Muito além dos números: a verdade devastadora do último Datafolha

Por Gaudêncio Penaforte –

A pesquisa Datafolha divulgada na última sexta-feira, 22 de maio, foi recebida com alívio no campo bolsonarista e com frustração mal disfarçada entre os apoiadores do projeto de reeleição do presidente Lula. A expectativa era que o escândalo revelado pelo Intercept Brasil — a relação promíscua entre o pré-candidato do PL Flávio Bolsonaro e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, figura central no maior escândalo financeiro da história do Brasil — tivesse provocado uma derrocada mais acentuada nas intenções de voto. Não foi o que os números mostraram. E a maioria das análises que têm circulado está, por isso, olhando na direção errada.

Os números existem e precisam ser registrados. No primeiro turno, Lula foi a 40% contra 31% de Flávio — distância de nove pontos, ante os três pontos da rodada anterior. No segundo turno, o presidente chegou a 47% e o senador recuou a 43%, destruindo o empate técnico de 45% a 45% que existia em meados de maio. Há ainda um dado que passou despercebido em boa parte dos comentários: a rejeição de Flávio chegou a 46%, superando pela primeira vez a de Lula, que ficou em 45% — invertendo o quadro anterior, em que o presidente acumulava 47% de rejeição contra 43% do senador. Esse cruzamento, discreto nos gráficos, é um sinal estrutural.

Vale registrar, a propósito, um dado que passou ainda mais despercebido: na intenção espontânea de voto — aquela em que o eleitor evoca o candidato sem ser induzido, metodologicamente a mais reveladora da saliência real —, a vantagem de Lula sobe para onze pontos, 28% a 17%. É o próprio eleitorado, sem pauta dada pelo entrevistador, quem amplia a distância. Sintomático, ainda, que Jair Bolsonaro apareça com 2% de menções espontâneas — superando individualmente Caiado, Zema e Renan Santos. O pai, cumprindo pena e inelegível, ainda rivaliza com os candidatos nanicos da direita. Isso diz tudo sobre a vacuidade da oposição.

Mas insisto: esses números são o menos importante.

Para entender o que realmente está em jogo, é preciso recorrer a um conceito formulado pelo professor Venício A. de Lima, um dos mais rigorosos pesquisadores brasileiros da interface entre mídia e política. Lima desenvolveu, a partir da observação da eleição presidencial de 1989 — quando percebeu a Rede Globo construindo ativamente a viabilidade de Fernando Collor —, o que chamou de Cenário de Representação Política (CR-P). A tese central é deceptivamente simples, mas de consequências analíticas profundas: dificilmente um candidato vencerá uma eleição se não ajustar sua imagem pública ao cenário de representação dominante — ou se não for capaz de construir um cenário alternativo que conquiste hegemonia. Os cenários, na formulação de Lima, não são espelhos da realidade: são construções. Não representam o mundo político — eles o constituem.

O conceito dialoga diretamente com o que a literatura internacional de comunicação política consagrou como framing — o processo pelo qual a mídia, os atores políticos e as instituições selecionam, enfatizam e organizam determinados aspectos da realidade para produzir interpretações dominantes. O frame não diz ao eleitor o que pensar, mas define o território dentro do qual ele pensa. Enquadra o possível. Delimita o legítimo. Na tradição de Entman, Gitlin e Goffman, o framing é o mecanismo pelo qual certas narrativas se tornam hegemônicas — e pelo qual candidatos são construídos ou destruídos muito antes das urnas.

O que estava sendo erguido em torno de Flávio Bolsonaro era precisamente isso: um cenário de representação cuidadosamente fabricado, sustentado por um frame específico. O filho 01 seria a versão palatável do bolsonarismo — moderno, institucional, descolado do radicalismo do pai, e, segundo os operadores financeiros da Faria Lima, até fiscalmente responsável. A mídia colaborava. O mercado apostava. A pré-campanha investia. O cenário estava sendo hegemonizado.

O escândalo Vorcaro não arranhou esse cenário. Ele o demoliu.

E aqui reside o mecanismo central que as análises superficiais do Datafolha insistem em ignorar: quando um frame colapsa, não é possível remendá-lo. A credibilidade de um cenário de representação depende de coerência narrativa — e a coerência foi destruída pela própria conduta do senador. A coletiva convocada para conter os danos, em vez de moderação, entregou bolsonarismo em estado puro: ataques a instituições, tentativa de transformar investigação em perseguição política, recusa a responder perguntas da imprensa. O frame do candidato “novo” foi substituído, diante das câmeras, pela reedição fiel do manual do pai.

O cenário de representação que agora se consolida é o inverso — e favorece estruturalmente Lula. No novo frame dominante, Flávio Bolsonaro não é mais o antídoto ao bolsonarismo: é sua continuidade genética. Não é a renovação da direita: é a prova de que ela não existe. E num eleitorado já saturado de escândalos familiares — rachadinha, imóveis comprados em dinheiro vivo, milícias, 8 de janeiro —, esse cenário tem todas as condições de se consolidar como narrativa hegemônica até outubro.

Sobre o argumento da responsabilidade fiscal, é preciso ser direto: é uma piada. E precisa ser dito com todas as letras.

Flávio Bolsonaro iniciou seu primeiro mandato como deputado estadual no Rio de Janeiro em 2002. Está encerrando agora seu primeiro mandato de oito anos no Senado. São quase 25 anos de carreira política — sua única carreira. Assim como o pai e os outros três filhos, jamais exerceu outra atividade na vida que não fosse a política. A família Bolsonaro constitui uma S.A. familiar cuja única atividade econômica conhecida é a expropriação de recursos públicos — via rachadinha, via compra de dezenas de imóveis com dinheiro vivo, via aparelhamento sistemático do Estado. Como é possível presumir, com alguma seriedade intelectual, que um rebento desse clã viesse a tratar o erário com responsabilidade? É um conto da carochinha.

A Faria Lima, é claro, tem seu papel nessa história — e não é um papel honroso. O que incomoda nos bastidores do mercado financeiro não é tanto o conteúdo dos áudios em si, mas a contradição entre o que Flávio disse a interlocutores da avenida nos últimos meses — que não tinha qualquer relação com Vorcaro — e a realidade que os fatos expuseram. No Polymarket, plataforma que a própria Faria Lima usa como termômetro político, o senador chegou a liderar as apostas com 44% de probabilidade de vitória. Após a divulgação do áudio, suas chances despencaram 13 pontos percentuais em uma única sessão, chegando a 28%. O mercado, que se vendia como analista frio e racional, apostava num candidato sem programa econômico consistente — cuja agenda se resumia a promessas genéricas de privatização e corte de gastos —, iludido pela embalagem de um produto que nunca existiu.

O áudio revelado pelo Intercept e, sobretudo, a visita que Flávio fez pessoalmente a Vorcaro logo após a primeira prisão — com tornozeleira eletrônica — não são apenas fatos políticos inconvenientes. São o momento em que a narrativa se desfaz. Nenhum marqueteiro — e o próprio marqueteiro da campanha já foi trocado, após avaliação interna de que a gestão de crise foi desastrosa — será capaz de ressuscitar a imagem de um candidato “novo” e “confiável” depois que o eleitorado assimilou a cena do senador indo cumprimentar, na saída da prisão, o protagonista do maior escândalo financeiro da história do país. E nos bastidores do centrão já circula a aposta de que há mais revelações por vir.

Há, é preciso admitir, um aspecto paradoxalmente positivo para o campo lulista no fato de a candidatura Flávio não ter derretido de vez — ao menos por ora. Enquanto ele acredita que permanece competitivo e que a memória do eleitorado não dura até outubro, ele segue no jogo. É o adversário que o campo progressista prefere enfrentar. Um resultado ainda apertado também tem o efeito colateral útil de evitar o salto alto na campanha que se organiza em torno de Lula.

A questão que permanece em aberto é se esse espaço será ocupado por outro candidato da direita. A reação do governador de Minas, Romeu Zema, que classificou a atitude de Flávio como “imperdoável”, e o interesse renovado do mercado em alternativas como Caiado sinalizam uma reorganização em curso. Mas enquanto nenhum terceiro candidato alcançar dois dígitos nas pesquisas de intenção de voto, a polarização se mantém — e Flávio Bolsonaro sobrevive mais por ausência de alternativa do que por mérito próprio.

Há um último detalhe que a história não perdoará. O filme que deveria resgatar a lenda do pai se chama “Dark Horse” — o azarão, o pangaré, na tradução que o próprio Intercept consagrou. A ironia é quase literária. O filho, que nas primeiras milhas da corrida se fez passar por alazão — moderno, palatável, fiscalmente responsável —, vai vestindo os arreios do cavalo paraguaio no decurso da campanha. A real natureza do animal está sendo revelada. O pangaré é filho legítimo do Dark Horse. E cavalos assim não vencem corridas — eles apenas ocupam a pista até que alguém os retire.

(*) Gaudêncio Penaforte é analista político e observador do bastidores da República em Brasília.

Pedro Ribeiro

Jornalista há mais de 48 anos, com passagem pelos principais meios de comunicação do Paraná e autor de vários livros publicados.

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