nem a famosa pitonisa de Nova Aurora poderia prever.
Pois bem, na noite de 7 de maio de 2026, no auditório lotado da Escola Naval, no Rio de Janeiro, o filho da Dona Maria — que neste próximo dezembro completará noventa anos — e do seu Otávio — que morreu na pandemia de COVID-19, em setembro de 2021 —, foi empossado membro correspondente da Academia Brasileira de Ciências.
Mas para chegar lá, Adilson teve que vencer cada degrau no modo difícil. Aos quinze anos saiu de Cafelândia para Curitiba para fazer o cursinho pré-vestibular. Juntou-se a mim e ao nosso irmão Irineu na Casa do Estudante Universitário. Só havia um problema: como ainda não era universitário, não tinha direito a um quarto. Tinha que se contentar com o chamado “pombal dos vestibas” — cubículos nos quais só cabia um colchonete. Para ter direito ao alojamento e se manter nos estudos, trabalhou como recepcionista na própria CEU.
Foi aprovado no concorrido vestibular de Odontologia da UFPR. Recusou. Preferiu tentar a UNICAMP para estudar Física — um curso de excelência onde todo o corpo docente tinha doutorado. Era uma aposta alta
para um guri sem recursos do interior do Paraná. Ele apostou.
“E ele se virou como?”
Adilson Enio Motter é físico. Doutorou-se em 2002 pela UNICAMP, sob orientação do Professor Patricio Letelier. Antes de ingressar na Northwestern University, em 2006, fez pós-doutorado como Director’s Fellow no Centro de Estudos Não-Lineares do Laboratório Nacional de Los Alamos e como cientista visitante no Instituto Max
Planck de Física de Sistemas Complexos, em Dresden.
Hoje ocupa a cátedra Charles E. and Emma H. Morrison Professor of Physics and Astronomy e dirige o Center for Network Dynamics, à frente do Motter Group. Seu laboratório investiga sincronização, falhas em cascata, controle de redes e aplicações em redes elétricas inteligentes e biologia de sistemas.
É fellow da American Physical Society, da AAAS e da Network Science Society. Ganhou o Prêmio Erdős–Rényi em Ciência de Redes, uma Sloan Research Fellowship e uma bolsa da Simons Foundation em Física Teórica, entre outras distinções. Aos 52 anos, o caçula da família tem uma carreira acadêmica consolidada em um dos centros de maior prestígio dos Estados Unidos.
A cerimônia de posse foi à altura. A Sessão Solene da Reunião Magna da ABC reuniu, no mesmo palco, a diplomação dos novos membros, a entrega do Prêmio Almirante Álvaro Alberto para Ciência e Tecnologia e ho
menagens do CNPq — com apoio da Fundação Conrado Wessel e da Marinha do Brasil. Compuseram a mesa a ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação, Luciana Santos, a presidente da ABC, Helena Bonciani Nader, e o chefe do Estado-Maior da Armada, almirante Arthur Bêttega Corrêa, entre outras autoridades.
Na saudação aos empossados, a vice-presidente da ABC Mercedes Bustamante foi direta: a eleição para a Academia não é uma recompensa por uma carreira concluída, mas um apelo a um dever maior. E enumerou o
que a instituição esperava dos novos membros: fazer ouvir a voz, defender o método científico e olhar para os lados — porque os grandes avanços do próximo século, disse ela, estarão nas interseções entre disciplinas.
Em nome dos recém-empossados, falou o acadêmico Altigran Soares da Silva. O que os une, disse ele, não é o objeto de estudo, nem o método, nem sequer a linguagem — mas uma atitude diante do mundo: a disposição de perguntar de novo, a recusa em aceitar o evidente apenas porque ele parece evidente. Ao final, deixou claro o que o diploma representa: não como ponto de chegada, mas como compromisso.
Adilson veio ao Brasil especialmente para ser empossado. Depois foi a Curitiba visitar a mãe e prestar-lhe tributo antes de retornar aos Estados Unidos. Embora já esteja radicado lá há duas décadas, faz questão de cultivar
estreitas relações com a família no Brasil. A lha Yara, de sete anos, cresce bilíngue — o português e a cultura brasileira fazem parte da sua identidade e da sua alfabetização, como herança viva do Brasil que o pai carrega
consigo.
Nenhum de seus irmãos e sobrinhos pôde comparecer à cerimônia — e não se espera que o Cafelândia News tenha dado manchete sobre o filho da cidade que se tornou membro correspondente da ABC. Mas o orgulho
que sentimos, todos nós, é do tamanho daquelas lentes de fundo de garrafa que ele carregou desde os três anos. O guri desengonçado que dormiu no pombal dos vestibas, que trocou a Odontologia pela Física e trocou o Paraná pelo mundo, é hoje provavelmente o cientista brasileiro da área de Física mais publicado em periódicos internacionais.
Estive no casamento dele em Evanston, em 2016 — fui o único irmão presente. O casamento com a americana Alyssa, professora de dança — arte que definitivamente nosso pai não deixou como herança para os filhos, talvez com exceção do primogênito Adelar e, sobretudo, do quinto filho Irineu, conhecido como o pé de valsa da família —, deu ao Adilson direção, estabilidade e propósito de vida. Com a chegada da graciosa Yara, tudo se completou. E acho que o seu Otávio também saberia disso — lá de onde ele espirra agora, com aquela força toda que a gente conhece.
(*) Paulino Motter é bacharel em Comunicação Social/Jornalismo pela UFPR (1988) e em Ciências Sociais pela PUC-PR (1987), doutor em Educação pela Universidade de Wisconsin-Madison (EUA, 2008) e mestre em Ciência Política pela Universidade de Brasília (UnB, 1994).





