A volta do Messias? Só acredita quem quiser.

Por Gaudêncio Penaforte –

Logo após a derrota histórica no Senado, Lula disse a Messias que “a vaga é sua”. Bonito gesto de lealdade. O problema é que a vaga, juridicamente, não é de ninguém — e as regras do jogo são mais complicadas do que o presidente parece disposto a reconhecer. Circula com insistência, e ganhou força neste final de semana, a notícia de que Lula teria decidido reindicar Messias ao STF. Muito bem. Mas antes de celebrar ou lamentar, convém ler um documento singelo, de 2010, assinado por José Sarney à frente da Mesa do Senado Federal. O Ato da Mesa n.º 1, em seu artigo 5.º, é de uma clareza desconcertante para quem não se deu ao trabalho de lê-lo: ““É vedada a apreciação, na mesma sessão legislativa, de indicação de autoridade rejeitada pelo Senado Federal.”

Traduzindo para o português da política real: Lula pode reindicar Messias quando quiser. O Senado simplesmente não é obrigado a votar — e não votará. A sessão legislativa de 2026 vai de fevereiro a dezembro, com o intervalo do recesso de julho. A reapreciação de um nome rejeitado só seria possível a partir de fevereiro de 2027. Ou seja: stalemate. Xeque sem xeque-mate. O rei fica parado no centro do tabuleiro, exposto, sem ter para onde mover.

Não é teimosia de Alcolumbre. É o regimento. O mesmo que o presidente do Senado aplica com muito gosto, mas que existiria independentemente de qualquer gosto pessoal.

Dito isso, permito-me uma especulação que acho consideravelmente mais interessante do que a narrativa dominante.

Desconfio — apenas desconfio — que toda esta movimentação em torno da reindicação de Messias sirva, antes de tudo, como cortina de fumaça. Enquanto a imprensa e os formadores de opinião discutem se Lula tem ou não condições de insistir no mesmo nome, articulações silenciosas em torno de um candidato alternativo correm em ambientes que não são os das páginas dos jornais. A melhor jogada de xadrez, como todo enxadrista sabe, é aquela que o adversário não viu.

O nome que me ocorre — e que me parece o mais inteligente do tabuleiro — é Bruno Dantas.

Presidente do TCU, 46 anos, jurista de formação sólida, político por instinto e por treinamento. Nos últimos dias, visitou José Sarney. Quem vai visitar Sarney para pedir conselho sobre uma aventura no setor privado? Ninguém com o nível de ambição de Bruno Dantas. Aquela visita tem cheiro de bênção, não de despedida. Fala-se também numa saída antecipada de Dantas do TCU em direção ao setor privado — especulação que, quanto mais circula, menos me convence. Brasília não é lugar para quem troca poder por salário.

Bruno Dantas tem o que Messias não conseguiu reunir: apoio transversal no Senado, trânsito fácil com Alcolumbre, respeitabilidade técnica que desarmaria parte da oposição, e a aura de independência institucional que o cargo de presidente do TCU confere — por mais que essa independência seja sempre relativa na capital federal. Seria o curinga para o tie-break que interessa simultaneamente a Lula e a Alcolumbre: o presidente da República entrega um nome que o Senado aceita; o presidente do Senado recebe um nome que pode vender como produto da sua influência. Todo mundo ganha. Exceto Messias — mas esse já perdeu, e perdeu bem, com a dignidade de quem sabe que não foi ele o julgado.

O que acontece com Messias nesse cenário? Fica onde está, na AGU, aguardando. A promessa de Lula tem prazo de validade estampado: só vale a partir do quarto mandato, ainda hipotético mas cada vez menos improvável no horizonte eleitoral brasileiro. No próximo quadriênio, três dos atuais ministros do STF — Luiz Fux, Gilmar Mendes e Cármen Lúcia — alcançarão a idade da aposentadoria compulsória. Descontado o inesperado, o próximo presidente fará três indicações para a Corte. Uma delas, eventualmente, poderá ter o nome de Messias — desde que ele tenha paciência e desde que Lula ganhe. Por ora, a vaga não é de ninguém. A cadeira segue vazia. E o teatro continua.

(*) Gaudêncio Penaforte é analista político e observador do bastidores da República em Brasília.

Pedro Ribeiro

Jornalista há mais de 48 anos, com passagem pelos principais meios de comunicação do Paraná e autor de vários livros publicados.

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